"Carmilla" | © MOTELX

MOTELx ’19 | Carmilla, em análise

Carmilla”, de Emily Harris, traz vampiras lésbicas, puritanismos vitorianos e paixões reprimidas ao MOTELx. O filme integra a secção Serviço de Quarto do festival.

Desde a sua publicação original, em 1872, que o romance gótico “Carmilla” tem vindo a inspirar e influenciar artistas e a enfeitiçar leitores. Nessa obra, o escritor irlandês Joseph Sheridan Le Fanu concebeu uma poderosa amálgama de ansiedades sexuais vitorianas e da mitologia do vampiro que ainda hoje reverbera pela nossa cultura popular. É certo que o “Drácula” de Bram Stoker viria a ofuscar a obra. Contudo, é igualmente certo assumir que o vampiro mais famoso do mundo foi, em parte, influenciado pela vampira lésbica original. Face a tal importância nos anais do terror, não admira que “Carmilla” tenha vindo a ser ciclicamente adaptado para o cinema ao longo do último século.

A mais recente adaptação aparece-nos pela mão da realizadora e argumentista Emily Harris. A cineasta concebeu uma depuração do romance original, eliminando personagens e simplificando o enredo até que o que sobra é uma história primordial de desejos e tentações. O esqueleto básico da narrativa sobrevive, contudo. Esta continua a ser a história de Lara, uma jovem que vive muito isolada na companhia do pai enviuvado. Uma noite, um catastrófico acidente de carruagem traz para sua casa uma rapariga misteriosa. Ela, que dá pelo nome de Carmilla, lá permanece em convalescença e, lentamente, vai-se aproximando de Lara.

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Obsessão erótica e o desabrochar da primeira paixão recíproca enfeitiçam a adolescente e esta cai nas garras de Carmilla. Do mundo exterior, sabem-se de histórias de outras raparigas que morreram de maladias inexplicáveis e tudo aponta para Carmilla como a causa dessas desgraças. Ela é uma vampira ancestral em busca de novas vítimas, mas os seus sentimentos por Lara não são necessariamente o engodo de uma assassina fria. Nada disso importa para os entes queridos da inocente, que engendram a ajuda de um médico conhecedor de vampiros para aniquilarem a malvada Carmilla e assim salvar a rapariga que ela seduziu.

Tal descrição pode sugerir uma sensacional orgia de erotismo e muito sangue, mas este “Carmilla” é um filme que prefere o sussurro ao grito. Por vezes, essa preferência é demasiada e acabamos mesmo por ter um drama que ensona mais do que fascina. Essa qualidade soporífera muito provém dos literais sussurros que enchem a banda-sonora, assim como de uma estética enfadonha com constantes grandes planos e luz natural. Este é um filme de época em busca de realismo e de intimidade, pelo que tais escolhas são entendíveis. É pena, portanto, que não resultem de forma particularmente boa.

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“Carmilla” tenta injetar minimalismo onde minimalismo não tem lugar. Harris obscurece os ambientes setecentistas com contraluzes ásperos e composições limitadas, torna diálogos corriqueiros em tapeçarias de planos claustrofóbicos e jamais tenta explorar a interioridade das suas protagonistas além da superfície e de breves fantasias oníricas. Essa opacidade de personagens ajuda a manter-se uma aura de mistério, mas também torna o drama em algo obtuso e amorfo. Francamente, a cineasta parece ter confundido inação com tensão.

Não querendo fazer desta crítica uma listagem de más escolhas da realizadora, há que se sublinhar como este “Carmilla” difere positivamente de tantas outras versões do mesmo conto. Ao invés de seguir à risca os mesmos códigos morais que definiram o romance original, Harris questiona e critica essas mesmas crenças. Veja-se como a sua personagem titular continua a ser fonte de mistério e perigo, de sedução e grotesco, só que, aquando da sua inevitável derrota, não há triunfo. Matar jovens pelo seu sangue é pérfido, mas o modo como as personagens deduzem a malvadez de Carmilla é igualmente malévolo.

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Ao longo do filme, muitas referências são feitas a uma religiosidade fervorosa e tóxica. Lara é recorrentemente vítima da rispidez de Miss Fontaine, a perceptora que lhe ata a mão esquerda atrás das costas para a obrigar a ser destra. Para a mulher adulta, pessoas esquerdinas chamam o Diabo e há que tentar salvá-las através de tais metodologias. Não é que “Carmilla” reimagine a vampira como uma heroína trágica e a perceptora como uma vilã, simplesmente complica o modo como o espectador é levado a encarar as suas personagens. Aliás, a própria Fontaine é alguém cuja vida foi moldada por regras sociais e desejos reprimidos. Ela é uma vítima também.

Lara, Carmilla e Miss Fontaine, tal como são concebidas por Emily Harris, são personagens intrigantes e complicadas. Elas são salvas de conceções de moralidade vitoriana e refeitas à imagem de um cinema queer e feminino do século XXI. Aplaudimos tudo isto, ao mesmo tempo que nos confessamos insatisfeitos por “Carmilla”. As suas partes são melhores que o todo. Apesar de oferecer personagens interessantes, o filme não sabe o que fazer com elas, perde-se em grotescas imagens de insetos com simbolismo óbvio e numa formalidade monótona. Queremos deixar-nos imergir na tempestade emocional destas mulheres, suas angústias e seus dilemas, mas “Carmilla” mantém-se sempre distante do espectador, sempre com uma barreira, uma vitrine entre nós e o filme, algo que abafa o som e abafa o sentimento.

Carmilla, em análise
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Movie title: Carmilla

Date published: 12 de September de 2019

Director(s): Emily Harris

Actor(s): Hannah Rae, Devrim Lingnau, Jessica Raine, Greg Wise, Tobias Menzies, Lorna Gayle, Colin Blumenau, Daniel Tuite

Genre: Drama, Romance, Terror, 2019, 96 min

  • Cláudio Alves - 60
60

CONCLUSÃO:

“Carmilla” é uma interessante adaptação do epónimo clássico de literatura oitocentista que popularizou o arquétipo da vampira lésbica. O filme reimagina as personagens e sublima a história até chegar aos seus elementos essenciais. Infelizmente, o minimalismo não resulta por completo e a experiência total é um tanto ou quanto remota, em termos emocionais, e esteticamente monótona.

O MELHOR: O modo como Emily Harris confronta os binários morais patentes no romance gótico em que “Carmilla” se baseia.

O PIOR: O minimalismo cinematográfico que resvala em aborrecimento e cria uma barreira entre o espetador e a complicada mente das suas três personagens centrais. Isso e uma cena de sexo heterossexual que parece meio despropositada e atonal.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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