Os melhores guarda-roupas de 2016 | 1. Carol

Sandy Powell prova mais uma vez que é uma deusa entre figurinistas, e conquista, com Carol, o topo da nossa lista dos melhores guarda-roupas no cinema de 2016.

 


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carol figura de estilo sandy powell

O ano passado, quando publicámos uma lista dos melhores guarda-roupas no cinema de 2015, a figurinista Sandy Powell teve o mérito e a honra de ser celebrada com o primeiro lugar da seleção. Só que, anteriormente, destacámos a sua capacidade para conceber fantasias românticas e explosões de excesso mirabolante em Cinderela. Agora propomo-nos a salientar facetas muito menos vistosas do seu trabalho, nomeadamente a subtileza no uso da cor, dos materiais, a inteligência e naturalismo na reprodução de época e a sagacidade emocional dos seus figurinos para Carol, a mais recente obra-prima de Todd Haynes.

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Para quem assuma que sagacidade emocional é algo impossível de aplicar a vestuário, desengane-se já de tal noção errónea. Num filme passado na América do início dos anos 50 que se centra num romance lésbico, a interioridade das personagens é algo que raramente pode ser expresso com a abertura e liberdade que teríamos numa proposta romântica mais heteronormativa e contemporânea. Isso resulta numa obra de olhares silenciosos, toques que reverberam com a intensidade de explosões e toda uma construção cinematográfica a seguir tais limitações e códigos. Há quem acuse Carol de ser um filme frio e de ter falta de química, mas isso, longe de ser um erro, é uma das suas facetas mais inteligentes e intencionais e está precisamente relacionado com a sua ligação à interioridade emocional das personagens.

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Com efeito, a fotografia de Ed Lachman evita criar jogos de pastiche híper-colorida e melodramática que Haynes tinha explorado em Longe do Paraíso, outro filme passado nos anos 50, e em que escolhe uma estética de cores esbatidas inspirada em fotografias da época. Pelo meio das suas imagens granulares, no entanto, cores fortes aparecem subitamente, dando vida a uma imagem outrora gélida. De modo semelhante, a banda-sonora, mais do que indicar à audiência as emoções que devia sentir, parece ser algo mais próximo do sentimento convertido em música, muitas vezes atmosférica, mas ocasionalmente melódica e quase abstrata. Os figurinos, por seu lado, criam um discurso concetual e emocional que segue e complementa estas mesmas linhas fotográficas e musicais, resultando num filme de soberba coerência estética e harmonia formal.

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Veja-se, por exemplo, a ênfase dada ao luxo dos materiais do vestuário de Carol Aird. Tal obsessão meio tátil, meio visual, tem razões dramatúrgicas para existir, sendo que o estatuto socioeconómico e idade da personagem em relação a Therese, sua amante jovem e muito menos abastada, são um dos elementos centrais dos monólogos internos do livro de onde o filme é adaptado. No entanto, não estamos perante uma escolha exclusivamente feita com o intuito de desenhar um mundo realista, mas sim de uma ilustração do olhar da pessoa apaixonada. Queremos com isto dizer que os figurinos convidam à imaginação do toque, esse gesto tão íntimo, transgressivo e potencialmente erótico. Não é por acaso que Powell passou grande parte do seu processo à procura do casaco de pele perfeito para a personagem titular, sendo que sua suavidade deveria vibrar da imagem filmada e sua sofisticação elegante teria de ser igualmente percetível.

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De igual modo, a cor e o padrão servem de fenomenal apontamento emocional e estético, inserindo pequenas explosões aqui e ali, como o lenço escarlate que Carol enverga durante o seu primeiro almoço com Therese. Ou note-se a cumplicidade dos padrões axadrezados da jovem e o seu namorado que, no entanto, são separados pelos cinzentos e azuis dele em contraste com os calorosos vermelhos e amarelos dela – estão superficialmente unidos, mas nos detalhes nota-se a sua distância emocional. Carol e o seu marido, em contraste, são duas almas gémeas de luxo e elegância sofisticada que, no entanto, são separados pelo estoicismo masculino e negro das suas indumentárias e a severidade feminina e colorida que ela evidencia em todas suas cenas.

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Como nota final, gostaríamos de destacar como Sandy Powell é uma das melhores figurinistas de filmes de época a trabalhar atualmente. Este filme é o perfeito exemplo da sua inteligência e mestria, pois, ao invés de criar um mundo de clichés da moda dos anos 50, Powell construiu o guarda-roupa de Carol com base em estilos do pós-guerra, dos anos 40, usando os cortes mais modernos para evidenciar estatuto social e sofisticação pessoal. Therese, por exemplo, passa de roupas práticas e démodé a uma indumentária mais rica e próxima das modas de inspiração francesa em voga na época. Isso reflete tanto o seu crescimento profissional como emocional, pois foi em Carol e seu estilo tirado diretamente das capas da Vogue, que a jovem adquiriu tais gostos. Em conclusão, os figurinos de Carol, quer os julguemos com base em exatidão histórica, pretexto dramatúrgico, evolução das personagens ou simbiose estética com o resto do filme, são, numa só palavra, perfeitos.

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Assim termina a nossa lista dos melhores guarda-roupas do cinema de 2016. Se te interessas por este lado visual da sétima arte e suas muitas complexidades, vem explorar a nossa rúbrica Figura de Estilo, onde poderás encontrar muitas análises aos figurinos de variadíssimas obras, incluindo uma exploração muito mais detalhada das roupas de Carol.

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