Chão Verde de Pássaros Escritos, a Crítica
Na semana em que se comemora o 52.º aniversário do 25 de Abril de 1974 estreou nas salas de cinema nacionais um filme português que reflete sobre os difíceis tempos do Estado Novo num caso particular: o de Luandino Vieira. Deixamos a nossa opinião sobre “Chão Verde de Pássaros Escritos” (2026, Sandra Inês Cruz).
“Chão Verde de Pássaros Escritos” é, pois, um retrato íntimo de Luandino Vieira, com o seu testemunho atual e com arquivos de época. Estreia nas salas de cinema com distribuição da Films4You.
Qual a narrativa de Chão Verde de Pássaros Escritos?
“Chão Verde de Pássaros Escritos” é um documentário onde o escritor luso-angolano Luandino Vieira reflete sobre o seu passado. Apesar do filme nos dar a conhecer um pouco da infância e adolescência do escritor bem como momentos após o 25 de Abril de 1974, o documentário foca-se sobretudo na sua reflexão sobre os anos em que passou preso na prisão do Tarrafal, uma das mais terríveis prisões da época do Estado Novo.
Mais de meio século depois, Luandino Vieira regressa ao local onde esteve preso e isso é pretexto para ele nos contar as suas memórias.
Um filme rico de arquivos

A época do Estado Novo e do 25 de Abril de 1974 tem sido um tema recorrente do cinema nacional. Inegável facto já que se trata de um contexto histórico de extrema importância na sociedade portuguesa durante o século XX. Portugal esteve 48 anos sobre um regime fascista. Isso não é coisa pouca e, por essa razão, é natural o interesse dos cineastas para refletirem sobre este contexto histórico onde ainda há tanto por contar…
Neste caso, com realização de Sandra Inês Cruz, chega-nos a história do escritor Luandino Vieira, nome maior da luta da resistência em Angola contra o regime do Estado Novo. “Chão Verde de Pássaros Escritos” é, assim, um retrato deste autor e uma reflexão pessoal sobre a sua vida e a repressão do Estado Novo.
“Chão Verde de Pássaros Escritos” é um filme com um espólio notável de registos de arquivo. Esse facto é também conseguido por Luandino Vieira ser uma figura pública com forte peso para o regime de Salazar e não apenas um ‘comum’ resistente.
Este não é, contudo, um documentário que se feche – e ainda bem – nos registos de arquivo. Também Luandino Vieira dá o seu testemunho na primeira pessoa, ao mesmo tempo que regressa ao Tarrafal, um doloroso lugar das suas memórias.
Por entre registos pessoais (como fotografias, desenhos, livros e documentos) misturados com registos do regime (como processos do tribunal) e ainda registos de imprensa, seguimos viagem com Luandino Vieira para revisitar as suas memórias.
Um documentário aquém do seu valor histórico

É inegável a importância histórica que Luandino Vieira tem na História contemporânea de Portugal e África. Do mesmo modo, também é extremamente relevante a existência deste “Chão Verde de Pássaros Escritos”. No entanto, o documentário apresenta-se aquém da sua importância.
Sim, é um documentário entre dois tempos – o Passado e o Presente – onde a história é-nos contada na primeira pessoa e através de registos sobretudo pessoais. Contudo, talvez o facto da sua duração ter pouco mais de uma hora tenha feito com que o filme se veja como incompleto. Ainda assim, o problema maior do filme não é a sua duração ou a concentração da narrativa nos anos da prisão de Luandino Vieira. O problema mais grave é o facto de Sandra Inês Cruz praticamente não ter dado protagonismo ao escritor. E isso acontece sobretudo pelo facto da realizadora ter optado por introduzir uma narração sua no filme. Esta decisão não seria penosa se o tempo de presença da narração fosse tão superior ao tempo de testemunho de Luandino Vieira.
Ao longo de “Chão Verde de Pássaros Escritos” sentimos que estamos mais a conhecer a história do escritor por outrem do que por ele próprio. Mesmo que Luandino Vieira pudesse não ter o melhor discurso – o que nem me parece o caso -, seria sempre mais pessoal e íntimo ouvi-lo a falar, de forma pessoal, durante muito mais tempo. Assim, a narração da realizadora surge como uma muleta sem necessidade.
Algumas conclusões sobre Chão Verde de Pássaros Escritos

Em suma, “Chão Verde de Pássaros Escritos” é um filme importante para dar a conhecer a vida e obra de Luandino Vieira e, em simultâneo, para conhecer o impacto que o regime do Estado Novo teve, especialmente no meio cultural e, em particular, literário.
Os arquivos apresentados são relevantes e surgem no filme de forma bastante criativa (destaco, por exemplo, as grandes impressões e projeções numa sala escura que surgem entre Luandino Vieira). São também de destacar duas cenas de impacto fulcral e sentimental no filme que contribuem para um olhar mais direto e íntimo do escritor. A saber: a cena em que Luandino Vieira consulta o seu processo da PIDE na Torre do Tombo e o reencontro entre ele e Nha Ana, uma amiga eterna que foi o seu apoio maternal durante o tempo em que Luandino esteve encarcerado na prisão do Tarrafal.
“Chão Verde de Pássaros Escritos” é, apesar de tudo, um filme positivo onde Luandino Vieira não se arrepende do seu passado e aceita-o. E a construção visual e formal do filme confirma-o. O filme peca, apenas, por não ser um retrato mais pessoal e ser tão narrado.
Chão Verde de Pássaros Escritos
Conclusão
- “Chão Verde de Pássaros Escritos” é um documentário sobre e com o escritor luso-angolano Luandino Vieira. Foca-se sobretudo na sua prisão no Tarrafal durante o regime do Estado Novo.
- Numa junção de arquivos de época com um testemunho atual que conta com um regresso ao Tarrafal, é um documentário fundamental para termos acesso a uma vivência concreta de alguém que resistiu contra o fascismo.
- Apesar de todo o seu valor histórico e de memória, o documentário fica um pouco aquém no resultado final pois não é dado o protagonismo suficiente, na primeira pessoa, ao retratado.

