"Viagem ao Sol" | © Kintop

Porto/Post/Doc ’22 | Viagem ao Sol, em análise

Na secção Cinema Falado, o Porto/Post/Doc dá destaque a trabalhos lusófonos, com especial ênfase em produções nacionais. Para esta nona edição, o júri composto por Raquel Schefer, Rui Maia e Tiago Bartolomeu Costa escolheram premiar “Viagem Ao Sol.” O documentário de Susana Sousa Dias e Ansgar Schaefer assim valeu 1000 euros aos seus autores, destacando-se por entre uma programação de grande diversidade e propostas estéticas. Estreado originalmente num festival de cinema documental em Amsterdão, obra também já havia passado pelo IndieLisboa antes de chegar tão gloriosamente à cidade invicta.

Susana de Sousa Dias há muito perscruta a História Portuguesa como matéria-prima para o cinema. Já ganhou prémios no estrangeiro e também fez parte da direção coletiva do DocLisboa, mas é o apelo da reflexão histórica que mais se impõe no seu trabalho, seu legado cinematográfico. Um dos mais celebrados filmes assinados por si até à data foi “Luz Obscura,” onde os traumas de uma família em tempo de Estado Novo se tornam na espinha dorsal de um assombroso documentário. Em “Viagem ao Sol,” regressam-se a tempos antigos também, outras fraturas pessoais que marcam o século XX, tempo de crimes cometidos contra a Humanidade pela Humanidade.

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© Kintop

Angsar Schaefer, cofundador da Kintop, é outro estudioso da História Portuguesa, trabalhando no intuito de a espelhar no grande ecrã através de variados projetos. “Luz Obscura” foi por si produzido, assim como outros filmes de temática semelhante e abordagem simétrica. Quiçá todos os anos a servir como produtor lhe tenham suscitado a fome por realizar, vontade que atinge a sua plenitude nesta “Viagem ao Sol.” Trata-se de uma lógica estreia, sendo que uma das especializações de Schaefer incide na experiência judaica em tempos da Segunda Guerra Mundial.

Nomeadamente, referimo-nos aos movimentos de emigração que trouxeram tanta gente a Portugal durante os anos durante e imediatamente após o apocalipse bélico. “Viagem ao Sol” dedica-se assim a contar a história de alguns migrantes, mas não a população judaica em específico. Ao invés desenvolve-se em volta das crianças que fizeram essa jornada internacional no pós-guerra, mais de cinco milhares de menores escapulidos da Áustria para terras lusitanas. Escapavam aos resquícios da violência e buscavam repouso. Buscavam um momento de descanso, um sabor de paz em país fascista que se dizia neutro e foi das poucas nações sem marcas de destruição.

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Unindo forças como corealizadores, os dois mestres do documentário português dedicam-se a traçar estas narrativas esquecidas através de filmagens de arquivo e fotos sem fim, muitas delas ampliadas até o detalhe se perder e só restarem turbilhões de grão. Ao som de composições assinadas por Didio Pestano, o testemunho faz ressuscitar o ontem na tela, iluminando factos que há muitas décadas permanecem nas sombras, esquecidos por entre os cataclismas mais sonantes da guerra, suas vitórias e derrotas, suas manchetes épicas. Contudo, lá porque uma realidade é pequena ou inconsequente além da esfera pessoal, não quer dizer que não seja de interesse histórico.

Além disso, certamente será impossível negar o seu intrínseco valor humano. Através do apelo ao documento factual, aos souvenirs pessoais, os cineastas constroem uma experiência imersiva que tanto tem lugar num cinema como numa galeria de instalações videográficas. Foge-se à convenção num gesto que também repudia a alienação do floreado estético sem propósito. Aqui, tudo funciona como uma tentativa de ligar passado e presente e forçar o diálogo silencioso entre o espetador e os sujeitos da fita. Há algo de fantasmagórico no exercício, especialmente quando os contrastes de idade se fazem sentir entre a imagem e o som.

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© Kintop

Vemos crianças, mas ouvimos a reminiscência de idosos que recontam alguns dos momentos mais marcantes da infância, recordações tão distantes que se tornam sentimento abstrato. Sem descarrilar o filme numa qualquer plenitude surreal, estes jogos mecânicos entre o testemunho fotográfico e o testemunho vocal concedem um ar de poesia aos procedimentos. Há franqueza, pois claro, mas também há muita emoção, tão forte quanto ligeiramente inefável, difícil de descrever sem perder o seu poder. Desvendam-se fados diversos através desta metodologia.

Nenhuma das crianças, agora adultos, partilha a mesma experiência exata – alguns saíram da pobreza extrema e encontraram outro tipo de pobreza, enquanto outros se viram transformados em troféus de caridade ilusória para famílias ricas exibirem. Relatos comoventes proliferam-se, mas também se fazem sentir narrativas mais amargas. Através do detalhe acumulado, faz-se também um retrato da sociedade além do indivíduo, como se cada vida fosse mais uma camada de cor na pintura. Chegado o fim, sentimos conhecer um pouco mais do nosso passado coletivo. Sentimo-lo de forma íntima e visceral, um testamento ao valor de “Viagem ao Sol.”

Viagem ao Sol, em análise

Movie title: Viagem ao Sol

Date published: 8 de December de 2022

Director(s): Susana de Sousa Dias, Ansgar Schaefer

Genre: Documentário, 2021, 82 min

  • Cláudio Alves - 75
75

CONCLUSÃO:

Susana de Sousa Dias volta a deleitar o espetador com um documentário histórico que faz pensar, abordando o tema das crianças austríacas que vieram passar seis meses a Portugal no pós-guerra através de testemunhos presentes e vastos arquivos fotográficos. Desta vez, junta esforços com Ansgar Schaefer, produtor e cofundador da Kintop que aqui tem uma admirável estreia enquanto corealizador. Tanto o interesse histórico como humano e a forma imersiva fazem do filme um visionamento essencial para os fãos do cinema além das fronteiras da ficção.

O MELHOR: A intimidade sugerida pelo dispositivo cinematográfico, seu uso do material de arquivo e conjugação com a memória, o confessionário, o diário esbatido pelas muitas décadas desde a Segunda Guerra Mundial e seu imediato rescaldo.

O PIOR: Quiçá a quantidade de histórias sobrepostas forme um palimpsesto meio caótico, onde começa a ser difícil distinguir qual o fio biográfico que estamos a seguir. Dito isso, vemos este elemento como uma qualidade mais do que como um defeito.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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