Joana Barradas é Marta uma mulher misteriosa. ©Ukbar Filmes/Divulgação

“Cherchez la Femme”: António da Cunha Telles Foi-se Embora com um Filme de Desejo, Crime e Desassossego

Entre Mário de Sá-Carneiro, desejo, crime, vertigem e um cinema português sempre a estrear tarde demais, “Cherchez la Femme” de António da Cunha Telles aparece como testamento, provocação e último gesto de um homem que passou a vida a empurrar o ecrã nacional para a frente. Foi finalizado postumamente pela filha a produtora Pandora da Cunha Telles e André Rosa Carvalho, chega agora às salas de cinema e depois vai para Netflix.

“Cherchez la Femme”, a última longa-metragem de António da Cunha Telles (1936-2022), é quase um daqueles filmes que regressa do além para nos lembrar que o cinema português, quando quer, também sabe ter fantasmas com classe. Não é apenas mais uma estreia nacional espremida entre campanhas tímidas, horários ingratos e espectadores  — aliás está anunciado que depois da estreia em sala, vai para a Netflix — que juram amar cinema português desde que ele não lhes peça demasiado. É um filme póstumo, um gesto terminal, uma obra que chega às salas com aquele dramatismo suplementar que a realidade às vezes oferece sem pedir autorização ao argumento. Cunha Telles morreu em 2022, mas ainda tinha isto por fechar. E há qualquer coisa de cruelmente apropriado no facto de um homem que passou décadas a segurar, produzir, distribuir, inventar e salvar cinema português sair de cena antes de ver o último plano do seu próprio adeus. O mais interessante é que esse adeus não se faz com prudência, sobriedade ou espírito de museu. Faz-se com uma obra de Mário de Sá-Carneiro, o que desde logo revela falta de juízo, bom gosto e coragem, as três coisas que continuam a faltar a demasiada gente no audiovisual nacional. Adaptar “A Confissão de Lúcio” não é pegar num clássico e ilustrá-lo respeitosamente, como se se estivesse a preparar uma visita escolar com legendas. É meter as mãos num texto febril, ambíguo, sensual, perverso, obcecado com o duplo, a vertigem, a identidade e a loucura, e tentar transformá-lo em cinema sem o domesticar. Ou seja: ou se cai ao comprido com estrondo, ou se encontra qualquer coisa de estranhamente viva. Meio-termo aqui seria quase uma ofensa. E depois recorde-se que “cherchez la femme” é um clichê da literatura policial e dos filmes noir, indicando que para resolver um caso, deve-se encontrar a mulher.

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Cunha Telles nunca foi homem para estar quieto

E é precisamente por isso que Cunha Telles faz sentido nesta empreitada. Porque nunca foi um homem conformado. Foi uma figura central do Cinema Novo Português, sim, mas também foi mais do que isso: foi uma dessas raras personagens do nosso cinema que não cabem numa função: realizador, produtor, distribuidor, agitador, sobrevivente, homem de ligações internacionais, de teimosias locais e de uma ideia muito concreta de que cinema não era passatempo de elite nem peça ornamental, era cultura para todos. Era trabalho, risco, visão, combate. Um país que gosta muito de homenagear os seus nomes maiores depois de os deixar envelhecer à míngua talvez devesse olhar para “Cherchez la Femme” como um pequeno resumo da sua própria hipocrisia: o filme atrasou-se, andou preso em dificuldades, recusas, financiamentos e emperros vários, e chega agora envolto naquela névoa melancólica que Portugal costuma reservar às coisas que não soube tratar a tempo.

Cherchez la femme
Ângelo Rodrigues e Joana Barradas dois vértices do triângulo. ©Ukbar Filmes/Divulgação

Mas o que torna este filme mais do que um simples caso sentimental é o encontro improvável entre duas formas de excesso. De um lado, Mário de Sá-Carneiro, o modernista que transformou o desarranjo interior em literatura de alta combustão e que morreu cedo demais para se tornar estátua. Do outro, António da Cunha Telles, que viveu o suficiente para ver o cinema português morrer várias vezes, renascer outras tantas, mudar de donos, de modas, de burocracias e de desculpas, sem perder nunca esse lado inquieto, experimental, algo indisciplinado. “Cherchez la Femme” é, no fundo, o aperto de mão entre dois homens que nunca foram feitos para a paz.

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Marta não é só tentação, é perturbação

A história, essa, continua deliciosamente instável. Lúcio (Ângelo Rodrigues), Ricardo (Romeu Costa), Marta (Joana Barradas). Um triângulo, mas chamar-lhe triângulo quase parece simplificar demais. Há amizade obsessiva, desejo sem nome, projecção, ciúme, mistério, pulsão de destruição, erotismo filtrado por espelhos e linguagem, e essa velha sensação de que ninguém é inteiramente aquilo que parece. No centro de tudo está Marta, interpretada por Joana Barradas, e talvez seja aí que o filme encontra um dos seus pontos mais delicados: em vez de fazer da personagem uma simples “mulher fatal” de catálogo, opta por deixá-la flutuar entre presença concreta e alucinação emocional dos homens que a cercam. A própria Joana Barradas percebe isso com uma lucidez que convém sublinhar. “A Marta não é uma mulher fatal clássica. É sedutora, mas também humana e enigmática”, diz ela. E a frase interessa porque vai ao coração do problema. Em demasiados filmes, sobretudo quando se mexe em imaginários de intriga, decadência e desejo, a mulher aparece como mecanismo narrativo: entra, perturba, destrói, desaparece, fim. Aqui, pelo menos pela intenção do projecto e pelo modo como a actriz o descreve, há uma tentativa mais subtil. “Tentei encontrar esse equilíbrio: sugerir sem exagerar, manter uma tensão mais subtil, menos ‘na cara’.” Numa época em que tudo precisa de ser explicado, verbalizado, sublinhado e entregue com manual de instruções, essa ideia de sugerir sem gritar é quase algo de novo.

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VÊ TRAILER DE “CHERCHEZ LA FEMME”

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Há outra resposta da actriz que ajuda a perceber o lugar de Marta e, por extensão, a natureza do próprio filme: “Acho que essa é precisamente uma das perguntas mais interessantes do filme. De certa forma, ela é uma projecção, sim, mas ao mesmo tempo também é uma mulher livre.” Exactamente. É essa oscilação que faz de “A Confissão de Lúcio” uma obra literária ainda hoje perturbadora e que faz do filme “Cherchez la Femme” mais do que um drama de época bem penteado. Marta existe e escapa. É corpo, é desejo, é símbolo, é armadilha, é imaginação alheia, é talvez a parte mais moderna da história toda. Porque nada envelheceu mais depressa do que os filmes que julgam perceber totalmente as suas mulheres.

Joana Barradas sai da gaveta onde a tinham posto

Também há qualquer coisa de feliz na escolha de Joana Barradas para o papel. Não apenas porque ela regressa ao cinema com um rosto que o público português reconhece, mas porque traz consigo precisamente essa vantagem rara de não estar saturada de prestígio programado. Vem de um percurso popular, televisivo, geracional, conhecido, e isso torna ainda mais interessante vê-la deslocada para um universo de modernismo, ambiguidade psicológica e erotismo de câmara escura. Ela própria assume esse choque de território: “Nunca tinha trabalhado num registo assim. As séries e novelas que fiz antes não passavam tanto por esse lado mais complexo, mais psicológico, mais difuso.” Dito de outra forma: “Cherchez la Femme” serve também para desmontar o vício nacional de arrumar actores em gavetas muito pequenas. E Barradas percebe a dimensão desse reposicionamento. “Gostava que o público descobrisse versatilidade”, diz, acrescentando que chegou a sentir um “bocadinho de síndrome de impostora”, mas no bom sentido, porque já não estava a ver “a Joana”, estava a ver “a Marta”. É uma frase boa porque revela exactamente o que um papel destes pode fazer por uma actriz e o que uma actriz destas pode devolver a um filme: risco mútuo. Ela entra num universo mais espesso; o filme ganha um rosto que não vem pré-formatado pelo circuito habitual do “cinema sério”. E nisso há uma pequena alegria.

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Cherchez la Femme
Ângelo Rodrigues, (Lúcio), Joana Barradas (Marta) e Romeu Costa (Ricardo), torma a história deliciosamente instável. ©Ukbar Filmes/Divulgação

Barradas fala ainda de Cunha Telles com afecto e gratidão: “Senti-me muito acarinhada por ele. Houve ali, pela primeira vez, uma sensação muito forte de ser a musa de alguém.” A frase podia soar excessiva noutras circunstâncias, mas aqui tem uma beleza curiosa. Porque remete para uma maneira antiga, até romântica, de fazer cinema: a de um realizador que olha para uma actriz não como peça funcional do casting, mas como centro sensível de uma visão. Hoje, num sector tantas vezes dominado por grelhas, dossiers, financiamentos, formulários e prudência estética, quase apetece dizer que há qualquer coisa de escandalosamente artesanal nisto.

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Mais do que um filme póstumo, um recado ao espectador

O que se joga em “Cherchez la Femme” não é apenas a adaptação de Sá-Carneiro, nem apenas a última obra de um nome histórico. É também uma pergunta incômoda ao espectador português e ao próprio sistema: ainda há espaço para cinema português que não queira ser simples? Que não queira explicar-se todo? Que aceite a artificialidade, o excesso, a ambiguidade, a histeria do desejo, a literatura como febre e não como adereço respeitável? Ou só sabemos apoiar filmes quando eles já vêm embalados em consenso, mensagem social bem identificável e utilidade pública imediata? Cunha Telles deixou escrito que queria fazer “um filme à glória da mulher”, tratado com “intriga e suspense, como se de um filme de Hitchcock se tratasse”. A formulação tem qualquer coisa de audacioso, de ingénuo e de provocador, que é uma combinação muito portuguesa quando resulta bem. E talvez o melhor elogio que se possa fazer ao projecto seja este: não parece preocupado em ser contemporâneo segundo a cartilha. Parece preocupado em ser fiel a uma obsessão e isso torna-se refrescante.

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“Cherchez la Femme”, é uma misteriosa história de amizade e atracção entre dois homens. ©Ukbar Filmes/Divulgação

A certa altura, António da Cunha Telles escreveu também: “O amor pode existir entre dois ou mais seres, independentemente do seu género.” E é impossível não sorrir com a ironia. Um cineasta nascido em 1935, a pegar num texto de 1914, consegue soar mais livre do que muito discurso supostamente progressista de 2026. Talvez porque a verdadeira modernidade nunca tenha sido uma questão de calendário ou de tempo. Talvez porque Sá-Carneiro já percebia, com o seu delírio elegante, que o desejo não respeita categorias bem arrumadas. E talvez porque Cunha Telles, no fim da vida, tenha preferido terminar com um filme que complica em vez de simplificar.

Da sala para a Netflix, mas primeiro no escuro

No meio de tudo isto ainda há a Netflix. Mais um filme português que faz a trajectória ritual da sala para a plataforma, esse novo limbo onde obras frágeis, belas ou estranhas podem tanto encontrar segunda vida como desaparecer na prateleira infinita entre um thriller dinamarquês e uma série sobre serial killers bonitos. É o nosso tempo. O importante, por agora, é que “Cherchez la Femme” exista, chegue às salas, mexa com o espectador, divida opiniões, gere algum ruído e recuse a mansidão. Ser “um filme póstumo” é apenas a circunstância. O essencial é isto: António da Cunha Telles ainda consegue, depois de morto, fazer uma pergunta viva ao cinema português. E convenhamos: para um país que gosta tanto de fechar os mortos em cerimónias e legendas douradas, não há melhor vingança do que esta. Um último filme que não pede reverência. Pede nervos.

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