Cinema Europeu? Sim, por favor | Amélie

 

Numa altura em que as histórias de ação e violência se entranham na retina facilmente, Amélie surgiu da necessidade de arrancar sorrisos à audiência.

Le fabuleux destin d’Amélie Poulain, “Amélie” em português, conta a história de uma introvertida jovem parisiense (Audrey Tatou) que transluz generosidade e interfere na vida das pessoas que a rodeiam, na esperança de tornar as suas vidas mais harmoniosas.

Amélie

Influenciado pela poesia de Jacques Prévert e por artistas plásticos como o brasileiro Juarez Machado, o filme de Jean Pierre-Jeunet é uma referência épica no que diz respeito à fotografia cinematográfica e à arte narrativa.

Enquanto a correção de cor foi digital e extremamente cuidada na escolha de tons, existindo uma paleta baseada no amarelo, verde, vermelho e algum azul para tornar a imagem coerente, a maior parte da rodagem foi feita ao ar livre ou em localizações reais, existindo um total de 80 decors. Para o realizador (que nunca tinha filmado fora de estúdio) foi uma experiência extraordinariamente interessante e imprescindível devido à necessidade de apresentar Paris e Montmartre, especificamente, – lugares mágicos que não seriam reproduzíveis em estúdio e que concebem a história com toda a tua imponência.

Amélie
A nossa Amélie entretida a atirar pedrinhas no Canal de Saint Martin – um dos planos preferidos do director de fotografia, Bruno Delbonnel.

“Amélie” não é simplesmente um filme francês, “Amélie” é um filme sobre França, sobre Paris, sobre as suas ruas e a sua beleza intrínseca, o je ne sais quoi da língua. O perfeito filme estrangeiro, para o mundo inteiro. Ao mesmo tempo que é criada uma versão moderna de Paris, é também contemplada a cidade na sua grandeza – passando pelo canal de Saint Martin, pela Sacre Coeur, pelas ruas de Montmartre (onde se estabelece o agora famoso café Deux Moulins) ou pela estação de metro dos Abbesses.

Contou com cinco nomeações para os Óscares, nas categorias de Melhor Filme Estrangeiro, Melhor Direção Artística, Melhor Fotografia, Melhor Som e Melhor Argumento Original e arrecadou dois prémios no BAFTA, nas categorias de Melhor Argumento Original e Melhor Direção Artística. Com um lucro de cerca de 40 milhões de dólares, “Amélie” foi e continua a ser um fenómeno nacional e internacional.

Amélie
E quem se junta ao clube dos que tentaram repetir a proeza?

Jean Pierre-Jeunet, que até 2001 contava com três filmes regados de fantasia e ficção científica no seu currículo, decidiu apostar numa história com a qual as pessoas reais se pudessem relacionar. Com a ajuda das sublimes composições de Yann Tiersen, mergulhamos indubitavelmente no fabuloso mundo de Amélie e rendemo-nos ao imaginário mais profundo.

O que é a vida se não um olhar tímido, um passeio em Paris, uma estação de metro misteriosa, um esconderijo na parede ou cartas de amores eternos?

Movendo-se como um conto de fadas realístico em que a personagem principal se anuncia como uma ingénua voyer, “Amélie” atua como a mais bonita explosão de cores dos últimos tempos. É o fogo-de-artifício que devíamos ter no dia-a-dia – a paixão pela vida e a generosidade para com o outro.

Maria João Bilro

Sou doida por cinema - tenho um grave problema em aceitar que a minha vida não é um indie, mas tento fechar os olhos a esse pormenor e continuo a usar óculos escuros à noite e a dançar músicas dos anos 60 de forma (muito) estranha no meio da rua. Licenciada em Ciências da Comunicação, com formação em Realização e Fotografia.

One thought on “Cinema Europeu? Sim, por favor | Amélie

  • Excelente crítica a um filme fantástico.

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