Stefano Savio e Adriano Smaldone, os principais rostos da Festa do Cinema Italiano na 11ª edição do festival | © MHD

Festa do Cinema Italiano | Entrevista a Stefano Savio e Adriano Smaldone

A equipa da MHD teve o privilégio de entrevistar os directores da Festa do Cinema Italiano Stefano Savio e Adriano Smaldone. 

Ciao cinefilo! Este ano a Festa do Cinema Italiano não ocorre como habitual no início de abril em resultado do estado de emergência vivido em Portugal pela pandemia do COVID-19. Mesmo assim, quisemos recordar a nossa entrevista a Stefano Savio e Adriano Smaldone, as mentes criativas de um dos festivais de cinema mais importantes e interessantes de Portugal. A entrevista realizou-se em abril de 2018, no âmbito da 11ª edição do festival, na FNAC Chiado.

A maioria dos filmes mencionados por Stefano Savio e Adriano Smaldone ao longo desta conversa já foram exibidos em televisão (nos Canais TVCine) e outros encontram-se disponíveis na FILMIN Portugal.  (Re)Lê aquilo que nos contaram os diretores da Festa e quais os desafios para conceber um festival à italiana.

Festa do Cinema Italiano
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[Entrevista realizada na FNAC Chiado no âmbito da 11ª edição da Festa do Cinema Italiano] 

A 11ª edição da Festa do Cinema Italiano começou ontem e pelo menos até junho aproximará o público português da cultura italiana. Este ano a Festa continua a percorrer várias cidades de Portugal. São elas Lisboa, Porto, Cascais, Setúbal, Almada, Coimbra, Aveiro, Évora, Viseu, Beja, Moita, Tomar, Loulé, Viana do Castelo, Caldas da Rainha e Funchal.

Para falar-nos sobre a mais recente edição estivemos com Stefano Savio e Adriano Smaldone, o director e director de programação da Festa, na FNAC Chiado no passado dia 2 de abril. A conversa decorreu no final da inauguração da exposição “Il postino, Salina – A Metáfora da Poesia”.

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Stefano Savio e Adriano Smaldone mostraram-se ansiosos para o começo da 11ª edição da Festa do Cinema Italiano, e confirmaram-nos que viviam uma enorme azáfama, algo normal e com o qual estão habituados nos dias que antecipam a Festa. Mesmo assim, ambos pareciam confiantes para o sucesso de mais uma Festa do Cinema Italiano, o festival de cinema que mais move o país.

MHD: O que é que os espectadores poderão esperar desta 11ª edição da Festa do Cinema Italiano?

AS: Podem esperar muitas coisas, muitas novidades e como sempre o melhor do cinema italiano. Pronto, ciao! (risos). Há sempre uma parte da programação que é aquilo que de melhor se tem feito no cinema italiano na última temporada. Portanto, os filmes que marcaram presença nos grandes festivais durante o último ano. Por exemplo, o filme de abertura da Semana da Crítica do Festival de Cinema de Cannes, “Sicilian Ghost Story”. Temos os grandes autores na secção “Panorama”, como o Paolo Virzi. Esta é provavelmente a secção que mais dá conta do melhor da produção italiana e da sua variedade. Na secção “Competitiva” temos os novíssimos autores, sobretudo com as suas primeiras e segundas obras, que agora vêm à tona. Temos as cinematografias mais underground e de autor que também se produzem naquele país, e muitas mais coisas.

MHD: Como tal, quais são os maiores desafios na selecção de filmes para a programação da Festa do Cinema Italiano?

SS: Encontrar alguma coisa decente (risos).

AS: (risos) Acho que o maior desafio consiste no equilíbrio. É preciso dar um pouco de tudo, a um público diferente. Para o público português, o cinema italiano está muito ligado aos clássicos. É sobretudo um público mais adulto e mais velho. Mas tentamos que haja um espelho quanto mais fiel da pluralidade da produção do cinema italiano. Este ano procurou-se continuar a diversificar a oferta, direccionando alguns filmes para o público mais jovem. Acho que é uma tarefa muito complicada arrastar o público jovem ao cinema…(suspiros). Temos um filme “Fame: Fome”, um documentário dedicado os maiores street artists do mundo, que os poderá interessar. A Festa quer trespassar também uma imagem diferente do que acontece. O cinema italiano é a comédia, o realismo, o melodrama, os dramas sentimentais, mas há tantas coisas por mostrar.

SS: Se antes o festival que era só uma pequenina mostra da cinematografia italiana, ligada a um contexto local, tornou-se depois um evento com o seu peso. Nos primeiros cinco, seis anos focamos nos grandes filmes da cinematografia italiana e do cinema clássico. Isto porque havia um Indie ou um Doc’, outros festivais e que também poderiam captar títulos recentes. Agora a Festa do Cinema Italiano também quer fazê-lo.

MHD: Torna-se difícil conciliar o melhor dos dois mundos entre o cinema clássico, com a secção “Amarcord” e o cinema italiano de agora?

AS: Não sei se se pode considerar difícil. A escolha pelo cinema clássico é segura porque se trazemos certos nomes, certos títulos, sabemos que quando definidos num bom horário e num bom dia hão-de ter público. Quanto a inserir alguns filmes novos pelo meio, temos que jogar com aquilo que passa durante a temporada cinematográfica. Há anos melhores e outros mais pobres. Se fosse só o cinema clássico a Festa limitava-se apenas à exibição na Cinemateca Portuguesa. Mas queremos que festival possa trazer coisas novas, desapercebidas ao público internacional.

MHD: A Festa do Cinema Italiano procura formar novos públicos? 

AS: Destaco o facto de irmos sempre ao encontro do público. Primeiro com a faceta mais comercial, e depois com o resto. Só assim formamos o gosto do público. Temos consciência que os jovens dificilmente veem cinema italiano e preferem assistir a séries. Por isso, com o passar dos anos, desenvolvemos cada vez mais a capacidade de distribuição do cinema italiano em Portugal. Isto ajuda aos filmes italianos a estarem presentes durante todo o ano. Queremos fomentar a paixão pelo cinema italiano.

SS: Por vezes o cinema clássico pode ser utilizado como um chamariz, no sentido em que utilizas o cinema clássico como uma zona de conforto do espectador. Este vai ao cinema porque já conhece, já sabe o que o espera. Esse chamariz permite colocar ao lado coisas que o espectador não conhece, e até pode ter vontade de conhecer. O clássico tem a sua notoriedade, e começa a captar algum interesse do público contemporâneo. Quando o espectador chega à festa do cinema italiano tem a possibilidade de explorar. É muito interessante este tipo de relação.

MHD: A Festa do Cinema Italiano abrange 15 cidades de Portugal entre as quais a nossa capital Lisboa. Tendo conhecida a itinerância deste festival, que passa por Angola, Moçambique, Brasil, gostaríamos de saber quais são os objectivos futuros?

SS: Espanha, América Latina…

AS: O cinema italiano faz principalmente sentido onde exista uma comunidade italiana.

SS: Quem sabe até na China, ou na Índia, que mesmo não tendo conhecimento de uma comunidade italiana podem ser um próximo passo.

AS: Onde cresce a comunidade italiana, cresce também a possibilidade da Festa do Cinema Italiano. É como acontece aqui em Lisboa, onde a comunidade italiana não pára de crescer. Mas por exemplo, ainda mais interessante seria levar o cinema português a Itália. Este é um objectivo e um desafio que já se vai fazer este ano com a Mostra do Cinema Itinerante Português na Itália.

MHD: Então em que medida a Festa do Cinema Italiano pode aproximar as culturas portuguesa e italiana?

SS: A Festa do Cinema Italiano abriu um fundo de desenvolvimento Itália e Portugal. É ainda um fundo simpático, mas é para crescer. Digo que o festival está a fazer um papel de intermediário bastante importante. Portugal é um país que neste momento tem os recursos, no sentido técnico e geográfico. É muito bonito para filmar e o ICA deveria aproveitar isso. Quanto à Itália, neste momento, há dinheiro para produzir fora, e queremos abrir estes novos percursos. Portugal pode jogar neste sentido, com tantas questões. Talvez se abrisse um bocado os olhos e tentasse aproveitar estas produções. Mas ainda não se explora bem este potencial.

MHD: Gostaríamos de descentralizar-nos um pouco da Festa do Cinema Italiano, e falar mais do trabalho da Associação “Il Sorpasso”. Temos conhecimento que a actividade desta associação vai além do festival de cinema, com duas obras literárias publicadas e agora com uma ligação com a Filmin. Como vêem esta nova forma de lançar filmes numa plataforma online?

SS: A potencialidade da Filmin está em crescimento em Portugal. O cinema italiano já preencheu em Portugal alguns vazio que haviam. Procurávamos alguma coisa neste país que nos diferenciasse dos outros operadores, e de outros festivais. A nossa relação com a Filmin trata-se de um trabalho de transição de modelos, de interesse do espectador. Estamos a reparar que o nosso objectivo não é retirar o público do cinema, mas tentar retirar o público do download ilegal. Estamos a criar alguns catálogos, como a plataforma faz em relação ao cinema português, de cinema italiano. E queríamos também uma plataforma mais abrangente que não estivesse localizada somente nas grandes cidades como Lisboa ou Porto, mas que cobrisse o país inteiro. Mesmo assim, é um projecto que precisa de muito trabalho, porque apesar de tudo há uma inércia dos portugueses à novidade. Há uma desconfiança. Há a Netflix, mas também há este projecto valioso que pretende aumentar o interesse.

AS: A Filmin vive em colaboração com as distribuidoras cinematográficas. Os filmes que acabaram de sair da sala também vão para a plataforma. Esta questão de entrar no dia-a-dia das pessoas são hábitos que têm que ser adoptados. A Netflix tem essa capacidade de divulgação e marketing. Mas na plataforma da Filmin o grande cinema continuar a estar lá.

MHD: Grazie mille.

A 13ª Festa do Cinema Italiano regressa em breve. Conhece o catálogo especial disponível na Filmin Portugal

Virgílio Jesus

Era uma vez em...Portugal um amante de filmes de Hollywood (e sobre Hollywood). Jornalista e editor de conteúdos digitais em diferentes meios nacionais e internacionais, é um dos especialistas na temporada de prémios da MHD, adepto de todas as formas e loucuras fílmicas, e que está sempre pronto para dois (ou muitos mais!) dedos de conversa com várias personalidades do mundo do entretenimento.

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