"As Mulherzinhas" | © Columbia Pictures

Cinema Natalício | As Mulherzinhas (1994)

“As Mulherzinhas” de Louisa May Alcott é um clássico literário já por várias vezes adaptado em forma de filme, sendo que também já houve uns quantos projetos televisivos. A versão mais recente e mais aclamada é o filme que Greta Gerwig realizou em 2019, mas isso não quer dizer que seja a única adaptação a merecer aplausos, muito amor, e novos visionamentos em tempos de Natal. Em 1994, A cineasta australiana Gillian Armstrong assinou as suas “Mulherzinhas,” mantendo-se fiel ao livro e aos pormenores da época. Pelo seu trabalho no papel principal de Jo March, Winona Ryder foi nomeada para o Óscar de Melhor Atriz. Além disso, o filme foi também indicado nas categorias de figurinos e banda-sonora original.

Apesar da sua estreia em 1994 ter sido recebida com críticas favoráveis e grande afeto das audiências, “As Mulherzinhas” de Gillian Armstrong demoraram muito tempo a ser feitas. Nenhum estúdio queria financiar o projeto, tendo passado doze anos até que a argumentista Robin Swicord e a produtora Denise Di Novi finalmente conseguiram convencer a Columbia a apoiar a obra. Uma das questões que mais irritavam os executivos dos grandes estúdios era a feminilidade da história, sua aparente falta de apelo comercial para espetadores modernos, jovens, em busca de divertimento durante a quadra festiva. Afinal, a ideia era estrear a 25 de Dezembro e assim foi feito.

Depois da Columbia ter entrado no negócio, chegou o tempo de se confirmar a realização de Armstrong, originalmente relutante em dirigir a peça. Ela achava o material demasiado semelhante a alguns dos seus filmes passados, mas a nova produtora Amy Pascal – também envolvida na versão de Gerwig – conseguiu persuadir a cineasta. Parte da resolução dependeu de um empenho em explorar a maturidade do material, diferenciando o novo filme das produções anteriores da Velha Hollywood. Há uma materialidade muito grande nestas “Mulherzinhas,” conjugando retórica feminista dos anos 90 com uma reprodução fiel da vida nas Américas do século XX.

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© Columbia Pictures

A fidelidade ao romance de Alcott foi princípio suprassumo em pré-produção, passando de esforços textuais até ao próprio design da fita. “As Mulherzinhas” sempre foi reconhecido como um aparato semiautobiográfico para a sua autora, realidade sublinhada na cenografia que usa a casa verdadeira de Alcott como referência para o lar das personagens. A fotografia segue linhas semelhantes, com Geoffrey Simpson a basear as suas composições, esquemas de luz e cor, com base em arte criada durante os anos da Guerra de Secessão. A figurinista Colleen Atwood, por seu lado, concebeu figurinos capazes de delinear as especificidades do período histórico, as hierarquias económicas da sociedade representada e outros afins.

Todos estes elementos esplendorosos e outros mais tornam-se óbvios assim que o filme começa. Ao som da maravilhosa música de Thomas Newman, descobrimos o mundo dos March em tempo de crispação bélica. Estamos na Nova Inglaterra, quando Norte e Sul lutavam pelo futuro dos EUA e a vila de Concórdia em Massachusetts se cobre de neve. Há um contraste imenso entre o sentido de nostalgia melancólica, os ares de perda subjacentes ao conto, e a imagética digna de postal. Numa noite fria, a matriarca March junta as quatro filhas junto à lareira, lendo-lhes a última missiva do pai, lá longe em combate. Gradualmente, vamos conhecendo as raparigas.

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Interpretada por Kirsten Dunst na meninice e por Samantha Mathis na vida adulta, Amy é a irmã mais nova e mais caprichosa. Ao contrário das outras mulherzinhas, ela é coroada por cachinhos doirados e preocupa-se imenso com a aparência daquele jeito típico de tanta adolescente. Há autenticidade no seu retrato, algo que nos faz sentir empatia pela moça, mesmo quando as suas ações podem parecer imperdoáveis. Ao contrário de Amy, Beth é toda ela caridade e sorrisos meigos, um corpo frágil que puxa pelas melhores qualidades das irmãs. Em início de carreira, Claire Danes teve aqui uma das suas primeiras grandes prestações, fazendo-nos sentir o luto atroz que resulta do seu fado trágico. A sua última cena é daquelas que até faz chorar as pedras da calçada.

Trini Alvarado não é nome famoso hoje em dia, mas o seu trabalho como Meg, a mais velha e sensata das meninas March, é exímio e perfeitamente coordenado com a caracterização do livro. Um episódio no cotilhão de uma jovem sulista demonstra as dimensões escondidas da personagem, seus vícios suprimidos assim como questões de desigualdades sociais na época da história. Por fim, temos Jo, a segunda mais velha e verdadeira protagonista de “As Mulherzinhas.” Mais do que as suas colegas, Winona Ryder parece meio despropositada no cenário oitocentista, sua mera presença vibrando com anacronismo. Dito isso, seria erróneo presumir que essa qualidade é um defeito para o filme.

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© Columbia Pictures

Devido à sua modernidade, Ryder transmite a ideia de alguém nascida no passado, mas com mente mais ligada ao nosso presente, imbuindo a narrativa com traços de rebeldia e desassossegos internos. É graças a si que a segunda metade do conto reverbera com sentimento forte, suas lutas profissionais e criativas vingando nesta adaptação mais realista do livro. Também devemos reconhecer quanto a química de Ryder com Gabriel Byrne ajuda a credibilizar o verdadeiro amor de Jo March. Enfim, ela é a estrela das “Mulherzinhas,” mas a perfeição do elenco transcende as figuras titulares e também abrange o elenco secundário.

Susan Sarandon invoca o progressismo com que Alcott cresceu no seu retrato de Marmee, enquanto Christian Bale é pura perfeição como Laurie, o vizinho e amigo das March, futuro marido de Amy. Escusado será dizer que descrever todas as maravilhas do filme é tarefa hercúlea, sem fim à vista. Ficamo-nos por um final elogio a Gillian Armstrong cujo estilo gentil, apurado à psicologia patente na narrativa e sua poesia, será a chave pela qual “As Mulherzinhas” de 1994 é, para muitos, a versão definitiva desta história em cinema. Uma coisa é certa, nas suas imagens acolhedoras, trata-se da versão que mais salienta a ornamentação natalícia, tornando-o num título perfeito para ver em família nestes tempos festivos.

 “As Mulherzinhas” está disponível na Amazon Prime Video. Também podes alugar, ou comprar, o filme na Rakuten TV, MEO, Apple iTunes, Google Play e Youtube.



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