Cinema vs Televisão | O Êxodo

 

Há relativamente pouco tempo, a televisão era ainda uma espécie de “primo pobre” da sétima arte. Naqueles tempos não tão remotos a qualidade da produção televisiva estava bem abaixo da fasquia “Hollywoodiana”, compondo-se a ficção televisiva maioritariamente de séries de baixa qualidade sobre detectives, médicos e advogados, assim como de diversas sitcoms aparentemente clonadas umas das outras e outras obras de valor artístico duvidoso. Consequentemente, os atores e realizadores “sérios” viam, com razão, a televisão como uma espécie de segunda divisão do mundo da ficção áudio-visual. Passar da televisão ao cinema era visto como uma “promoção” na carreira, enquanto fazer o caminho inverso era considerado um enorme passo atrás na carreira.

A-Team Cinema vs Televisão

Hoje em dia a situação é bem diferente. Basta olhar para alguns dos “oscarizados” deste ano para dar-se conta da transformação. Eddie Redmayne, vencedor do Óscar de melhor ator deste ano, é um bom exemplo disso. Redmayne conquistou a fama mundial este ano graças ao Óscar conquistado, mas antes disso teve tempo de forjar uma sólida carreira tanto no teatro como na televisão. Além de ganhar um Tony (o equivalente a um Óscar no mundo do teatro) graças à sua participação na peça Red em 2010 , Redmayne foi um dos protagonistas em três minisséries televisivas: Tess of the d’Urbervilles em 2008, The Pillars of the Earth em 2010 e Birdsong em 2012. Uma carreira assim seria bastante invulgar no século passado, mas hoje em dia é a norma. J. K. Simmons, vencedor do Óscar de melhor ator secundário, Juliane Moore, vencedora na categoria de melhor atriz e Patricia Arquette, galardoada como melhor atriz secundária, têm todos um passado (e um presente) importante na televisão. Outros autores que participaram na corrida dos Oscares também têm um longo currículo na TV, nomeadamente Steve Carrel (The Office), Bradley Cooper (Alias) e Benedict Cumberbatch (Sherlock). A lista de atores bem sucedidos no cinema com um passado, um presente e um futuro na televisão não se limita no entanto aos atores citados. Cada vez mais atores respeitados em Hollywood vêm-se tentados a aceitar aliciantes projetos na TV. Uma lista completa destes casos ocuparia inúmeras páginas, por isso limito-me a citar dois ou três intérpretes universalmente conhecidos e respeitados como Kevin Spacey, que protagoniza atualmente a excelente House of Cards; Al Pacino, que teve papéis importantes e aclamados em Angels in America, You Don’t Know Jack e Phil Spector, três produções de grande qualidade da HBO; e Scarlett Johansson, que aparecerá em breve na adaptação televisiva do aclamado romance Custom of the Country da escritora norte-americana Edith Wharton.

Lê Também:
Óscares 2022 | Quais são os atores favoritos da temporada de prémios? 

kevin spacey Cinema vs Televisão

No que diz respeito aos grandes realizadores a história é a mesma. O grande realizador sem projetos na televisão está a tornar-se rapidamente uma espécie em extinção. David Lynch coverteu-se num dos pioneiros desta transição ao criar a série Twin Peaks no princípio dos anos noventa, uma obra singular que viria a tornar-se um clássico do meio. Steven Spielberg foi outro dos pioneiros, graças à série  Irmãos de Armas (2001) na qual trabalhou em colaboração com Tom Hanks. Tal como Twin Peaks dez anos antes, a obra prima de Spielberg marcou um antes e um depois na história da televisão, alçando significativamente o patamar de qualidade do meio. Spielberg e Hanks haviam colaborado previamente num dos melhores filmes de guerra jamais feitos, O Resgate do Soldado Ryan (1998). Com Irmãos de Armas  lograram igualar ou mesmo superar esse grande filme em termos de qualidade técnica e artística, acabando por provar que a televisão, quando bem feita, pode ser tão boa ou melhor do que o cinema. Isso viu-se novamente quando Martin Scorcese deu à luz a Boardwalk Empire, um épico de gangsters possivelmente à altura das suas melhores obras no grande ecrã. Com a estreia no ano passado de The Strain, Guillermo Del Toro juntou-se igualmente ao clube dos grandes realizadores a trabalhar em televisão,  o que acontecerá em breve com Riddley Scott quando 3001: Uma Odisseia no Espaço chegar ao pequeno ecrã (embora Scott já tenha alguma experiência prévia na televisão este será o seu maior projeto até à data ).

Lê Também:
Óscares 2022 | Quais são os atores favoritos da temporada de prémios? 

Del Toro  Cinema vs Televisão

Os fatos aqui apresentados parecem indicar que os grandes talentos já não estão concentrados unicamente no cinema. Que a televisão já não é mais “o primo pobre“. Mesmo os melhores atores e realizadores querem participar na era dourada de um meio que atravessa agora o seu “renascimento”. Parece portanto que, pela primeira vez desde a sua criação, a televisão se encontra em igualdade de condições com o cinema, sendo capaz de competir financeiramente e artisticamente pelo trabalho dos melhores profissionais da indústria do entretenimento. Esta grande melhoria na situação do meio televisivo tem inclusive levado uma série de pessoas a colocar uma questão impensável há apenas alguns atrás: “Será que a televisão superou o cinema?”

Continua na próxima parte…

 

Bruno Vargas

 

Bruno Vargas

Cidadão do mundo, amante do cinema, da televisão, da banda desenhada, dos videojogos, da literatura, da história, da filosofia e da política. Acredito que o Fight Club é o melhor filme alguma vez feito, e que o Tarantino é o melhor realizador dos tempos modernos. O meu super-herói favorito é o Batman embora, se tivesse de escolher, preferisse sem dúvida ser o Super-Homem.

Bruno Vargas has 63 posts and counting. See all posts by Bruno Vargas

2 thoughts on “Cinema vs Televisão | O Êxodo

  • Parece-me que o título, em Português, de Portugal, do filme de Spielberg e Tom Hanks chamava-se O Resgate do Soldado Ryan e não Em busca do Soldado Ryan. Mas sendo o título Saving Private Ryan… estas traduções, enfim!

  • Pingback:

  • Olá Marco,

    Obrigado pelo teu comentário. Realmente tens razão, o filme em Portugal chama-se O Resgate do Soldado Ryan e não em Busca do Soldado Ryan. Já modifiquei. Peço desculpa pelo equívoco.

    Bruno Vargas

  • Pingback:

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *