Clube de Combate, em análise

 

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  • Título Original: Fight Club
  • Realizador: David Fincher
  • Elenco: Brad Pitt, Edward Norton, Helena Bonham Carter, Jared Leto
  • Género: Drama
  • 1999 | 139 min

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(Texto originalmente escrito em 2009)

Num interessante fenómeno evolutivo, “Clube de Combate” é um ácido comentário cada vez mais atual sobre uma sociedade castrada pelo consumo e cada vez mais desprovida de espírito e humanidade. Nos termos mais simples, é a história da viagem espiritual de um homem vulgar em busca do seu lugar no mundo.

O narrador e protagonista não vê o seu nome revelado ao longo de toda a fita, reforçando ainda mais o facto de esta ser apenas uma entre muitas faces, um homem que como outros tantos milhões de nós, deambula sonambulamente pela vida sem estar acordado ou a dormir. Chamá-lo-emos de Jack.

Jack tem um trabalho insignificante pelo qual não sente qualquer empatia. A sua vida é caracterizada pelas mobílias que tem e as roupas que veste e ele é apenas mais um grão de areia no enorme areal da máquina capitalista que controla o mundo por meio de empresas sem cara.

Na procura desesperada por algum conteúdo por que valha a pena viver, Jack, a conselho do médico, começa a visitar grupos de apoio para pessoas com doenças graves. Jack liberta-se finalmente e não ele mas o público começa a compreender a gravidade da negligência humana perante as relações sociais, o significado da vida e o tempo que dedicamos a nós mesmos. Ele, Jack, é apenas o protagonista de mais uma gota de ácido no goto da sociedade; uma sanguessuga.

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Numa viagem de trabalho Jack conhece o extravagante Tyler Durden, um vendedor de sabões com uma filosofia de vida muito particular. Nada disto passaria de um encontro totalmente casual não fosse o apartamento de Jack ter pegado fogo e destruindo todos os seus bens. Sem ninguém no mundo mas o futuro no bolso, Jack liga a Tyler e muda-se para a sua casa.

Tyler é tudo o que Jack deseja ser: um niilista anarquista que é apaixonado pela liberdade da vida e abraça uma existência independente dos padrões e expectativas sociais. Tyler torna-se mestre e companheiro de Jack. Juntos criam o Clube de Combate, um local onde a camada primitiva do homem volta a reinar e onde os escravos da sociedade consumista passam a ser dominadores. O Clube não era um local de vitórias ou derrotas, ou de vinganças ou de palavras; era um local de meditação, de salvamento e de liberdade.

As regras foram e não foram feitas para serem quebradas. As regras foram feitas para a sociedade sobreviver, funcionar e evoluir. As regras foram feitas para inibir, aprisionar e limitar. É claro; há quem quebre algumas regras ou muitas regras. Mas não há quem quebre todas as regras. O próprio caos é gerido por regras.

A ação desenvolve-se, assim como o desejo de caos de Tyler que começa a tornar-se notado tanto pela audiência como pelo próprio Jack, antes embriagado com o sentido de liberdade e vida do Clube de Combate, agora seriamente assustado e desenquadrado das proporções da mega Operação Mayhem (criação de um exército livre para desconstruir e destruir as ideias difundidas pela América capitalista).

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Pode parecer complicado extrair a verdadeira essência de “Clube de Combate”. É preciso estar preparado, é preciso estar atento, é preciso estar aberto à interpretação e, de certa maneira, é preciso estar disposto a levar uns bons murros no estômago.

Este é um filme que desafia e pretende incomodar, correndo por isso o risco de ser incompreendido. Não sou, nem de longe detentora, da razão, mas na minha interpretação e opinião, dois erros são comuns na abordagem a “Clube de Combate”.

O primeiro e mais comum é tomá-lo como um produto violento e abrutalhado sem cérebro. O filme de Fincher recusa-se a ser ignorado ou descartado. Não é entretenimento insensato, estúpido e semeador de violência.

Ninguém nega que é violento; algumas sequências farão certamente muitos espectadores virar a cara (eu incluída). Ela serve como elemento explicatório da natureza animal do Homem. Ela é, aliás, uma personagem. Encaixa-se tão bem no enredo que é difícil imaginá-lo sem ela, ainda que a condenemos no mundo real. Os homens que aderiram ao Clube de Combate são meras vítimas do processo desumanizante da sociedade de consumo, e a única forma de se sentirem vivos de novo é re-aderindo aos instintos mais primitivos da dor e da violência.

Mas uma vez cientes disto, corremos ainda o risco de cair no segundo erro.

O segundo, e talvez ainda mais perigoso erro, é tomar as mensagens do filme pelas mensagens dos personagens, mais concretamente, de Tyler, um confesso niilista e fascista com uma queda para a violência e destruição. O terrorismo e o vandalismo não são, obviamente, a solução para nenhum problema. Mas uma das questões que Fight Club faz questão de sublinhar é que um homem pode, de facto, fazer a diferença e que somos bem mais importantes do que aquilo que possamos acreditar.

Ainda neste sentido, até podemos sublinhar a ironia das resoluções de Tyler. O Clube de Combate é de facto um “escarafunchar” na ferida aberta da sociedade; uma sociedade consumista e robótica que parece ter-se esquecido de viver. Todavia, a evolução para a Operação Mayhem tornou este projeto uma representação da própria ideologia que criticava. Afinal este exército obedece cegamente a um líder e rende-se à passividade cerebral.

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A história de Tyler é, inclusive, interessante a nível histórico, uma vez que podemos relacioná-la com a subida ao poder de homens como Hitler que em pessoas desajustadas e infelizes encontraram inúmeros apoiantes apenas convencendo-os de que o problema estava nos outros e no sistema.

O argumento (escrito por Jim Uhls e adaptado do romance de Chuck Plahniuk) é aguçado e rapidíssimo, sendo dominado por um diálogo muitas vezes habitado pela inteligência e o humor negro. David Fincher é sublime tanto na técnica e estilo por trás das câmaras (com close-ups gráficos, manipulação em computador e cortes rápidos), como em aproveitar o máximo do elenco brilhante de que dispõe.

Edward Norton é conhecido (ainda que infelizmente pouco reconhecido) pelas suas performances inteligentes e versáteis. Cada um dos seus papéis parece ter sido escrito para si, e este não foi diferente. Norton faz de Jack o nosso elo de ligação com o universo Fight Club. É com ele que simpatizamos e é nele que vivemos aquelas duas horas e vinte. Numa cena famosa e absolutamente genial, Norton retrata um Jack enlouquecido que se esmurra a si próprio insanamente para obter um aumento perante um patrão estupefacto e assustado.

Brad Pitt tem em Tyler um dos seus melhores trabalhos de carreira e um dos personagens mais carismáticos do cinema moderno. Muito dinâmico em termos físicos (aliás, tal como Norton), Pitt é o espelho da loucura e da inteligência.

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“Clube de Combate” é uma obra desafiadora que requer dos seus espectadores apenas o respeito e dedicação para olharem para lá do seu visual exterior ciclónico e sangrento.

Num registo algo distinto, é muitas vezes comparado a “Laranja Mecânica” de Stanley Kubrick, e em cada segundo, a experiência é tão surreal como o clássico dos anos 70. Os compromissos, os deveres, as expectativas. Os trabalhos, as casas, a sociedade. Todos eles nos limitam e todos eles nos podem tornar escravos.

Muitas vezes não passamos de cobardes, medrosos de mais para seguir um caminho diferente ou sequer aceitar a mudança. A vida passa sem parar e nem chegamos a dar por isso porque estamos muito ocupados com coisas que não interessam.

Interiormente, todos desejamos encontrar o nosso próprio Clube de Combate (não necessariamente de uma forma literal andando à pancada claro). E eu, pela parte que me toca, espero também encontrar o meu.

 



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