Columbus

Columbus, em análise

Kogonada traça, com o seu filme de estreia, um romance comovente e subtil entre as linhas modernistas da cidade de Columbus.

Fazer arte sobre outras formas de arte costuma ser caminho certo para o fracasso. Afinal, como é possível conceber-se uma escultura capaz de transmitir o mesmo que uma sinfonia ou uma canção sobre um mural. Diz-se famosamente que tentar escrever sobre música é o mesmo que tentar dançar sobre arquitetura, ambições fúteis e inalcançáveis pois as diferenças entre essas formas de expressão e engenho humano são demasiadas e demasiado monumentais. Kogonada, um cineasta americano mais conhecido pelos vídeo-ensaios que disponibiliza online, atreveu-se a arriscar tal fracasso em “Columbus”, a sua primeira longa-metragem e um filme cujo grande foco incide sobre arquitetura. Melhor ainda, seria apto descrever a obra como um romance, tanto entre duas personagens como entre o ser humano e a arquitetura modernista da cidade de Columbus, no estado do Indiana.

Mais especificamente, este projeto, que parece responder à interrogação sobre como seria “Antes do Amanhecer” patrocinado pela Architectural Digest, relata alguns dias na vida do filho de um arquiteto coreano e uma jovem americana. Ele é Jin e, ao longo da narrativa do filme, encontra-se preso em Columbus devido a um repentino coma do seu pai enfermo. Convém também referir que o seu pai é um arquiteto influente e ausente da vida do filho.  A acompanhar Jin nesses dias complicados está Eleanor, sua melhor amiga de longa data e assistente do artista em coma. Em paralelo ao drama familiar de Jin, Casey é uma jovem cheia de sonhos e uma paixão fogosa por arquitetura que, de momento, está a pôr em causa todas as suas ambições para permanecer em Columbus, na companhia da sua mãe, uma toxicodependente reabilitada.

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Arquitetura emocional.

Um dia, enquanto fuma um cigarro, Jin cruza-se com Casey. Ela trabalha numa biblioteca concebida por I.M. Pei. e, tal como Jin encontra-se presa por dever filial. Só que o dever dele é um ditame da tradição, enquanto o dela é uma prisão autoimposta por medo. Como seria de esperar, os dois estranhos formam repentina ligação e continuam a encontrar-se, por acaso e propositadamente, discutindo arquitetura, que Jin odeia e Casey ama, e os dilemas das suas vidas. Afinal, por vezes, é mais fácil sentirmo-nos confortáveis a falar com estranhos, numa dinâmica instantânea que não deve nada à vivência conjunta, mas sim ao conhecimento de que a relação em questão é temporária. Dessa efemeridade, assim floresce uma abertura de uma alma perdida a outra, ambas a vaguear por paisagens que sempre se impõem à sua presença como que a reforçar a qualidade passageira da presença humana e a solidez do pano de fundo.

Tal relação entre humano e paisagem arquitetónica é levada a extremos pelo modo como Kogonada constrói a maior parte do filme através de planos gerais estáticos. Devendo muito a Ozu, o realizador e sua diretora de fotografia Elisha Christian constroem aqui um dos filmes mais visualmente assombrosos dos últimos tempos, tornando o paraíso de arquitetura modernista de Columbus no centro emocional e concetual de todo o filme. Por outras palavras, na mesma medida que outros realizadores usam texto e grandes planos das faces dos seus atores para telegrafar o tom sentimental e temas do projeto, Kogonada usa estas imagens estáticas de edifícios. O máximo exemplo disto é, talvez, a Câmara Municipal da cidade, cuja fachada modernista inclui duas paredes rubras que quase parecem esticar-se com o intuito de se encontrar, mas que nunca se tocam.

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Há algo de profundamente melancólico no modo como Kogonada e companhia nos apresentam a imagem, como que sintetizando nessas duas paredes o dilema de Jin e Casey, ambos a tentar encontrar alguém que os entenda e lhes dê rumo enquanto se afogam nas suas inseguranças. “Columbus” também brilha pelos seus tableaux de espaços interiores e íntimos. Veja-se, por exemplo, a casa de Casey e sua mãe, com as suas marcas de uma vida doméstica a tentar ser calorosa apesar de claras fraturas. Ou, por outro lado, o mundo de quartos de hotel habitado por Jin, uma coleção de espaços anónimos que parecem ativamente resistir à possibilidade de serem personalizados.

Nem tudo é subordinado à imagem estática. Por muito expressivas e melancólicas a Câmara Municipal e os quartos de hotel possam ser, a passagem de “Columbus” que mais vibra com a necessidade humana de contacto e companhia é uma sequência de cortes precisos. Aí, Jin e Casey tomam um duche, separados por quilómetros entre si, mas unidos pelo gesto, pela ação, pela vontade de se conhecerem e pela montagem de Kogonada que atinge algo próximo da precisão matemática. Considerando os vídeos que tornaram o cineasta numa figura reconhecida entre a cinefilia online, tal precisão pode não surpreender, mas não deixa de ser assombrosa na sua perfeição rítmica e emocional.

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Romance traçado em linhas modernistas.

Toda esta conversa de rigor formalista pode sugerir uma experiência alienante e gélida, mas este é um filme que rejeita a noção que o intelectualismo é antítese da emoção. As personagens falam sobre teoria arquitetónica deste modo pois essa é a sua paixão ou a paixão de alguém que lhes é querido. É algo que os insufla de inspiração e razão para viver e nada podia ser mais emocional que isso, não obstante a aparência rebuscada do seu discurso. Através de Casey, entendemos como alguém pode olhar para um paralelepípedo de vidro com uma base de betão e aí ver algo que transcende a capacidade humana para exprimir o que sentimos. Ou melhor, através da união entre o trabalho de Kogonada, sua equipa e os dois atores que dão vida aos protagonistas.

Haley Lu Richardson interpreta Casey com extraordinária gentileza, quer seja nas suas cenas com Jin ou interações com outras personagens, revelando, sem nunca forçar, as inseguranças da sua personagem e seus dilemas internos. No entanto, a atriz também é capaz de oferecer variações na sua abordagem, como quando dança em frente a um carro com os faróis ligados quais holofotes. Ela é um turbilhão de fúria, angústia e inseguranças a explodir em movimento inebriado. Pela sua parte, John Cho é tão ao mais vital para o sucesso do filme. Como Jin, é sobre os seus ombros que fica a responsabilidade de fazer funcionar dramaticamente alguns dos diálogos mais difíceis com que Kogonada deixou o seu elenco. Felizmente, nem Cho, Kogonada, ou todo o edifício de “Columbus” alguma vez vacilam.

 

Columbus, em análise
columbus

Movie title: Columbus

Date published: 23 de June de 2018

Director(s): Kogonada

Actor(s): Haley Lu Richardson, John Cho, Parker Posey, Michelle Forbes, Rory Culkin

Genre: Drama, 2017, 104 min

  • Cláudio Alves - 93
  • José Vieira Mendes - 90
92

CONCLUSÃO

“Columbus” é um filme que surpreende ao ser comovente de um modo como poucos são, através do rigor formal, do equilíbrio rítmico perfeito e de uma reticência sentimental quase absoluta.

O MELHOR: As composições primorosas que tornam a cidade de Columbus num labirinto de arquitetura emocional, que parece existir num plano diferente de nós, onde só as emoções das personagens existem materializadas nas estruturas e edifícios. Afinal, este é o tipo de exercício fílmico onde o espetador é convidado a deslumbrar-se com o espetáculo de ver como a luz muda ao longo de um tableau arquitetónico, como se, graças às sombras e reflexos mutáveis, as linhas modernistas do edifício estivessem vivas.

O PIOR: A severidade formalista e ritmo glacial de “Columbus” não será adequado a audiências com pouca paciência.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

One thought on “Columbus, em análise

  • Filmaço

    De vez em quando faz bem ver cinema de verdade. Por enquanto só vi duas vezes esse filme, e me surpreendi duplamente. Bela crítica.

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