Mudbound

Mudbound – As Lamas do Mississippi, em análise

Mudbound – As Lamas do Mississipi” é um ambicioso épico sobre duas famílias a sofrerem as pressões de uma sociedade preconceituosa na América dos anos 40.

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Em 2007, a realizadora Dee Rees causou furor no circuito dos festivais com a sua curta-metragem intitulada “Pariah”. Tratava-se da história de uma jovem afro-americana lésbica, que tem de esconder a sua identidade de uma mãe religiosa e assume uma imagem forçosamente efeminada na presença da família quando, na verdade, deseja usar roupas masculinas e explorar quem realmente é na calada da noite. Em 2011, a realizadora expandiu essa curta-metragem a uma longa, alcançando aclamação e reconhecimento que até aí lhe eram desconhecidos. O filme lançou a carreira do diretor de fotografia Bradford Young, entretanto nomeado para um Óscar, e da atriz Adepero Oduye, que até já recebeu elogios de Meryl Streep. Para Rees, no entanto, o sucesso esteve longe de ser imediato. A realizadora voltou às curtas e, em 2011, assinou um telefilme para a HBO que recebeu boas críticas, especialmente para a prestação de Queen Latifah no papel da cantora Bessie Smith.

Quando vemos realizadores como Garth Davis, Gareth Edwards e Colin Trevorrow saltarem de um triunfo independente no circuito dos festivais para gigantescos blockbusters, é fácil ficar-se frustrado pela trajetória de Rees. Sexismo e racismo tiveram o seu papel no atraso da ascensão desta cineasta, mas algo que não lhe falta é ambição. Aliás, ambição é a maior e mais avassaladora característica da sua segunda grande longa-metragem, “Mudbound – As Lamas do Mississipi”. Uma vista de olhos pelo enredo e temas sociopolíticos deste épico histórico sobre duas famílias no prólogo e rescaldo da 2ª Guerra Mundial seria o suficiente para imaginar um de dois tipos de adaptação. Ora uma minissérie de luxo, com tempo para explorar todo um leque de personagens e histórias de vida, ou então uma grande produção bilionária de Hollywood ao estilo dos épicos de Bertolucci, Leone ou Cameron.

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A verdade é que, não obstante as necessidades claramente monumentais do seu esqueleto textual, “Mudbound – As Lamas do Mississipi” é uma pequena produção feita para a Netflix por apenas dez milhões de dólares e com uns parcos 134 minutos de duração. Nesse tempo, Rees, que também adaptou esta história de um romance de Hillary Jordan, consegue miraculosamente traçar anos de história familiar, fazer uma estonteante reconstrução de época e conceber um dos filmes mais politicamente urgentes do panorama atual do cinema americano. Nem tudo funciona e o filme está repleto de pequenos e grandes problemas, mas, considerando as enormes limitações que lhe foram impostas, o que Rees aqui conseguiu alcançar é merecedor de uma ovação de pé.

Uma das escolhas mais curiosas da cineasta foi filmar a história de cada família independente da outra, trabalhando com a atitude de estar a fazer dois filmes díspares e só permitindo a coesão das duas linhas narrativas e de produção quando o argumento assim o exigia. Juntamente com esse dito argumento, tal abordagem confere uma forma curiosíssima ao edifício desta obra que, através de um uso inteligente de narração em voz-off, é formado por seis perspetivas individuais em constante comunhão e confronto. Depois de uma abertura caótica in media res, o filme leva a sua audiência para o passado, detalhando o cortejo de uma solteirona de 31 anos com Henry McCallan. Esta mulher, agora chamada Laura McCallan, é a primeira grande narradora desta trama e a sua resignação matrimonial, quando realmente se sentia atraída pelo irmão mais novo do marido, pintam de imediato o filme com a aura da opressão de uma sociedade retrógrada.

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Tal atmosfera apenas se torna mais sufocante quando, inebriado pelo sonho de ter uma quinta, Henry arrasta a sua família, que inclui filhos pequenos e um pai desavergonhadamente racista, para as paisagens lamacentas do Mississippi rural, onde, através de uma conflagração de enganos e desgostos, os McCallan se tornam vizinhos dos Jackson. Esta outra família são um clã de afro-americanos que trabalham a terra desde os tempos do esclavagismo e toda a sua atitude reflete o medo de quem conhece as repercussões que lhes cairão na cabeça caso alguma vez ousem dizer “não” aos seus vizinhos. Desta forma, uma personagem como Laura, que nos parece uma heroína trágica quando ouvimos a sua história contada pela própria voz, torna-se numa figura de cruel falta de empatia e abuso inconsciente, quando vista pelos olhos de quem está abaixo dela na hierarquia social do Mississippi dos anos 40.

Grande parte do filme é somente a observação da dinâmica singular e da comunhão resignada destas duas famílias num mundo onde a pobreza e a miséria são rainhas. No entanto, o advento da 2ª Guerra Mundial leva para a frente europeia um membro de cada um dos clãs. Dos McCallan é Jamie, o irmão mais novo de Henry, quem vai combater os alemães, enquanto os Jackson dizem adeus ao seu primogénito Ronsel, que na Europa começa uma relação com uma mulher branca e tem com ela um filho. Regressados da guerra e profundamente traumatizados pelas suas experiências, os dois homens violam os ditames de uma sociedade segregada e travam uma amizade forjada nos fogos da compreensão mútua de horrores que mais nenhum dos seus familiares ou amigos consegue entender. Da amizade, floresce o ódio dos demais e tudo explode em horrenda violência que não deixa ninguém intocado.

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“Três Cartazes à Beira da Estrada” de Martin McDonagh pode estar a ceifar prémios a torto e a direito nesta temporada de prémios e a ser celebrado pela sua crítica de relações raciais na América, mas, comparado a esta obra, o filme protagonizado por Frances McDormand parece quase infantil nas suas explorações temáticas. Num só olhar, Rob Morgan, que interpreta o patriarca Hap Jackson e dá a melhor prestação do filme, conta à audiência toda a história da sua família, os sapos que tem de engolir para sobreviver e o conhecimento que, qualquer passo em falso, pode arriscar a sobrevivência daqueles que mais ama. Um monólogo narrado em voz-off por Mary J. Blige no papel de Florence Jackson, por sua vez, dilacera o coração do espetador, ao mesmo tempo que ilumina tipos de racismo e injustiça social muitas vezes ausentes de filmes onde tais subtilezas são sacrificadas em nome de simplificações bombásticas.

Com tudo isso dito, o filme está longe de ser perfeito e a sua ambição desmesurada é a sua maior glória ao mesmo tempo que é a sua perdição. A estruturação do argumento em vinhetas narradas é uma necessidade imperativa da adaptação da densidade do romance à duração exigida pela Netflix, mas isso dá poucas oportunidades aos atores para conceberem retratos de desenvolvimento orgânico. O elenco é excelente e eleva-se acima de tais contratempos, mas nem mesmo Morgan ou Blige conseguem dar à conclusão do filme o peso necessário pois não existe tempo para respirar no ritmo, vagaroso à superfície, mas paradoxalmente apressado na efetividade. À fotografia, que poderá levar Rachel Morrison a tornar-se na primeira mulher a ser nomeada para esse Óscar, falta fisicalidade, textura e monumentalidade, restringindo-se principalmente a planos médios desinspirados e polidos pela perfeição plástica do registo digital. Enfim, nem tudo é perfeito, mas “Mudbound” merece ser admirado, celebrado e os seus temas não podiam ser mais urgentes ou necessários.

 

Mudbound - As Lamas do Mississipi, em análise
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Movie title: Mudbound

Date published: 2018-01-18

Director(s): Dee Rees

Actor(s): Carey Mulligan, Jason Mitchell, Garrett Hedlund, Rob Morgan, Mary J. Blige, Jason Clarke, Jonathan Banks

Genre: Drama, 2017, 134 min

  • Cláudio Alves - 75
  • Rui Ribeiro - 90
  • Daniel Rodrigues - 75
  • José Vieira Mendes - 70
78

CONCLUSÃO

“Mudbound – As Lamas do Mississippi” é um testamento ao talento e ambição da realizadora Dee Rees e, com sorte, levá-la-á a projetos maiores e onde os recursos sejam mais à medida do seu talento e vontade de lidar com temas difíceis. Um elenco excelente, uso inteligente de narração, belíssima cenografia e enorme sensibilidade humanista fazem deste um filme a não perder.

O MELHOR: A prestação vivida e cheia de silêncios carregados de significado com que Rob Morgan abençoa o filme.

O PIOR: A duração do filme que é demasiado pequena para a densidade narrativa e ideológica da obra.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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