Coração de Cão, em análise

 

No seu primeiro filme, Coração de Cão, Laurie Anderson cria um milagre cinematográfico, capturando a complexidade da sua perda com uma sinceridade e intimidade poucas vezes encontradas no cinema contemporâneo.

 

Coração de Cão Título Original: Heart of a Dog
Realizador: Laurie Anderson
Elenco: Laurie Anderson, Jason Berg, Heung-Heung Chin
Género: Documentário
Leopardo Filmes | 2015 | 75 min[starreviewmulti id=18 tpl=20 style=’oxygen_gif’ average_stars=’oxygen_gif’]

 

Uma informação bastante crucial que Laurie Anderson nunca concede à sua audiência é o facto que Lolabelle, a sua adorada cadela rat terrier, era a o animal de estimação não apenas de Anderson mas também do seu marido, o músico Lou Reed a quem o filme é postumamente dedicado. Esta escolha indica logo à audiência de Coração de Cão que Anderson, apesar deste filme ser ostensivamente um filme sobre perda pessoal da realizadora, não está a construir um simples elogio fúnebre ao seu marido, ou à sua cadela, ou à sua mãe, cuja morte também é explorada no filme.

Coração de Cão Laurie Anderson

Isto possibilita uma estranha intimidade na relação entre a audiência e a autora, com o filme como miraculoso veículo de aproximação. Anderson vai-nos contando histórias sobre Lolabelle, sobre a sua relação com a mãe, sobre os seus sonhos, sobre a sua visão da América após o fatídico dia 11 de Setembro de 2001, criando uma obra cinematográfica que se assemelha a uma fluída corrente de pensamento exposto ao seu público. Tudo isto é narrado pela doce voz da autora, cujas cadências e material textual possibilitam uma dimensão quase musical ao seu discurso, quase que embalando as audiências à medida que mergulham na psique desta singular artista.

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Mas não é apenas a narração de Coração de Cão que lhe possibilita essa efémera qualidade de extrema intimidade, mas também as suas primorosas imagens, cheias de obstinada experimentação que mistura vários tipos de animação com filmagens reencenadas e home vídeos, com fotografias e momentos de curiosa abstração plástica. Um dos toques visuais mais belos do filme é mesmo o modo como Anderson filma numerosos momentos a partir de vidros cobertos de gotículas de chuva, dando a impressão que o ecrã está a chorar. Durante o filme, ouvimos que, segundo o livro tibetano dos mortos, não devemos chorar pelos entes queridos que nos deixaram para não os confundir, mas no pensamento de Anderson, que é onde o filme se situa, é impossível fugir à manifestação visual da perda que a assombra.

Coração de Cão

No final, este é um filme tanto sobre a perda como sobre o ato de partilhar algo pessoal com outro ser humano. Um dos momentos mais conceptualmente fulcrais em Coração de Cão é precisamente o contar de uma história sobre o contar de uma história. Aí, Laurie Anderson chega à conclusão que o ato de contar histórias pessoais é um processo de esquecimento. Paradoxalmente, portanto, Coração de Cão torna-se tanto uma coletânea de histórias pessoais cristalizado na eternidade do cinema, como um veículo para a própria autora lidar com a imediata realidade da sua perda e seu esquecimento.

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Coração de Cão

Com tais descrições seria de esperar que Coração de Cão fosse um sufocante mergulho na mágoa de Laurie Anderson, mas não o é. A experimentação técnica e formal, misturada com uma sublime leveza de tom, polvilham o filme com doces momentos de ridículo e até comédia, exacerbando a complexidade emocional da obra. Um dos mais inesquecíveis momentos de Coração de Cão é mesmo um concerto de Lolabelle no piano, algo tão hilariante como tocante na sua apresentação. Este pode ser um filme centrado na perda e no esquecimento, mas não é um filme que esteja de luto, mas sim a vibrar com o arco-íris de emoções que caracteriza a vida humana.

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A magistral junção de imagens. Sons, música e palavra constroem uma panóplia de paisagens de pensamentos e sentimentos, que iluminam a complexidade da mente humana de um modo único do cinema, capturando uma intangibilidade emocional que outras artes dificilmente cristalizariam de modo tão sincero ou obliquamente direto na sua humanidade. Por vezes, na sétima arte, acontecem estes pequenos milagres.

Coração de Cão

Laurie Anderson alcança em Coração de Cão. A perda, a tempestade de emoções intangíveis da psique humana capturados numa longa-metragem com uma honestidade e sinceridade que são apenas comparáveis com o seu formidável dinamismo no que diz respeito à sua absoluta grandiosidade. Há algo de transcendente na humanidade pulsante de Coração de Cão que é, sem dúvida, uma das mais singulares e avassaladoras obras do cinema de 2015.

CA

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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