A Criada, em análise

A Criada é um arrebatador drama erótico cheio de insólitas reviravoltas saído da mente criativa do genial cineasta coreano Park Chan-wook.

a criada the handmaiden park chan-wook

No período histórico antes da 2ª Guerra Mundial, quando a Coreia estava sob domínio japonês, uma jovem carteirista chamada Sook-hee é convidada a colaborar com um criminoso que se autointitula como o Conde Fujiwara. Às ordens do seu parceiro de crime, ela adota um novo nome e torna-se na criada da senhora Izumi Hideko. Esta herdeira japonesa vive aos cuidados do seu tio, um pérfido colaboracionista que se esconde atrás de uma identidade falsificada e finge ser um aristocrata nipónico. Rico graças ao seu casamento com a tia de Hideko, que há muito morreu, ele é um ávido colecionador de literatura erótica japonesa. O tio Kouzuki chega mesmo a organizar elaboradas leituras encenadas para uma série de convidados escolhidos a dedo, a quem depois vende cópias forjadas dos seus tesouros literários. O Conde Fujiwara infiltra-se no seu círculo e finge ser um especialista na forja de arte japonesa, ao mesmo tempo que Sook-hee vai manipulando a herdeira de modo a que esta se apaixone pelo Conde. Segundo o plano, eles irão fugir, casar-se e, depois do mestre criminoso ter garantido a posse da fortuna de Hideko, ele planeia confiná-la a um manicómio e repartir os ganhos com a sua colaboradora. No entanto, Sook-hee apaixona-se pela herdeira e o esquema acaba com ela na posição de vítima e não de manipuladora.

Este longo sumário refere-se apenas a um terço da narrativa de A Criada, o novo filme de Park Chan-wook, que toma como principal base textual o romance Fingersmith de Sarah Walters, originalmente situado na Inglaterra vitoriana. Apesar de mudar a sua localização e uma série de importantes detalhes, o célebre autor coreano não abandonou a estrutura tripartida do romance. Na primeira parte, vemos a trama acontecer através dos olhos de Sook-hee. Na segunda, voltamos a experienciar todo o enredo ao lado de Izumi, descobrimos uma nova e emocionalmente incompatível versão dos acontecimentos e até conhecemos o seu sórdido passado. Como já dissemos, esta estrutura Rashomon segue os ditames da origem literária, mas, na terceira fase da história, Chan-wook acrescenta ao enredo das duas heroínas, a perspetiva masculina do Conde Fujiwara, e quase destrói o filme com essa decisão.

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Como podem ver, esta é uma obra bastante complexa do ponto de vista narrativo, sendo quase um puzzle. Comparativamente, a nível formal, A Criada é um dos maiores e mais viscerais orgasmos cinematográficos a tomar de assalto a cinefilia mundial nos últimos tempos. Os cenários, que fundem arquitetura inglesa, japonesa e coreana, são de uma opulência quase indescritível; os figurinos sugerem uma tatilidade sensual e erótica ao mesmo tempo que nos deslumbram com quimonos coloridos e estilos europeus anacrónicos; a maquilhagem equilibra-se na corda bamba entre o glamour da velha Hollywood, a extravagância do teatro japonês e a bizarria das fantasias violentas do realizador; a montagem cria um jogo de suspense e perspetivas enganadoras que faria inveja a Hitchcock; a fotografia captura tudo isto de modo elegante, rico em composições geométricas e movimentos sinuosos e a banda-sonora tende a desdobrar-se em assombrosos epítetos de romantismo que, ao fundirem sensibilidades europeias e asiáticas, quase que exigem aplausos da audiência.

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Não haveria nenhum mal na espetacularidade nascida do simples desejo da espetacularidade, mas A Criada tem outras intenções e objetivos no que diz respeito a todo este fausto. Por exemplo, a conflagração de estilos internacionais exacerba as camadas de falsidade e performance social das personagens. A teatralidade extrema é uma extensão do mundo que elas habitam, onde vestir roupa à ocidental, saber japonês ou gabar-se de uma educação europeia são armas vitais do campo de batalha social. Com raras exceções, o comportamento das personagens é uma atuação hostil levada a cabo por intérpretes que veem a materialidade que os envolve como definidora das suas identidades. É claro que, ao mesmo tempo, todo esse esplendor material e atitudes codificadas se convertem numa prisão literal e figurativa.

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Por consequência, os momentos mais libertadores de A Criada mostram uma profanação dessa ordem formalista – a destruição de uma biblioteca e a consumação de uma paixão avassaladora. A cena de sexo inicial, esse original momento de liberdade, é mesmo vista duas vezes. Primeiro é experienciada em grandes planos intimistas e depois visualizada com um olhar afastado e pornográfico, mais preocupado com o valor estético dos dois corpos em copulação, ilustrando as duas perspetivas subjetivas em jogo. Como, até aí, todos os tableaux, mesmo aqueles que parecem mais orgânicos, são encenações floreadas das personagens mentirosas e do realizador formalista, estas cenas de sexo são os momentos verdadeiramente humanos e genuínos de A Criada. Por muito que possam parecer apenas cenas de interesse prurido, é aqui que o prazer do corpo feminino se exalta e sobrepõe às complicadas ramificações de enganos e falsidades. É aqui que os participantes neste jogo de intriga abandonam o seu guião e se rendem aos seus desejos.

A ajudar ao sucesso dessas cenas está também o trabalho das atrizes. Como a criada e sua senhora, Kim Tae-ri e Kim Min-hee são exímias parceiras criativas do seu insano realizador. Seguindo os jogos linguísticos do guião, elas oscilam entre japonês e coreano de tal forma que os próprios ritmos do seu corpo refletem as diferentes fachadas e identidades linguísticas que as personagens estão a apresentar. Além disso, a sua facilidade em combinar uma abordagem naturalista com um estilo teatralmente histriónico típico de Park Chan-wook é a chave que permite que todo o mecanismo do filme funcione. Para além do mais, contando também com Ha Jung-woo como Fujiwara, as três personagens principais estão sempre em quatro níveis de performance, a sua interioridade genuína, as mentiras de dois esquemas criminais a acontecer em simultâneo e, é claro, a fachada artificial exigida pelo teatro social. A respeito dos outros atores, numa breve aparição, a estrela coreana Moon So-ri deixa uma impressão forte e poderosa como a tia de Izumi, enquanto Jo Jin-woong dá vida ao antagonista principal com a deliciosa malícia de um vilão de James Bond misturado com um demónio infernal.

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Como voltámos a referir Fujiwara e Kouzuki, chegou a altura de finalmente falarmos sobre o terceiro capítulo de A Criada. Ao longo da narrativa, os homens são caricaturados e levados a hiperbólicos registos interpretativos, sendo que apenas as mulheres parecem ter vislumbres de palpável humanidade e são, por isso, as únicas que conseguem ter algum semblante de controlo e autonomia dramática sobre as suas vidas aos olhos da audiência. Tudo isto é ótimo, até ao momento em que Park Chan-wook decide conceder o clímax do seu filme aos dois monstros masculinos da história e os envolve numa estrambólica paródia das fantasias de vingança e espetáculos de torture porn típicos da sua filmografia passada. Piscando o olho e apontando o dedo acusatório aos seus fãs, o realizador torna esta parte do filme num discurso metatextual cheio de humor negro e considerações desconfortáveis que posicionam a audiência no papel de voyeurs perversos e que rouba potência dramática à história das duas mulheres. Para além de tudo isso, é neste derradeiro capítulo que Chan-wook perde controlo do erotismo da narrativa numa cena em que as heroínas dão vida a uma das fantasias masculinas que haviam sido gravadas nos textos do tio. Elas estão efetivamente a pegar numa ferramenta de prazer masculino e a torná-la em algo para o seu proveito, mas a maneira como são filmadas, longe de sugerir a liberdade carnal dos anteriores momentos sexuais, apenas exacerba uma perspetiva masculina e clínica. Uma perspetiva que, até aqui, tinha sido codificada como fruto da sociedade patriarcal, teatral e venenosa que aprisionava estas duas amantes.

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Tudo isto resulta numa monstruosa incoerência ideológica que trai todo o filme anterior. Menos grave, mas também terrível é o modo como os ritmos precisos e constantes reviravoltas narrativas se eclipsam. A ideia deste final não é necessariamente insalvável mas pertence a outro filme que não A Criada. Isto é de uma tragédia dolorosa quando consideramos a magnificência das primeiras duas partes que constituem um das mais fascinantes explorações recentes sobre a representação de sexo no cinema e até sobre a moralidade subjacente à apreciação de arte erótica. Também são um exercício estupendo na manipulação de uma audiência moderna que está programada a aceitar o cinema narrativo como a apresentação de factos objetivos e é, por isso, completamente eletrizada pelos mecanismos com que o filme subverte essa mesma presunção errónea. Francamente, se ignorarmos um terço da sua estrutura, A Criada é uma das grandes obras-primas dos nossos dias, mas, infelizmente, temos de nos contentar em ter aqui mais um grande triunfo do cinema coreano que, infelizmente, não chega ao máximo do seu potencial.

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O MELHOR: De um ponto de vista narrativo, o modo como o argumento escrito por Park Chan-wook e Jeong Seo-kyeong nos propõe esta a sua inspirada estrutura de flashbacks frenéticos e constante reavaliação ao mesmo tempo que brinca com uma amálgama de géneros cinematográficos que incluem o drama histórico, o romance, o thriller erótico, a pornografia, o terror e o absurdismo de uma comédia negra. Numa perspetiva formal, a cenografia de Ryu Seong-hie é um milagre cinematográfico, especialmente o cenário das leituras encenadas em que chega a aparecer um homem mecânico para exemplificar uma posição sexual particularmente suicida.

O PIOR: Aquele malfadado terceiro capítulo.



Título Original:
Ah-ga-ssi
Realizador:
Park Chan-wook
Elenco:
 Kimk Tae-ri, Kim Min-hee, Ha Jung-woo, Jo Jin-woong, Moon So-ri
Cinema BOLD | Drama, Mistério, Romance | 2016 | 144 min

a criada

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CA

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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