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A Acusação, em análise

Em ‘A Acusação’, o realizador francês Yvan Attal fez um uma abordagem  polémica mas ao mesmo tempo empática de um caso ambíguo de estupro, tratando várias questões ao mesmo tempo, incluíndo a religião e sem transformar o violador num monstro. Um filme feito em família com o filho Ben Attal e a mulher Charlotte Gainsbourg, como protagonistas. Estreia na próxima quinta, 2 de fevereiro.

Em ‘A Acusação’, um filme apresentado fora de competição no 78º Festival de Cinema de Veneza em setembro passado, baseado no romance homónimo de Karine Tuil, publicado em 2019, o realizador francês Yvan Attal — com a ajuda do argumentista Yaël Langmann — enfrentou um difícil desafio de mostrar que o mundo e a realidade não se fazem apenas a preto e branco, além ser bem mais complexa do que às vezes os média e as redes sociais nos levam a supor. Ao mesmo tempo, fez deste filme, já um sólido clássico do cinema francês, sobre o tema do estupro ou abuso sexual, onde vamos encontrar excelentes interpretações dos actores — mesmo que sejam, entre amigos e família —  e sobretudo uma intrincada estrutura narrativa, que nos leva a ver um outro lado da verdade, muito mais ampla e complexa. Vivemos num mundo, onde somos permanentemente bombardeados pelos média sempre à procura de casos, sobretudo os mais sensacionalistas, no que diz respeito à violência e estupro — veja-se recentemente o caso dos jogadores de futebol Daniel Alves ou mesmo o tão falado entre CR7 e Kathryn Mayorga — e a afirmação de movimentos de defesa das mulheres como #MeToo contra o assédio sexual; embora agora estejamos infelizmente, cada vez mais sujeitos aos excessos de uma agenda radical do politicamente correcto.

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A Acusação
Uma festa de amigos torna-se num pesadelo para Alexander (Ben Attal). © Filmes4you

Os mundos do cinema e da literatura têm igualmente atestado e abordado casos de estupro e violência sexual, oferecendo-nos várias narrativas convincentes e perturbadoras (‘Os Acusados’, [1988], com Jonathan Kaplan com Jodie Foster, Kelly McGillis, por exemplo), que procuravam apenas só um tipo de verdade ou seja que esperançosamente se fizesse justiça no tribunal; mas também há outras obras que procuram mostrar o outro lado ou mesmo dizerem, que às vezes não existe apenas só uma verdade. É o caso deste filme ‘A Acusação’, de Yvan Attal, onde o jovem Alexandre Farel (Ben Attal), um aparentemente pacato estudante de engenharia em Stanford nos EUA de 22 anos, regressa a Paris a sua cidade, para umas pequenas férias escolares, assistir a uma reunião de ex-colegas do secundário e visitar os seus pais Jean (Pierre Arditi) e Claire (Charlotte Gainsbourg), recentemente separados. Ambos são aliás, duas ilustres personalidades no cenário nacional de formadores de opinião pública: o pai é um famoso apresentador de televisão, algo amoral, que aspira à medalha da Legião de Honra de França; a mãe é uma respeitada e também por vezes polémica ensaísta, no que diz respeito às questões do feminismo e direitos das mulheres. Claire (Gainsbourg), que se mudou recentemente, para passar a viver com o namorado Adam (Mathieu Kassovitz), convida o filho Alexandre para jantar na sua nova casa, onde vive também Mila (Suzanne Jouannet), a filha de 17 anos do companheiro.

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Enquanto Alexandre se prepara para ir à sua festa com os amigos, a mãe sugere que ele leve também Mila consigo. De repente, saltamos para o dia seguinte, quando Alexandre em casa do pai e na ressaca da noite anterior é detido pela polícia e acusado de estupro. Cria-se um certo mistério em relação à situação, mas acabamos por saber que foi afinal Mila que o denunciou. Durante o interrogatório, o jovem Alexandre confirma que houve efectivamente intimidade sexual entre os dois, mas garante que foi consensual. Enquanto isso, os pais de parte a parte recebem a notícia e o caso com muita angústia e apreensão. A relação entre Claire e Adam obviamente deteriora-se de imediato, enquanto Jean, preocupado também com a sua notoriedade prestígio, contrata um conhecido advogado para tentar chegar a um acordo de silêncio, com a rapariga. Porém, isso é categoricamente rejeitado pela mãe de Mila (Audrey Dana), uma judia ortodoxa, que influenciando a rapariga, pede justiça e insiste na acusação pública de Alexandre. Observando sempre de muito perto todos estes episódios familiares, vê-mos como eles expõem a humanidade, nas suas formas mais primitivas e contraditórias: quando são os filhos dos outros é uma coisa, mas quando se trata de protegermos os nossos, transformamos-nos em autênticos animais ferozes — mesmo que se tenha um determinado status social ou esteja em causa uma condecoração — e as coisas podem-se mesmo tornar um pouco mais cínicas, intolerantes e no limite até violentas. Talvez por isso no original o filme intitula-se ‘Les Choses Humaines‘, pois é disso que ele trata no essencial!

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A Acusação
A jovem Mila (Suzanne Jouannet) é a vítima de estrupo que quer justiça. © Filmes4You.

No primeira instância, Adam diz a Claire que se apanha-se o filho dela, matava-o, ao passo que Jean, aposta na inocência do rapaz, insinuando que a culpa da situação é da rapariga. Em ‘A Acusação’, confrontamo-nos  igualmente com um sistema policial e judicial, que em geral se baseia em interrogatórios e raciocínios consideravelmente frios — às vezes até gelados, ao ponto de entrarem na mais profunda intimidade — ou mesmo insensíveis, sobre o que exactamente aconteceu. Apesar de explorar de forma palpável os territórios do thriller, do melodrama familiar ou de um clássico de tribunal, o filme de Attal acaba por focar-se e colocar toda a sua empatia na complexidade de um caso aparentemente simples de abuso sexual entre dois jovens quase da mesma idade — embora ela seja menor perante a lei — , mas sem deixar que escolhamos um dos lados — ou o vejamos ora com cinismo ou indignação. O filme deixa que muitos aspectos, da justiça à religião, fiquem em aberto. Porém, quando chegamos ao fim desta ambígua e interminável história de terror, amor, sexo, com um pouco de perversão e erotismo juvenil — não é por acaso que George Bataille, é referido como leitura de cabeceira do rapaz — ou quando parece que tudo vai mudar, descobrimos afinal que os monstros podemos ser todos nós, os seres humanos, sobretudo quando às vezes tomamos certas defesas e certas decisões no momento errado ou quando o inesperado nos bate à porta. Enfim, venha o primeiro e que atire a primeira pedra! Longe da impostura da imparcialidade ou equidistância, o filme de Attal, consegue abordar com grande rigor e profundidade todo o repertório de afrontas que nos assistem num caso de estupro, abuso sexual, justiça e conflito familiar. ‘A Acusação’, é um filme magnifico, muito interessante e estruturado de uma forma espantosamente correcta, quase como uma reportagem do mais puro jornalismo de investigação. A não perder!

JVM


A Acusação, em análise
A Acusação

Movie title: Les Choses Humaines

Movie description: Mila, uma jovem de 17 anos, acusa Alexandre, com 22 anos, de a ter violado numa festa. Será ele culpado ou inocente? Será ela a verdadeira vítima ou apenas uma mulher arrependida sedenta de vingança? As vidas, convicções e certezas destes dois protagonistas, assim como as das suas famílias e amigos, ficarão para sempre marcadas por este acontecimento. Qual será a verdade?

Date published: 31 de January de 2023

Country: França

Duration: 138 minutos

Director(s): Yvan Attal

Actor(s): Ben Attal, Suzanne Jouannet, Charlotte Gainsbourg

Genre: Drama, 2021,

  • José Vieira Mendes - 85
85

CONCLUSÃO:

Em ‘A Acusação’, o realizador Yvan Attal expõe-nos de uma forma muito inteligente todas as arestas e (falsas) zonas cinzentas do consentimento, mas também mostra o perigo dos rápidos julgamentos sociais e virtuais, colocando quase o espectador, como um jurado do tribunal. É emocionante ouvir os argumentos que desvendam o mistério dessa zona cinzenta, onde a verdade insiste em ser relativa. O filme defende também muito bem todos os seus personagens, o que já significa um profundo conflito com a realidade social e mediática, sobre o tema do estupro e abuso sexual. A aproximação e o conflito são construídos de um forma inteligente, pese embora a polémica e as contradições que o filme possa em parte causar.

Pros

As notáveis interpretações entre família e amigos, num filme muitíssimo envolvente que nos oferece um retrato complexo e nada maniqueísta do consentimento e do processo judicial vítima-perpetrador. 

Cons

Attal toma várias decisões discutíveis, talvez o seu erro mais flagrante, possa residir na sua falta de subtileza que vai chocar muita gente. É um filme muito calculado e didático, que perde um pouco a complexidade dramática que seu tema central exigiria. 

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