Chernobyl | © HBO Portugal

Chernobyl, primeira temporada em análise

Chernobyl” é uma pintura dantesca de gritos agonizantes e choros ensurdecedores, que permanecerão radioativos para sempre nas nossas memórias.

“Chernobyl” (em ucraniano Чорнобиль) é um nome consensual na história da humanidade, sobretudo para aquela malta que ainda apanhou o final da década de 80, e cresceu a ouvir um breve ruído subtil do que foi, e ainda é, o maior atentado involuntário à vida planetária de que há memória. Ainda é, porque volvidos trinta e três anos desde o fatídico acidente na central nuclear leninista, sediada nos arredores de Pripyat, a saúde pública e a flora local continuam fortemente comprometidas. Os mais supersticiosos até poderiam argumentar que, Chernobyl, estaria fadada à sua etimologia adversa, mas se o impensável tomou as rédeas da realidade como uma criança prematura que sonhou com o apocalipse, então a temível lei de Murphy é tão culpada desse adágio como a suspeita consciente da sua existência. Em 97, “As Vozes de Chernobyl” da laureada escritora bielorrussa Svetlana Alexievich, espiritualizaram uma década de testemunhos aterradores, que ganham agora um corpo visível como se um dossier secreto de fotogramas vivos, estivesse finalmente a desabafar aquela verdade inconveniente do dia 26 de Abril de 1986.

Chernobyl HBO Portugal
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É nessa toada altamente conspirativa, talvez às custas de uma certa demonização gratuita de um regime soviético marcado pela opacidade persecutória da Guerra Fria, que o enredo de Craig Mazin faz render o seu peixe, desbobinando pelo fim daquela cassete abafada, o relato das inúmeras intervenções heróicas e decisões flagiciosas pela voz eloquentemente exausta do seu principal delator: Valery Legasov (Jared Harris) – o físico nuclear nomeado pelo Kremlin para chefiar a comissão de investigação ao acidente no reator RBMK. Mas antes de sermos atirados às feras como peças de gado numa carreira de tiro atómica, a prolepse introdutória grita-nos no silêncio de um olhar felino, que ecoa a sua irracionalidade na sombra vergonhosa de um apartamento enjoativo.

Renck é cirúrgico na cadência inquietante e na textura áspera que consegue extrair de cada cenário…

E dali, saltamos para a malograda sala de controlo da central nuclear de Chernobyl, aonde o inexperiente turno da noite, liderado pelo engenheiro-chefe Anatoly Dyatlov (Paul Ritter), sucumbe à sobranceria das pressões vindas de cima, para levar a cabo um teste de segurança no reator 4, que já havia falhado em outras três ocasiões. Ali, naquele calabouço retro industrial de luzes soturnas e uma parafernália de botões analógicos num corredor curvilíneo de consolas intrusivas, assistimos impotentes à diabólica falência intelectual e humana, numa sucessão atípica de fatores desfavoráveis, que acabam inevitavelmente por casar a ignorância do bem com a astúcia do mal. Mas o que os livros de história se esqueceram de mencionar, e que o governo comunista de Gorbachev tanto se esforçou por ocultar, é que a explosão do núcleo atómico daquele reator russo, não poderá dissociar-se do facto de possuir na sua génese uma falha de construção fatal, um pequeno grande pormenor só equiparável à luta obsessiva pela aparência de força e grandeza aos olhos do seu arqui-inimigo externo.

Chernobyl HBO Portugal
Chernobyl | © HBO Portugal

Doravante, a direção cinematográfica de Johan Renck (“Breaking Bad”) é incisiva e visceral na captação de uma autenticidade visual inspirada na era soviética, mas assenta sobretudo no realismo e crueza daquelas emoções urgentes, espremendo cada gota de medo por um ténue filtro artístico, que amplifica o momento dramático sem o descaraterizar. Renck é cirúrgico na cadência inquietante e na textura áspera que consegue extrair de cada cenário, deixando que a fotografia polarizante de Jakob Ihre pinte autênticos quadros catastróficos daquele dominó de vidas roubadas, que lutam veementemente pela sua sobrevivência. O corrupio de batas brancas ensanguentadas dos operadores nucleares, que tropeçam nos escombros tóxicos e definham diante dos seus próprios olhos; as caras queimadas dos bombeiros esgotados de segurarem as mangueiras obsoletas na face de um incêndio diferente de qualquer outro; o vai e vem de ambulâncias com feridos impregnados com tanta radiação, que é só uma questão de horas até desaparecerem das camas de hospital… E enquanto o povo ucraniano de Pripyat, contemplava ingenuamente um raio de luz incandescente numa noite de luar, o orgulhoso Politburo tentava resistir à evidência dos factos, acabando por enviar o relutante Ministro da Energia, Boris Scherbina (Stellan Skarsgard) e o destemido cientista do Instituto Kurchatov de Energia Atómica (Legasov) ao ground zero a fim de aferirem da real magnitude da catástrofe. E ambos fazem um tremendo papelão, alimentando-se de um vincado antagonismo inaugural de desconfiança mútua, que se vai desmistificando algures entre a eloquência política daquilo que um não sabe, e o pragmatismo científico daquilo que o outro poderá saber na resolução daquela ameaça periclitante.

(…) A prolepse introdutória grita-nos no silêncio de um olhar felino, que ecoa a sua irracionalidade na sombra vergonhosa de um apartamento enjoativo.

Contudo, a narrativa de Mazin é tão abrangente e escrupulosa, que ainda arranja espaço para nos infligir com mais uma camada de dor, ao acompanhar o calvário da esposa grávida de mais um dos sacrificados bombeiros daquela noite fatídica, enquanto o vê transformar-se “numa outra coisa qualquer”. E reforçamos a vossa atenção para a formidável caraterização levada a cabo por Daniel Parker na recriação medonha dos vários estágios das lesões cutâneas, que são tão pavorosamente realistas ao ponto de ser preciso desviar o olhar. A overdose sinistra de Mazin sobe ainda mais de tom, quando somos obrigados a assistir à horripilante cerimónia fúnebre da lutuosa mulher, no momento petrificante em que aquele cadáver desfigurado é soldado num caixote metálico e enterrado por baixo de uma camada de cimento para isolar a radiação. É uma imagem violenta, esta que Renck nos atira sem dó nem piada como espinhos dilacerantes na alma, mas sentimos a purga libertadora de um flagelo humano à procura da luz do dia para fazer as pazes com os seus demónios. E para a testosterona em cena ficar mais domesticada e esclarecida, Ulana Khomyuk (Emily Watson) – a laboriosa e brilhante colega de Legasov, que vai somar à task force investigadora a sua valiosa expertise é, na verdade, uma figura fictícia introduzida simbolicamente por Mazin como representante daquele colégio de cientistas envolvidos no apuramento académico dos factos. Num período tão misógino como aquele, constatarmos que uma mulher possa ter voz ativa na sociedade, e sentar-se à mesa com as mais altas insígnias estaduais, não deixa de concretizar uma certa visão romântica de Mazin, que transporta em Watson o charme inteletualista no intervalo de dois homens, já de si carismáticos.

Chernobyl HBO Portugal
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Num autêntico tic-tac de roer as unhas, enervado por um géiser de sons metalizados de eriçar todos os pelinhos e mais alguns, a tríplice aliança (Scherbina/Legasov/Khomyuk) corre contra o tempo para impedir uma fusão nuclear, sacrificando ainda mais homens dispostos a morrer sem condecorações pela sua pátria. Em mais uma cena inesquecivelmente louca, ligeiramente deturpada pelo propósito ficcional, uma centena de mineiros completamente nus, escavam um túnel debaixo da plataforma de betão, que sustenta o reator a ferver a mais de cinquenta graus, para nossa estupefação e das autoridades com aquele modus operandi primitivo. E é nesta combustão sulfúrica, que o imaculado guião de Mazin nos leva ancorados às palpitações cardíacas até ao julgamento dos autores e participantes neste embuste negligente ao mais alto nível, que segundo alguns historiadores, precipitou o fim da URSS. Na sobrelotada sala de audiências, que Legasov persuasivamente converte numa palestra de física e química nuclear trocada por miúdos, na qual nunca estivera, não fosse pela resolução satisfatória desta trama amplamente verídica. Contudo, ainda assim, tal manipulação em nada belisca o espírito do que realmente aconteceu naquela madrugada proibida, nem apagará a sucessão desastrosa dos eventos subsequentes, cuja fatura humana e ambiental terá repercussões em pelo menos onze gerações durante os próximos oitocentos anos.

Chernobyl T1
Chernobyl

Name: Chernobyl

Description: Uma minissérie épica da HBO em cinco partes que dramatiza os acontecimentos do acidente nuclear de Chernobil em 1986, contado pelas histórias das pessoas que fizeram sacrifícios incríveis para salvar a Europa de um desastre inimaginável.

  • Miguel Simão - 100
  • Cláudio Alves - 85
  • João Fernandes - 93
  • Miguel Pontares - 88
92

CONCLUSÃO

"Chernobyl", que acabou de ganhar um Emmy para melhor Mini-Série Dramática, merece a nossa total atenção, não só por retratar um dos piores acontecimentos da história da humanidade, mas pela forma sincera e sensível com que o faz, alcançando a proeza de nos prender a uma atmosfera destrutiva e melancólica como uma droga viciante. E é tão raro, surgirem pérolas audivisuais deste calibre, com uma intriga tão bem montada e executada, que do ponto de vista técnico é como dizem os ingleses "flawless". Mesmo do ponto de vista interpretativo, os intervenientes principais estão intratáveis, e a segunda linha de atores acrescenta sempre alguma valia à narrativa. Façam um favor a vocês próprios, se não viram ainda, nós obrigamos a ver, porque é mesmo OBRIGATÓRIO!!!

O Melhor: Atmosfera corrosiva; fotografia impactante; interpretações memoráveis; sonoplastia assustadora; enredo minucioso; caraterização surpreendente.

O Pior: Ter de rever tudo de novo.

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Miguel Simão

Jurista e Poeta em algumas horas vagas. Cinéfilo incurável com forte pancada pelo sci-fi, que se perde algures pelo vício noturno de umas quantas séries televisivas de renome; amaldiçoado pelo perfecionismo estético de uma resma de palavras mais ou menos caras. Podem encontrar-me a divagar entre a Terra e o Espaço no meu blogue premiado Última Transmissão Humana.

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