Halt and Catch Fire, quarta temporada em análise

Quatro anos depois, terminou a melhor série que nunca ninguém viu. Talvez o tempo dê a “Halt and Catch Fire”, produto nostálgico sobre a revolução tecnológica, a próxima ideia, tentativa e erro, sucesso e falhanço, a notoriedade que merece.

Em 2014, a AMC estreou “Halt and Catch Fire”, que nascia como pretenso herdeiro de “Mad Men”. Dar algo similar, mas diferente, àqueles que estavam em vias de perder Don Draper e Peggy Olson era o objetivo. E no berço as parecenças eram inquestionáveis. A criatividade como lente para acompanhar a (r)evolução num setor. A fotografia de um período de transformação de mentalidades e comportamentos. E uma fraude inspiradora como protagonista. Don Draper agora era Joe MacMillan (Lee Pace).

Com baixas audiências, a melhor série entre as que nunca ninguém viu (“Rectify” e “Utopia” têm uma palavra a dizer nesse campo) foi consecutivamente segurada pela AMC. Consciente, muito graças a “Breaking Bad” que o sucesso pode ser tardio ou até póstumo. E os autores Christopher Cantwell e Christopher C. Rogers justificaram as sucessivas oportunidades, fazendo “Halt and Catch Fire” crescer sempre (!) de temporada para temporada.

Antes de se mudar para Silicon Valley, “HaCF” partiu dos anos 80, colocando no centro do boom dos computadores três figuras: Joe, um visionário atormentado e controverso, Gordon (Scoot McNairy), um engenheiro atraído pela força gravitacional do carismático Joe, e a prodigiosa Cameron (Mackenzie Davis). Hoje, é evidente que a passagem de protagonismo para Cameron e Donna (Kerry Bishé) nas temporadas seguintes viria a contribuir de forma decisiva para perpetuar e diversificar uma boa ideia aperfeiçoada com humildade e inovação.

Halt and Catch Fire Joe Gordon

O lançamento do Giant pela Cardiff Electric, o nascimento e crescimento da startup Mutiny, jogos e comunidades, ideias roubadas, empresas destruídas e a origem da world wide web foram alguns dos momentos-chave das três temporadas anteriores. No entanto, “Halt and Catch Fire” revelou sempre a astúcia de sobrepor o pessoal ao profissional; ligar-nos às personagens. À relação por vezes binária de Cameron e Donna, Joe e Gordon. E as demais interações possíveis entre os quatro elementos da equação.

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A temporada 4 volta a colocar o quarteto perante alguns dos dilemas do passado. Mas, como sempre, respira obcecada pelo futuro. Um futuro que para nós foi ontem, e por isso “bate” com a nostalgia do som de um modem a ligar ou de um mundo pré-Google. E esta temporada de resolução, contida e mais humana do que nunca, completa a perseguição de um propósito de Joe, acalma o passado litigioso de Cameron e Donna, e faz com que sintamos Gordon real e finalmente vivo. E bem resolvido.

Tudo isto mantendo Bos (Toby Huss) como mentor e denominador comum dos afastados e silenciosos protagonistas. E a filha mais nova de Gordon e Donna, Joanie (primeiro trabalho como atriz de Susanna Skaggs), como rosto do futuro e input do contributo invisível da geração que acompanhámos.

Halt and Catch Fire Gordon

Depois de levar as suas personagens aos limites, criativos, éticos, laborais e amorosos, “Halt and Catch Fire” torna-se um adeus difícil. Como Cameron, a série amadureceu. Como Joe, a série manteve uma busca incessante por estar um passo à frente, não deixando passar a oportunidade.

A próxima ideia. Ter a ideia certa no momento certo. Criar algo. Participar em algo novo. Construir, destruir, voltar a construir. “Halt and Catch Fire” conseguiu algo difícil: colocar no ecrã o processo de tentativa e erro. Sucesso e falhanço. As rivalidades profissionais e o conflito entre egos de um conjunto de pessoas sempre viradas para o futuro, mas cujo presente pessoal e profissional foi sempre cativante.

Com uma banda sonora no ponto, a série que nos mostrou o custo adjacente a alguns sonhos pode orgulhar-se de ser uma das séries de 2017 em que o nível do elenco esteve mais alto. Analisando em exclusivo essa dimensão, Mackenzie Davis (“começou” aqui a carreira de uma das atrizes mais promissoras da atualidade), Lee Pace, Scoot McNairy e Kerry Bishé colocaram “HaCF” num olimpo taco-a-taco com “The Leftovers”, “Big Little Lies” e “Better Call Saul”.

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A nível de episódios, “Who Needs a Guy?” inclui uma das despedidas mais tocantes de uma personagem nos últimos anos, o silêncio do oitavo “Goodwill” é doloroso, e o derradeiro “Ten of Swords” é uma master class de como terminar uma série. Tanto tempo passado com Donna (aquele discurso…) e Cameron, aquela sala vazia e o futuro imaginado, para no fim terminar, como tudo começou, com Joe. Genial utilização da “Solsbury Hill” de Peter Gabriel. E um “Let me start by asking a question” que não indica um ciclo, sendo sim um call-back a desenhar um círculo perfeito.

E que evolução tiveram as personagens ao longo de quatro temporadas. O visionário fechado em si mesmo, vendedor por natureza, definido anteriormente como falso profeta e ladrão de sonhos Joe MacMillan acabou a esculpir o amanhã. O homem que sempre atraiu os outros, incapaz no entanto de os manter por perto, aceitou o seu dom: identificar o potencial dos outros. Moldar. Inspirar. Quão saudoso é recordar agora Joe e Cameron, o empresário egocêntrico e a miúda punk, e aquelas mãos dadas num elevador claustrofóbico da primeira temporada.

Halt and Catch Fire Donna

Depois, Cantwell e Rogers souberam deixar as várias relações no ponto que faz sentido, por tudo o que passou ao longo de quatro anos. No fim, falou mais alto a amizade de Joe e Gordon, houve outras relações que – como tantas ideias e projetos ao longo da série – falharam, e parte do brilhantismo do duplo-episódio final é a porta aberta para Donna (escrita como antagonista durante parte da temporada final) e Cameron, com uma nova ideia.

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É difícil olhar para “Halt and Catch Fire” como um todo e não pensar no popular discurso de Steve Jobs:

Isto é para os loucos, os desajustados, os rebeldes, os problemáticos. Os que insistem em ser uma peça redonda num buraco quadrado. Os que vêem as coisas de forma diferente. Eles não gostam de regras. Podem citá-los, discordar deles, glorificá-los ou difamá-los. Mas a única coisa que não podem fazer é ignorá-los… porque eles mudam as coisas. Fazem avançar a humanidade. E enquanto alguns os vêem como loucos, nós vemos génios. Porque aqueles que são loucos o suficiente para pensar que podem mudar o mundo, são aqueles que realmente o fazem.

“Halt and Catch Fire” triunfou ao transformar-se e evoluir, tal como o período que homenageou. Mas brilhou ao explorar algo improvável e pouco frequente em séries ou filmes: o falhanço. Deixará saudades como a série que olhou para a era da inovação, para o caminho até maximizar o potencial, e deu corpo e voz aos revolucionários invisíveis.

“Halt and Catch Fire” termina a 29 de outubro às 22h10, no AMC

Quando atravessares um hiato entre as tuas séries preferidas, nunca é tarde para dares uma oportunidade a “Halt and Catch Fire”.

Halt and Catch Fire - Temporada 4
Halt and Catch Fire poster

Name: Halt and Catch Fire

Description: A Internet expande-se graças à invenção do browser. Joe, Cameron, Gordon e Donna, obcecados pelo futuro, enfrentam vários dilemas do passado.

  • Miguel Pontares - 87
87

CONCLUSÃO

O MELHOR - O elenco (Mackenzie Davis, Lee Pace, Scoot McNairy e Kerry Bishé) num nível imaculado. A série melhorou de temporada para temporada, e por isso o melhor foi deixado para o fim. Deixa saudades.

O PIOR - Numa época em que tantas séries são prolongadas até ao infinito sem necessidade, "Halt and Catch Fire" tinha personagens e universo para nos oferecer mais uma temporada. Ainda assim, o último episódio é um excelente exemplo de como terminar uma série.

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Miguel Pontares

Licenciado em Comunicação Empresarial, estudou ainda Escrita de Argumento para Cinema e Televisão. É um dos autores do blog Barba Por Fazer.

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