Mindhunter, primeira temporada em análise

“Como nos antecipamos a um louco se não sabemos como ele pensa?”. É desta base que parte “Mindhunter”, o novo projeto do perfecionista David Fincher e uma das melhores novas séries de 2017.

Atenção, “Legion”, “Big Little Lies” e “The Handmaid’s Tale”. A Netflix guardou para os últimos meses do ano uma das mais fortes candidatas ao título de melhor novidade televisiva do ano.

Escrita e pensada tendo por base Mindhunter: Inside the FBI’s Elite Serial Crime Unit, a série que se senta frente a frente com alguns dos psicopatas mais perturbadores dos EUA não demora a apresentar-se. Desde a sua primeira cena impactante, com o protagonista Holden Ford (Jonathan Groff) impotente perante um tiro de caçadeira, ao genérico que enfeitiça o espectador, pontuado por 25 frames de cenas de crime que poderão perfeitamente passar ao lado a quem pisque muito os olhos.

Diálogo e imprevisibilidade. Desde o momento em que Holden Ford nos é introduzido no terreno, essas duas noções – ingredientes fundamentais na série ao longo dos dez episódios – ficam bem marcados. E se a viagem tem provavelmente em “Zodiac” a sua associação mais fácil, as entrevistas dão algo de “O Silêncio dos Inocentes” à série. Gostaram da primeira temporada de “True Detective” ou de “Se7en”? Então esta é para vocês. Com a constituição da dupla Ford e Bill Tench (Holt McCallany) a contribuir para esta comparação.

Mindhunter dupla

Em 1995, David Fincher colocou Brad Pitt e Morgan Freeman num ensaio perturbador e rematado com genialidade sobre os sete pecados mortais. As personagens de Groff e McCallany recuperam em certa medida a dinâmica dessa parceria. O distanciamento etário tornado próximo entre um idealista com a paixão para mudar o mundo e um quase-reformado contagiado. Acordado. “Mindhunter” constrói ainda Bill Tench como voz da razão e construtor de pontes e equilíbrios, vincando em Holden Ford a fina linha que o separa dos psicopatas que interroga.

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A série começa em 1977. Numa época em que todo o FBI olhava para os criminosos como demónios indecifráveis, desumanidade adquirida e jamais condicionada, Holden Ford vê nestes encarcerados os objetos de estudo perfeitos. “Como nos antecipamos a um louco se não sabemos como ele pensa?”, pergunta a dado momento Bill Tench, em busca de apoio e legitimidade para um conjunto de entrevistas inicialmente marginais. E oferece uma possível logline para “Mindhunter”.

A brilhante era televisiva com a qual somos mimados tem esgotado a paciência e a razão de ser de séries de procedimento. Falo de produções nas quais em cada episódio acontece o mesmo, mas de forma diferente. Séries que não exigem que o espectador tenha visto o episódio anterior – diferente, claro, de antologias como “Black Mirror” –, formulaicas e por isso algo preguiçosas. O formato é suportável em comédias e séries de animação refinadas; no drama, cada vez menos. Mas “Mindhunter”, que não é uma série de procedimento, podia até sê-lo e manteria a qualidade. Pelo universo que explora. Pelos antagonistas que visita e pelo facto de relatar a carreira dos agentes John E. Douglas e Robert K. Ressler, os seus encontros com monstros deste mundo, que não saíram da imaginação de ninguém, e o contributo dessas entrevistas para a resolução de outros casos.

Mindhunter Holden Ford

Aqui e ali, “Mindhunter” inclui alguns clichés. Aceitáveis, porém, por este ser o verdadeiro caminho do homem (John E. Douglas, convertido em Holden Ford e interpretado por Jonathan Groff) que inspirou Thomas Harris na construção de Jack Crawford, Bryan Fuller na sua versão de Will Graham e ainda algumas personagens de “Criminal Minds”. Esta é a origem de tudo, e aqui assistimos ao nascimento do termo serial-killers.

Com quatro episódios realizados por David Fincher (os dois primeiros e os dois últimos), e Asif Kapadia, Tobias Lindholm e Andrew Douglas a seguirem a linha do perito em raptar o nosso olhar, obcecado com a relação comportamento/ tempo, podem-se apontar alguns defeitos ao episódio piloto, que não deslumbra. Quer no ritmo, quer na fluência dos diálogos. Também por isso, faz sentido dizer que “Mindhunter” arranca a sério no segundo episódio. Muito graças a Ed Kemper (Cameron Britton). Se não há amor como o primeiro, também não há serial-killer entrevistado como o primeiro nesta série. Um gigante educado, curioso, fascinado e fascinante, capaz de num instante passar de cómico para aterrador. Não é uma coincidência que os dois melhores episódios da temporada (dois e dez) tenham Kemper.

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E é de gravador ligado e bloco de notas em cima da mesa que “Mindhunter” se destaca. Olhos nos olhos com Ed Kemper, Richard Speck, Jerry Brudos, Monte Rissell e Darrel Devier. Num pingue-pongue de pergunta e resposta, ao qual é dado o tempo que as cenas merecem: não é frequente verem-se hoje em dia cenas tão longas com tão bons diálogos, quando tantas vezes somos bombardeados com ação. E Fincher tem no formato televisivo o tempo que no cinema seria mais difícil de digerir. Junta-se o útil ao agradável, embora sempre desconfortável.

Mindhunter Ed Kemper

Na arte da conversação, “Mindhunter” é violento sem mostrar a violência. Pesado pela descrição dos detalhes. Perturbador ao fingir empatia para entender o impossível. Analisando o elenco, Cameron Britton é uma revelação. Ed Kemper é claramente uma das melhores personagens de 2017 na televisão. E se o conceito, o estilo e a atmosfera de Fincher nos convidam a entrar nesta série, é Kemper quem nos agarra (pelo pescoço, se calhar) e garante que lá fiquemos. Interessante também ver Jonathan Groff no papel mais exigente da sua carreira. E Holt McCallany, um crónico secundário que aos 54 anos tem finalmente o seu momento. Anna Torv integra melhor este ecossistema do que Hannah Gross. E são criadas bases para Sonny Valicenti ter maior destaque nas próximas temporadas.

Porém, nem tudo é perfeito. O verdadeiro interesse está estrada fora, com a dupla de agentes a colecionarem entrevistados (e fica no ar a hipótese de ainda surgirem Charles Manson ou Ted Bundy) e a resolverem casos paralelos. Já a relação de Holden com Debbie (Hannah Gross) e aquela cassete polémica nos episódios finais são mecanismos necessários para demonstrar o arco do protagonista e a contaminação da sua vida pessoal, mas tiram alguma perfeição à atmosfera criada, saindo um pouco ao lado.

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Fincher já revelou que a segunda temporada abordará os assassinatos de crianças em Atlanta e terá, por isso, Wayne Williams. A primeira temporada dá set-up para que o caminho de Ford e Tench se cruze com Dennis Rader (conhecido como BTK Killer), a figura que abre vários episódios e fecha a temporada. Nesta, não temos qualquer payoff. Teremos na próxima?

Para o futuro de “Mindhunter” apenas podemos desejar que Fincher continue a realizar a mesma proporção de episódios. O potencial é incalculável, já que a série parece saber e ter bem definido para onde vai, e o menu de serial-killers que ainda poderão aparecer é extenso. E, por favor, que o Ed Kemper de Cameron Britton continue a aparecer, e que o ator, uma revelação e um desconhecido até aqui, dispare para uma boa carreira.

O realizador de “Clube de Combate” e “Se7en” disse um dia que muitas pessoas vêem filmes para se recordarem que está tudo bem. Mas que ele não faz esse tipo de filmes, porque seria uma mentira já que para ele não está tudo bem no mundo. Uma coisa é certa: torna-se mais fácil viver num mundo em que, de tempos a tempos, temos um filme ou uma série de David Fincher para ver.

TRAILER | “Mindhunter” senta-se frente a frente com serial killers

O que achaste do novo projeto televisivo de David Fincher? O realizador deve permanecer bastante envolvido ao contrário de “House of Cards”. Em que lugar está “Mindhunter” nas novas séries de 2017?

Mindhunter - Temporada 1

Name: Mindhunter

Description: No final dos anos 70, dois agentes do FBI expandem as ciências criminais ao mergulhar na psicologia do crime e ao entrevistar e aproximar-se de monstros encarcerados.

  • Miguel Pontares - 85
  • Daniel Rodrigues - 77
  • Filipa Machado - 80
  • João Fernandes - 90
83

CONCLUSÃO

O MELHOR - Cameron Britton como Ed Kemper. "Mindhunter" brilha nas suas longas cenas de diálogo. É violento sem mostrar a violência, pesado pela descrição dos detalhes e perturbador ao fingir empatia para entender o impossível. Tudo captado ou supervisionado por um génio como David Fincher.

O PIOR - Fica um conselho: quando experimentarem ver o episódio piloto, vejam logo o segundo, porque é esse que agarra verdadeiramente e corrige algumas falhas do primeiro. De resto, os momentos de Holden Ford com a namorada Debbie, embora necessários para demonstrar o arco do protagonista e a contaminação da sua vida pessoal, são um desvio do verdadeiro interesse - estrada fora, com a dupla de agentes a colecionarem entrevistados e a resolverem casos paralelos.

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Miguel Pontares

Licenciado em Comunicação Empresarial, estudou ainda Escrita de Argumento para Cinema e Televisão. É um dos autores do blog Barba Por Fazer.

3 thoughts on “Mindhunter, primeira temporada em análise

  • Excelente crítica, sintetiza ao pormenor todo o espírito desta brilhante série. Para mim, é a melhor série de 2017 ou não tivesse o grande mestre David Fincher metido ao barulho. Parabéns ao autor.

  • Mindhunter

    Excelente série, para mim a melhor de 2017. David Fincher é um mestre e não deixa os seus créditos por mãos alheias. As interpretações estão muito boas mas Cameron Britton como Ed Kemper está soberbo. Parabéns ao autor pelo brilhantismo da crítica.

  • Obrigado Luís. Mindhunter foi sem dúvida uma das melhores novidades de 2017, e tem margem de progressão.

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