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Wild Rose – Rosa Selvagem, em análise

A cantora e actriz irlandesa Jessie Buckley brilha em ‘Wild Rose — Rosa Selvagem’, um divertido musical, sobre uma jovem escocesa, ex-presidiária e aspirante a estrela da country em Nasheville.

Começo por dizer, e logo para vos interessar que a voz e a fotogenia da cantora irlandesa Jessie Buckley são maravilhosas e verdadeiramente magnéticas neste ‘Wild Rose — Rosa Selvagem’ (2018), um filme muito simples, mas que não se dá o tempo como perdido.  Daqui para a frente é o crítico a falar! Jessie Buckley apesar de não ser muito conhecida em Portugal, nem como actriz nem como cantora, já havia mostrado aos espectadores o seu talento para a representação no papel de Maria Bolkonskaya, em Guerra e Paz, uma mini-série de época realizada por Tom Harper a partir da obra de Tolstoi, para a BBC e estreada em 2016 na RTP1; e sobretudo na sua personagem de Moll, em Besta (2017), um brilhante thriller psicológico, uma espécie de conto de fadas sombrio, realizado por Michael Pearce, que estreou em Portugal, mas que passou praticamente despercebido nas salas nacionais. Jessie Buckley tem em ‘Wild Rose — Rosa Selvagem’, uma performance inesquecível — que lhe valeu a nomeação ao BAFTA, num filme que não sendo uma obra-prima é muito interessante e feito à medida da bela e ruiva cantora-actriz irlandesa.

Wild Rose
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‘Wild Rose — Rosa Selvagem’ é um musical escrito pela argumentista Nicole Taylor, realizado com competência pelo britânico Tom Harper (realizou entretanto o recém-estreado Os Aeronautas, 2019), protagonizado ainda pela veterana Julie Walters (‘Mamma Mia’ ou ‘Billy Elliot’), no papel de uma mãe e avó, muito paciente e amorosa. A história gira à volta de uma rebelde e talentosa jovem cantora de country de Glasgow e ex-condenada, chamada Rose-Lynn Harlan (Jessie Buckley), que sonha chegar um dia ao Grand Ole Opry em Nashville, Tennessee, a catedral da música do género. Rose tem uma auto-confiança desafiadora. Acabada de sair da prisão, com uma pulseira eletrónica no tornozelo, que a impede de sair do seu apartamento à noite, limitando a possibilidade de seguir a sua carreira de cantora. Além disso tem de enfrentar uma dolorosa realidade doméstica de ser mãe solteira praticamente desde a adolescência e ter dois filhos pequenos. Julie Walters, interpreta Marion, a sua mãe sofredora, que cuidou do filho e da filha de Rose, enquanto esta esteve dentro. E por isso Marion não lhe alimenta os seus sonhos de chegar à Meca da música country nos EUA. A alternativa é um trabalho de empregada de limpeza na elegante casa de Susannah (Sophie Okonedo), que rapidamente fica encantada com o talento de Rose para cantar e se oferece para pô-la em contato com uma vedeta da locução da BBC (Bob Harris, que faz dele próprio), que poderá eventualmente ajudá-la. Mas não vale a pena contar toda a história.

VÊ O TRAILER DE ‘WILD ROSE – ROSA SELVAGEM’

Na verdade o argumento é um pouquinho forçado e artificial, com um plot bastante macio e previsível que parece às vezes ‘cozinhado’, em demasia. A persistência de Rose soa quase uma ingenuidade infantil em relação ao negócio da música e às reviravoltas da vida. Mas quem de entre nós iria por exemplo acreditar que alguém possa ter sucesso vinda da Escócia, como cantora de country? O curioso é que segundo o que pesquisei, em Glasgow há efectivamente uma cena musical de country bastante activa e vibrante, que aliás o filme apresenta como cenário: o clube Grand Ole Opry, em Govan Road, uma filial do de Nasheville. E provavelmente foi à volta deste local que se desenvolveu toda a trama da história de Rose-Lynn Harlan, que é obviamente uma ficção. Contudo com todas as fragilidades que ‘Wild Rose — Rosa Selvagem’, possa ter, Buckley fornece-nos um carregamento de vitaminas e energia em todas as cenas que participa. É desenfreada. Há por exemplo uma conversa muito engraçada entre Rose e o seu advogado, que supostamente está preparando um recurso contra a pulseira electrónica no tornozelo de Rose. Depois de ouvir o relato de Rose e de que foi acusada, o advogado pergunta-lhe de quem foi a culpa? Rose responde com esperteza que a culpa foi do juiz, por lhe dar a sentença. Um bom momento de um divertido cinismo e de rebeldia infantil da personagem, que agarra o público não apenas pela sua garganta (voz).

Rosa Selvagem
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De uma maneira brilhante, Jessie Buckley consegue mesmo e em simultâneo transmitir-nos uma certa confiança e uma certa inquietação, enraizando a imprudência e os desejos da sua personagem, num sentimento de confusão sobre os seus objectivos e destino. Sob seus orgulhosos e extravagantes protestos, talento natural e sorriso cortante, Rose-Lynn está também cheia de vulnerabilidades e dúvidas como todos nós e, daí a nossa enorme empatia por ela. Enquanto isso a talentosa Buckley que começou em 2008 como participante do programa de talentos I’d Do Anything da BBC, está em casa quando está em palco na frente de uma fabulosa banda country, com grandes talentos musicais do género, como Neill MacColl, Aly Bain e Phil Cunningham. Fui obviamente buscar estas referências, porque a música country não é a minha praia. Mas há um momento de intimidade no filme com que vibrei, com uma canção ‘à capela’ enquanto Rose a grava no computador para uma audição, que atinge um profundo acorde, fazendo com que a ‘rosa selvagem’ tocasse o meu coração (já me tinha tocado com aquele sorriso malandro!) e decerto vai tocar também os vossos. A designer de produção Lucy Spink e o diretor de fotografia George Steel, conseguem igualmente manter o equilíbrio entre a realidade e as aspirações do mundo de Rose-Lynn; enquanto que o compositor Jack C. Arnold garante que a música (country) seja sempre autêntica e excelente em qualquer parte do mundo, de Glasgow a Nashville. ‘Wild Rose — Rosa Selvagem’ é um filme empolgante e muito agradável para os espectadores, que deixa os nossos corações a vibrar e os pés a baterem.

JVM

Wild Rose — Rosa Selvagem
Wild Rose

Movie title: Wild Rose

Date published: 19 de February de 2020

Director(s): Tom Harper

Actor(s): Jessie Buckley, Julie Walters, James Harkness

Genre: Drama, Musical, Reino Unido/EUA, 2019, 101'

  • José Vieira Mendes - 70
70

CONCLUSÃO

’Seberg — Contra Todos os Inimigos’ é um elegante thriller político e um biopic temporal sem grandes pretensões, sobretudo onde a malograda actriz é muito bem interpretada por uma talentosa e inteligente Kristen Stewart, que apoiada pelo excelente trabalho de figurinos e maquilhagem, parece-se sem exageros muito mais com Joan Seberg do que à partida poderíamos imaginar.

O MELHOR: A esforçada e dedicada interpretação de Kristen Stewart, que se cuida para não chegar ao overacting de ser igualzinha a Joan Seberg;

O PIOR: A figura do agente Jack Solomon, parece demasiado bonzinho e liberal, para aqueles tempos em que o FBI era um feroz instrumento de intimidação contra a revolução.

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José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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