Besta

Besta, em análise

Besta” é um triunfo de romance pervertido, um estudo de personagem tão cáustico como complexo que representa uma estreia áurea de Michael Pearce no mundo das longas-metragens.

Na nossa cultura popular, é normal encontrarmos celebrações do amor romântico que elevam essa emoção ao patamar de magia benigna capaz de salvar as almas de todos. Rara é a obra que se propõe a desenterrar o lado mais perigoso da capacidade humana para amar, que se atreve a encarar o romance como um potencial veneno e um casal apaixonado como um par de monstros a consumir-se um ao outro. “Besta”, a primeira longa-metragem do inglês Michael Pearce, é essa mesma obra atrevida. Neste caso, o filme pega nas fórmulas do romance cinematográfico e dos dramas sobre serial killers e funde-os numa hedionda união que, apesar desta descrição bombástica, é muito mais subtil do que possa parecer a uma primeira análise. Com a subtileza vem também a precisão sanguinária de um bisturi capaz de rasgar as expetativas da audiência.

A “heroína” desta história de amor tóxico é certamente uma protagonista pouco ortodoxa para um romance do grande ecrã. Moll, uma habitante da ilha inglesa de Jersey, é uma jovem que parece viver à distância das pessoas que a rodeiam, como se entre si e o resto da humanidade se erguesse uma barreira invisível e intransponível. Ela canta no coro local e vive com os pais sob o pretexto de cuidar do patriarca enfermo, mas há pouca empatia na sua expressão emoldurada por labaredas de cabelos ruivos. Quando perscrutamos o seu tormento numa festa de aniversário, vemos uma mulher que guarda traumas misteriosos no seu passado e parece procurar algo que a faça sentir viva.

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Amor tóxico.

O vestido amarelo que ela enverga é um falso sinal de vitalidade solarenga, como um sorriso pintado na cara de um palhaço triste, e é só com o derramar de sangue que ela parece capaz de sair do estado sonâmbulo com que passeia por entre seus supostos entes queridos. Pelo menos, por agora, o sangue é dela mesma. Não há grandes surpresas quando, com a mão cortada e uma necessidade angustiante por se escapulir, ela sai da festa organizada pela mãe e vai passar a noite a dançar. A contorcer-se entre corpos suados na escuridão, Moll quase consegue desaparecer, fugir a si mesma e esquecer-se de tudo além da sensação de calor humano e o odor de álcool barato. Chegada a alvorada, começa um novo dia e uma nova fase na vida de Moll. É sob a luz da matina que ela conhece seu amado.

Ele não é o homem intoxicado que a persegue pelo areal, tentando insinuar-se a ela e daí conquistar um encontro sexual. Contudo, é por entre sua rejeição deste aspirante a Don Juan com uns copos a mais que Moll se depara com Pascal. De espingarda na mão e o olhar de um caçador, este estranho aparece-nos na posição de um salvador desafetado que impede uma potencial violação, mas não tem paciência para qualquer gesto de gratidão. A ameaça de violência impede a violência e Moll fica instantaneamente hipnotizada por esta nova presença na sua vida. Há uma aura de perigo que trespassa da mera presença de Pascal, mas é como se a protagonista se sentisse atraída por essa ameaça.

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Não tarda muito até que Moll e Pascal são uma parte da vida um do outro, para grande descontentamento das pessoas que habitam o ecossistema social da mulher, especialmente sua mãe. No entanto, não é só a matriarca que olha para Pascal e vê nele algo repugnante e destrutivo. Afinal, a polícia local anda a investigar uma série de homicídios de raparigas que foram asfixiadas com terra no meio do mato e o novo companheiro de Moll aparenta ser o suspeito número 1. Por seu lado, ela, mesmo quando é questionada pela polícia, mostra-se relutante em aceitar a culpa do namorado, ou pelo menos mostra-se relutante em vê-lo atrás de grades. Esboçando um abrasivo retrato explorativo de cumplicidade moral, culpa e obsessão, Michael Pearce vai-nos revelando como a personalidade de Moll vai muito além da fachada antissocial e alienada que ela usa como uma armadura.

O realizador é muito ajudado pelo seu elenco que, apesar da multidimensionalidade psicológica das personagens, nunca exibe um único passo em falso ou sinal de esforço. Os protagonistas são extraordinários, por exemplo, com especial destaque para Jessie Buckley no papel de Moll.  Nas suas mãos, esta figura abrasiva torna-se numa ferida pulsante em forma humana, uma criatura assustada com medo de si mesma e do seu potencial para alguma malignidade indefinida. Ela tanto parece querer acordar do seu estado de apatia, como ocasionalmente reflete em si um desejo de autoaniquilação. Quer seja na pista de dança, na companhia do namorado ou no chão da cozinha com vidros a perfurar-lhe a palma da mão, Moll é seduzida pela ideia de desaparecer, de se destruir. Contudo, sempre que interage com outras pessoas que não Pascal, ela reage com hostilidade, não com um gesto de masoquismo tristonho.

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Jessie Buckley é espantosa.

De certo modo, é como se Pascal fosse sua salvação existencial, uma salvação que tanto se pode manifestar através do entendimento emocional como pela ação assassina. Tais ideias vão marinando por entre as reticulações desta narrativa de mistérios homicidas, impregnando cada minuto com uma tensão psicológica que vai lentamente estrangulando o espectador. Pearce é um mestre do thriller e seus talentos não se ficam pela direção de atores e cuidadoso desdobrar do enredo. Veja-se, por exemplo, o modo como as cores do filme nunca fogem a uma ideia de naturalismo estético, mas, ao mesmo tempo, parecem demasiado vivas, como os matizes na pele de um anfíbio venenoso. Ao mesmo a tempo, a câmara nunca para de se mover, mesmo quando as imagens assim se enchem de estranhos vazios. Tais desequilíbrios provocam desconforto e sugerem um universo fora de ordem, um mundo de pernas para o ar onde até o amor pode ser o maior dos males.

Não se querendo ficar por aí, Pearce orienta todos os pormenores formais de “Besta” de modo a sugerir esta ideia de um caos cósmico sobre a ilha de Jersey. Até os figurinos, como o já mencionado vestido amarelo, parecem ser agressões contra as personagens, forçando-as a adotar papéis que elas não querem interpretar. Como o realizador é oriundo dessa mesma comunidade isolada pelas águas do Atlântico, seu olho é perspicaz e até quando o espectador é distraído pelos jogos psicológicos em cena, Pearce vai delineando um desenho grotesco de uma sociedade resguardada num conservadorismo antitético à humanidade dos seus habitantes. Pelo final, a audiência sente-se quase afogueada, ofegante, como se o peso de toda esta tensão tivesse indo esmagando seu próprio peito e, quando Moll finalmente explode, a audiência sente-se libertada. “Besta” é uma experiência opressiva e fria, feia até, capaz de tornar o amor em algo assustador. Seu génio encontra-se precisamente nesta capacidade para provocar essas mesmas reações viscerais no pobre espectador. Tal como seus heróis românticos, “Besta” é um filme que sabe bem como magoar, como violentar e ser cruel.

Besta, em análise
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Movie title: Beast

Date published: 2019-04-05

Director(s): Michael Pearce

Actor(s): Jessie Buckley, Johnny Flynn, Geraldine James, Trystan Gravelle, Hattie Gotobed, Olwen Fouéré, Charley Palmer Rothwell, Shannon Tarbet, Emily Taaffe, Tim Woodward, Oliver Maltman

Genre: Crime, Drama, Mistério, Romance, 2017, 107 min

  • Cláudio Alves - 85
  • José Vieira Mendes - 85
85

CONCLUSÃO:

“Besta” é uma história de amor que trata o romance central como um cancro que lentamente vai consumindo todo um enredo de mistério criminal num miasma de tensão e horror. Performances cheias de nuance e uma execução formal brilhantemente doentia fazem deste thriller um triunfo. Mal podemos esperar para ver como será o próximo filme de Michael Pearce.

O MELHOR: Jessie Buckley é espantosa.

O PIOR: Tanto o filme é focado em Moll e Pascal que o resto das personagens acabam por ser um pouco marginalizadas pelas prioridades narrativas. Enfim, não podemos pedir muito mais sem estender a duração do filme em demasia.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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