Wind River, em análise

A América selvagem, retrato de um mundo entregue a si mesmo e ao abandono, é o foco de Taylor Sheridan em Wind River. A narrativa, inferior a Sicario e Hell or High Water mas ainda assim valiosa, contrasta uma beleza solitária de cortar a respiração com a brutalidade, violência e crueldade humanas. Porque, entre tantos predadores, o homem é o pior dos animais. 

Louvado seja o dia em que Taylor Sheridan teve a sua epifania e percebeu que, embora como ator fosse apenas mais um, como argumentista tinha o talento para se tornar um caso (cada vez mais) sério. Escreveu Sicario (2015) e Hell or High Water (2016), realizados por Denis Villeneuve e David Mackenzie, e tem agora em Wind River a sua estreia como realizador-autor.

Com três trabalhos que podiam perfeitamente ser uma trilogia, começa a ficar clara a voz de Sheridan, mantendo como uniforme o tom e o ritmo daquilo que escreve. Com 47 anos, ou seja com muitos pela frente para aperfeiçoar o seu storytelling, transparece no ecrã a crítica social do texano e a preocupação em abordar questões relevantes. Fá-lo, porém, com subtileza. Tapa essa camada – evidente quando se analisa ou desconstrói cada um dos seus filmes – com toda a ação e tensão. O contexto e as personagens servem normalmente um propósito maior.

Wind River Jeremy Renner

Wind River pede emprestados alguns traços que contribuíram para o sucesso de Sicario e Hell or High Water. Do primeiro, embora não consiga ter replicada a inigualável visão de Villeneuve, recupera a incrível neblina de tensão rumo ao ato final e a proposta de colocar uma protagonista feminina determinada a provar o seu valor num mundo dominado pelo sexo oposto. Depois, vê-se também a simplicidade e o equilíbrio de Hell or High Water (um dos melhores argumentos do ano passado). Wind River não é, felizmente, um filme fácil de mastigar. E é um daqueles que fica connosco nos dias seguintes. Seja graças a uma imagem, a um diálogo ou a uma cena.

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Num ecossistema ao qual só não é roubada a neve e o silêncio, Wind River explora a realidade das reservas indígenas nos EUA. E o thriller arranca logo com o mistério da morte de uma jovem, encontrada pelo caçador Cory Lambert (Jeremy Renner). As circunstâncias juntam este homem, cujo passado doloroso justifica e reforça a procura de respostas, a uma jovem agente do FBI, Jane Banner (Elizabeth Olsen). A primeira a responder ao alerta de Wyoming, e um peixe fora de água na reserva de nativos americanos.

Num ambiente em que o branco da neve e o vermelho do sangue se fazem acompanhar pela banda sonora de Nick Cave e Warren Ellis, seguimos as várias etapas da investigação com Jane a contar com a ajuda do homem que caça predadores no dia-a-dia. Há vida além dos fatos de super-heróis de Scarlet Witch e Hawkeye…

Wind River Jane

A América selvagem, retrato de um mundo entregue a si mesmo e ao abandono, e que vive de acordo com as suas próprias leis, é o foco de Taylor Sheridan em Wind River. A narrativa, relativamente morosa mas capaz de acelerar a todo o vapor quando tem que ser, contrasta uma beleza solitária de cortar a respiração com a brutalidade, violência e crueldade humanas. Porque, entre tantos predadores, o homem emerge como o pior dos animais.

Falar deste Wind River significa também falar de uma inversão de habituais convenções. Primeiro, o risco de substituir o protagonista. No início, assumimos Jeremy Renner como a personagem principal, mas a chegada da Jane de Elizabeth Olsen atira-o em certa medida para segundo plano. Podia correr mal, mas não. O co-protagonismo oferece um arco à agente na sua afirmação e emancipação, e ao caçador pela capacidade de fazer justiça, não se deixando sucumbir pelo regresso a um passado que nunca deixará de estar presente. Depois, há também uma escolha invulgar – parte do clímax do filme faz-se num flashback revelador. Com os protagonistas ausentes. Numa das melhores sequências do cinema em 2017.

Wind River Renner

Analisando o elenco, este é muito provavelmente o melhor papel de Jeremy Renner desde The Hurt Locker. Depois de um período dedicado ao trio Bourne, Missão Impossível e Avengers, é bom ver o ator que já foi nomeado para dois óscares novamente a abraçar uma personagem exigente.

Já Elizabeth Olsen, uma das mulheres mais atraentes de Hollywood na atualidade e uma incrível atriz como ficou evidenciado em Martha Marcy May Marlene, incorpora tudo o que a personagem pedia. É um facto que a personagem podia estar mais desenvolvida ou caracterizada, como a de Jeremy Renner está. No entanto, é fácil gostar da abordagem sheridiana de quase não oferecer backstory. Só momento, presente, ação. Contrariamente a Sicario, desta vez Taylor Sheridan “acertou” no impacto da sua protagonista na ação. Entre tantos méritos do filme de 2015, uma falha fácil de apontar fora a forma como a personagem de Emily Blunt viu tudo passar-se à sua volta, acabando o filme como começou. Voltando a Olsen, impressiona o percurso da atriz nos últimos seis anos.

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Nos secundários, Graham Greene e Gil Birmingham (já colaborara com Sheridan em Hell or High Water) não precisam que ninguém lhes ensine nada e Jon Bernthal volta a mostrar que precisa de pouquíssimos minutos para deixar a sua marca num filme. Depois, tal como a série Iron Fist mostrou que Jessica Henwick podia dar uma excelente Mulan, Wind River lança Kelsey Asbille como uma potencial Pocahontas live-action.

No seu âmago, Wind River recomenda aos pais que nunca deixem de estar alerta (não se pode sequer pestanejar) e volta a demonstrar a força que o autor tem na arte de acabar um filme (Damien Chazelle é outro caso de sucesso recente nesse capítulo), de encerrar os seus guiões. A transbordar tensão, Sheridan gosta claramente de rematar com um diálogo rico, um poema que sucede normalmente o momento mais emblemático de cada um dos seus projetos. Benicio del Toro à mesa em Sicario, a perseguição final em Hell or High Water e, neste caso, a “oportunidade” concedida pela personagem de Jeremy Renner. Wind River não tem a fotografia ou a brilhante execução técnica de Sicario, mas tem o equilíbrio de Hell or High Water. Será inferior a ambos no seu todo, mas é exagerado recomendar-se que o autor fique pela escrita.

É notável a forma despretensiosa como Sheridan trata uma história de cada vez. E é também quase certo que, mais tarde ou mais cedo, acabe por nos oferecer uma obra-prima capaz de rivalizar com No Country For Old MenYellowstoneSoldado são os próximos passos.

Trailer | Descobre a verdade em Wind River

Não percas a oportunidade de ver Wind River nos cinemas. Gostas desta reedição da dupla Hawkeye e Scarlet Witch?

Wind River
Wind River Poster

Movie title: Wind River

Director(s): Taylor Sheridan

Actor(s): Jeremy Renner, Elizabeth Olsen, Graham Greene, Gil Birmingham, Jon Bernthal

Genre: Ação, Crime, Mistério

  • Miguel Pontares - 81
  • José Vieira Mendes - 85
  • Daniel Rodrigues - 82
  • Cláudio Alves - 55
76

CONCLUSÃO

Wind River representa mais uma etapa na ascensão meteórica de Taylor Sheridan. Partilha várias das qualidades de Sicario e Hell or High Water, e oferece-nos um thriller que foge a algumas convenções, num retrato com várias camadas e que fica connosco no pós-filme.

O MELHOR: Jeremy Renner e Elizabeth Olsen. Sheridan assume ainda alguns riscos, em termos estruturais, que compensam; e o último ato beneficia a apreciação global do filme.

O PIOR: Pode-se considerar moroso até acelerar a todo o vapor quando tem que ser.

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