"Dark Victory" | © Warner Bros

Clássicos em Casa | Dark Victory (1939)

Nomeado para três Óscares, incluindo Melhor Filme e Melhor Atriz, “Dark Victory”, também conhecido como “Vitória Negra”, é um melodrama choroso e arrebatador. Muitos anos depois da sua estreia em 1939, Bette Davis viria a dizer que este era o melhor filme em que ela alguma vez tinha entrado.

Dizer que uma narrativa é melodramática não tem que ser algo necessariamente negativo. Hoje em dia, o termo costuma vir carregado com conotações pejorativas, mas há que se respeitar o género do melodrama. Em cinema, muitos são os melodramas que também são obras primas do mais alto nível. Basta vermos os clássicos de Douglas Sirk ou as desconstruções luxuriantes de Rainer Werner Fassbinder. Houve até uma época em que o melodrama não era algo relegado às telenovelas, mas tinha direito a ser entretenimento popular aclamado tanto pela crítica como pelas audiências.

As décadas de 30, 40 e 50 representam essa era, especialmente quando nos referimos aos filmes apelidados de “women’s pictures”. Pode parecer estranho, mas os paradigmas sexistas que hoje dominam Hollywood nem sempre tiveram a sua forma atual. Produções de elite dos grandes estúdios com histórias desenvolvidas em torno de personagens femininas são uma raridade nos tempos que correm, mas, nesse apogeu do melodrama, eram quase que um género de cinema em direito próprio. Foi assim que estrelas como Joan Crawford, Greer Garson e Katharine Hepburn ganharam o seu estatuto enquanto lendas do grande ecrã.

dark victory critica
© Warner Bros

Outra dessas divas dos “women’s pictures” era Bette Davis. Contudo, a carreira dessa tão famosa atriz nem sempre foi bem-sucedida. Com olhos esbugalhados e silhueta magricela, Davis não era nenhum exemplo de beleza idealizada e os estúdios não sabiam bem o que fazer com ela no início da década de 30. Entre papéis secundários e filmes de série B, ela lá foi fazendo a vida, mas foi quando protagonizou os “Escravos do Desejo” de 1934 que Davis realmente se afirmou enquanto intérprete e celebridade. Fincando os dentes num enredo lúrido, ela fez como um animal enjaulado e rosnou para a câmara, mostrou os seus dentes aguçados e toda a fúria de um leão enraivecido.

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Tanto foi o alarido que ela fez com que se mudassem as regras dos Óscares e num par de anos já se gabava como uma das grandes estrelas da indústria. O seu prestígio foi tanto que ela podia escolher os papéis que queria e escolhia-os bem. Entre eles, destaca-se a figura Judith Traherne em “Dark Victory”, um melodrama choroso que tem garra, sentimento e virtude artística em igual medida. Essa película de 1939 conta a história de uma socialite endinheirada que, de um dia para o outro, começa a sentir estranhos sintomas e maladias. Descobre-se que ela tem um tumor no cérebro que é inoperável, selando-lhe um fado cruel. Como não há nada a fazer, os amigos e médicos da rapariga decidem mentir-lhe, deixando-a viver os últimos dias na plenitude, sem o fardo da morte a pesar-lhe sobre os ombros.

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© Warner Bros

Como veem, a história é meio absurda nos seus excessos de sentimentalismo e premissas rebuscadas. No entanto, quando o melodrama é bem feito consegue chegar a antípodas da glória cinematográfica e é isso mesmo que aqui vemos. A direção de Edmund Goulding é impecável e a música de Max Steiner puxa pelo coração sem ser crasso no seu esforço melódico. Os figurinos são glamourosos e a fotografia elegante, nada melhor para ilustrar uma história sobre a maravilha da vida quando contrastada com a morte prematura. Com tudo isso dito, o melhor elemento da produção são os atores, todos eles exemplares, mas um afirmando-se acima dos outros. Esse intérprete consagrado é, como já se afigura, a inigualável Bette Davis.

A atriz faz de Judith um retrato de uma vida vazia até a ameaça do seu fim. Quando Judith descobre que está doente, mesmo não sabendo o prognóstico completo, o choque despoleta uma reapreciação da sua existência. Ela aprende a viver no mesmo instante em que a vida lhe escorre por entre os dedos e a abandona. Ver Davis confrontar uma vida sem propósito e decidir aproveitar o que tem, tudo dito com os olhos brilhantes, é um espetáculo do mais alto gabarito. Vê-la apaixonar-se é ainda melhor e, quando o clímax se pressagia, testemunhar como Judith enfrenta a morte é algo assombroso. Davis interpreta tudo com complexidade e emoção forte, insuflando o papel de sentimento explosivo e os momentos finais são por ela pintados com a bravura de uma santa martirizada. Davis eleva “Dark Victory” ao panteão dos melhores melodramas já feitos, disso não há dúvida.

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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