"Dark Waters: Verdade Envenenada" | © Pris Audiovisuais

Dark Waters: Verdade Envenenada, em análise

Com “Dark Waters”, o cineasta Todd Haynes retrata uma América envenenada pelos excessos de um capitalismo voraz, disposto a matar pessoas em nome do lucro.

Todd Haynes tem uma das filmografias mais fascinantes no panorama do cinema americano atual. No auge do New Queer Cinema, o realizador entrou a bombar no circuito dos festivais com curtas-metragens ousadas e controversas. Uma mini-cinebiografia de Karen Carpenter com Barbies nos papéis principais chegou mesmo a ser ilegalizada devido a contenciosas questões judiciais. Dessas curtas arrojadas, Haynes saltou para o mundo das longas com uma espécie de filme tripartido. “Poison” pode ser uma longa-metragem unida por temas de erotismo queer, mas a sua estrutura é a de três curtas coladas umas às outras.

Destas origens experimentais, veio rapidamente o estatuto como um príncipe na onda independente americana. O filme que garantiu essa mudança foi “Safe”, um drama bizarro sobre uma mulher que desenvolve alergias a todos os químicos que fazem parte do dia-a-dia de uma América moderna. Com Julianne Moore no papel principal, o filme tem ares de tragédia apocalíptica e fatalismo para dar e vender. A isso seguiu-se “Velvet Goldmine” e uma homenagem ao glam rock, “Longe do Paraíso” e uma carta de amor aos melodramas de Douglas Sirk, “I’m Not There” e o retrato multifacetado de Bob Dylan. Com novas décadas veio a glória romântica de “Carol” e o artifício sentimental de “Wonderstruck”.

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O que une todos estes filmes é uma sensibilidade exuberante, fortemente associada a estéticas queer e histórias de transgressão social. Além disso há muito rigor formal e gosto pelo melodrama e a emoção forte sublimada em epítetos de beleza cinematográfica. É um cinema de autor e de vanguarda, por outras palavras. A uma primeira análise, “Dark Waters: Verdade Envenenada” representa a contradição de todas estas características autorais.  Longe está o estilo arrojado e a sensibilidade queer para dar lugar a um thriller de investigação à la “Erin Brokovich”. Mais convencional é impossível.

A proposta narrativa de “Dark Waters” não é o que surpreende, mas sim a sua execução e é aí que Haynes mostra a sua contribuição artística para um tema que podia facilmente ter sido encarado por outro cineasta. O filme conta a história verídica de Robert Billock, um advogado que fez carreira a defender grandes empresas químicas até ao dia em que decidiu ajudar um cliente mais humilde. Esse cliente era um conhecido da sua avó, um agricultor da Virgínia Ocidental cujos animais começaram a morrer inexplicavelmente de um dia para o outro.

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O que começou por ser um caso simples gradualmente foi aumentando de dimensão, qual bola de neve que rola montanha abaixo até se tornar numa avalanche. Um dia, o advogado viu-se do outro lado da sala de tribunal, processando a gigantesca corporação DuPont pelo envenenamento deliberado de toda uma comunidade e potencial comercialização mundial de um produto tóxico. Apesar de tais palavras sugerirem um caso dramático, a realidade tende a ser mais aborrecida que excitante. Assim foi com o processo que se arrastou ao longo dos anos e décadas, sendo que ainda hoje é disputado em tribunal.

Esse detalhe da natureza inacabada da história é um dos primeiros toques de originalidade do projeto. Haynes vai buscar muita inspiração aos thrillers de paranóia dos anos 70 e ao cinema independente dos 90, mas jamais se limita a fazer cópia íntegra. Pelo contrário, o cineasta filtra esses elementos cinematográficos através de uma visão focada no heroísmo de quem simplesmente resiste e não se deixa levar pelas correntes pérfidas de um sistema económico que põe receitas monetárias acima da vida humana.

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Não há aqui lugar para inspiração lamechas à Hollywood. No seu lugar fica um thriller deliberadamente vagaroso e frustrante, um estudo em paralisias sistémicas que tornam a justiça numa utopia inalcançável. Nunca isso se vê melhor que na figura do agricultor cujas queixas despoletam todo o caso. Interpretado por Bill Camp, Wilbur Tennant começa por ser uma torrente de indignação enfurecida, um touro enraivecido pronto a barafustar com qualquer obstáculo. No entanto, o pesar do tempo e o veneno na água vão-lhe tirando a força e o touro passa a ser um leão cansado e febril, rugindo para o vazio na esperança que alguém vá pagar pela dor que o consome.

O mundo de “Dark Waters” é um mundo injusto e amoral, podre até ao seu âmago. É o nosso mundo, por outras palavras, e Todd Haynes revela a sua torpitude com a precisão de um mestre cirurgião com o bisturi afiado na mão. A fotografia de Edward Lachman é particularmente estupenda na sua pintura de paisagens rurais em tons de cinzento estéril e verde ácido, imagens granulosas e feias que tresandam à putrefação que se espalha nos organismos envenenados pela DuPont. Estas podem não ser ferramentas estilísticas exuberantes, cheias de lantejoulas e sedas perfumadas, mas não são uma traição à oeuvre e ao ethos de Todd Haynes. O que podia ser mais característico deste realizador que uma obra formalmente rigorosa sobre aqueles que os poderosos marginalizam e condenam ao esquecimento?

Dark Waters: Verdade Envenenada, em análise
DARK WATERS

Movie title: Dark Waters

Date published: 28 de January de 2020

Director(s): Todd Haynes

Actor(s): Mark Ruffalo, Anne Hathaway, Bill Camp, Tim Robbins, Victor Garber, Mare Winningham, William Jackson Harper, Louisa Krouse

Genre: Biografia, Drama, História, 2019, 126 min

  • Cláudio Alves - 85
  • José Vieira Mendes - 75
80

CONCLUSÃO:

“Dark Waters” é um retrato primoroso de um mundo feio e podre. Esta é uma história verídica que todos deviam ver, mesmo quando as garras da depressão se fecham em volta do coração e o vómito sobre a garganta. Miséria cinematográfica na sua vertente mais urgente e modestamente virtuosa.

O MELHOR: As imagens doentias que Ed Lachman e sua câmara conjuram. Um cemitério bovino e um sorriso putrefacto, jantares bafientos embebidos em âmbar e restaurantes cobertos pela pátina esverdeada da infelicidade matrimonial.

O PIOR: O modo como o argumento e a mise-en-scène tratam a esposa do protagonista. Anne Hathaway não merecia uma caracterização tão inconsistente ou uma filmagem tão disposta a pô-la às margens do seu próprio filme.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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