Léa Seydoux e Vincent Lindon.

Diário de uma Criada de Quarto, Mini-Crítica

 

Esta é quarta adaptação do romance ‘Diário de uma Criada de Quarto’, de Octave Mirbeau, escrito em 1900, agora dirigida pelo realizador francês Benoît Jacquot.

 

FICHA TÉCNICA

 

Título Original: Journal d’une Femme de Chambre
Realizador: Benoît Jacquot
Elenco: Léa Seydoux, Vincent Lindon, Clotilde Mollet
Género: Drama
Leopardo | 2015 | 96 min[starreviewmulti id=18 tpl=20 style=’oxygen_gif’ average_stars=’oxygen_gif’] 

 

Talvez o único grande motivo para a fazê-la é porque nasceu uma estrela chamada Léa Seydoux, a nova bond-girl, muito bem relacionada no cinema francês, que começa agora quase a ser comparada como uma nova Jeanne Moreau. Benoît Jacquot adaptou com uma certa mestria o famoso romance, contado a partir da perspectiva de uma jovem mulher que tira partido da sua sensualidade, para garantir a vida que mais deseja. Jacquot (‘Adeus à Rainha’ e ‘3 Corações’) é um realizador muito certinho mas está muito longe do talento de Jean Renoir (1946) ou Luis Buñuel (1964). No entanto, será que faz sentido comparar Benoît aos dois ‘monstros’ e mesmo fazer mais esta adaptação, que afinal no inicio até era para ser protagonizada por Marion Cotillard, em vez de Seydoux?

Um nova versão com Léa Seydoux, na criada.
Um nova versão com Léa Seydoux, na criada.

‘Será que faz sentido comparar Benoît aos dois ‘monstros’ e aos filmes de, Jean Renoir (1946) ou Luis Buñuel (1964).’

Vinda da vibrante Paris de 1900, Célestine (Léa Seydoux) vai trabalhar como criada para a Normandia. Na casa dos Lanlaire vai encontrar um homem lascivo e a sua esposa assexuada, tirânica e ciumenta. No entanto, Célestine está determinada a evitar o destino da gorda cozinheira Marianne que secretamente já abortou de uma criança nascida fora do casamento e que está novamente grávida. A juntar a isto está o intrigante e misterioso criado Joseph (Vincent Lindon) que distribui panfletos anti-semitas e sugere que Célestine poderia trabalhar para ele como prostituta em Cherbourg. Este filme tem várias diferenças narrativas em relação ao de Buñuel, (um visão do passado de como é que a rapariga chegou a este lugar e as estranhas decisões que tomou para aí chegar…), mas o eixo central é obviamente o mesmo: um olhar ácido sobre o comportamento da burguesia e a luta de classes. 

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‘Este filme tem várias diferenças narrativas em relação ao de Buñuel, (…), mas o eixo central é obviamente o mesmo…’

Sem grandes solenidade e a um ritmo que varia entre o thriller e a comédia absurda, Jacquot procura refletir sobre o poder dos impotentes e a impotência dos poderosos, em mais esta adaptação de ‘Diário de uma Criada de Quarto’, agora com algumas pequenas reviravoltas e uma excitante perversidade, que faria as delicias por exemplo de um Claude Chabrol. Valha-nos ainda ver a bela Léa Seydoux, a trabalhar de uma forma aceitável (não chega nem aos calcanhares de Moreau!), mas algo pitoresca no papel de Célestine; e depois observar as mudanças na sinistra figura do criado Joseph (mais uma brilhante interpretação de Vincent Lindon, que perdeu o troféu de Melhor Actor Europeu 2015, para Michael Caine), que revela um dos lados mais sombrios do início do século XX: o nascimento do anti-semitismo, um tema que tem de alguma forma marcado as inseguranças do mundo, desde aí até aos nossos dias, em pleno século XXI.

VÊ MAIS: Assiste ao trailer de Diário de Uma Criada de Quarto

Voltando ao principio, não havia necessidade de fazer mais uma versão cinematográfica de ‘Diário de Uma Criada de Quarto’, quando há tantas histórias novas para contar, mas na verdade não se pode dizer que este seja um mau filme.

Uma criada um pouco diferente das anteriores.
Uma criada um pouco diferente das anteriores.

O melhor: a mistura de humor, mistério e perversidade que atravessam as personagens e todo o filme.

O pior: o facto de ser mais uma versão do romance, quando há tantos temas para abordar.

 

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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