Do Livro à Tela – Cloud Atlas

 

Do Livro à Tela

Cloud Atlas

É um dos livro mais elogiados dos últimos anos e tornou-se numa das mais sonantes adaptações dos últimos tempos. É, certamente, um dos filmes do ano, e dos que mais tinta fará correr!

Mas afinal, o que faz de Cloud Atlas, tanto filme como livro, diferente de tudo o resto?

Diz-se que o enredo de filmes, livros e jogos, estão todos colocados num triângulo onde, em cada vértice, temos uma forma distinta de nos ser dada a história.

Primeiro temos o “Clássico” onde um personagem tem um objetivo e “percorre” o enredo até o completar ou falhar. “O Senhor dos Anéis” ou “Star Wars” são exemplos famosos.

Depois temos o “Minimalismo” ou “Minitrama”, que é identificado pelo enredo onde o personagem principal se apresenta passivo, não sendo o catalisador, mas sim alguém, que tal como nós, vê os acontecimentos, tornando-se a história numa introspeção da própria personagem. “21 Gramas” é um excelente exemplo.

Por fim temos a “Antiestrutura”, onde a narrativa nos leva para algo absurdo ou que não encaixa naturalmente no universo da própria história. Monty Python, Laranja Mecânica ou Meia-Noite em Paris são exemplos de filmes que apresentam traços desta estrutura.

Mas afinal onde entra Cloud Atlas? Este tem sido o tema mais debatido em críticas, tanto online quanto impressas.

Tanto filme como livro não estão definidos no centro do triângulo, pois, incrivelmente, apresentam um pouco das três estruturas. E nenhum outro filme o conseguiu tão bem.

Então quais são as diferenças entre filme e livro? A principal será a forma como a história está montada. No livro, as 6 histórias são apresentadas uma da cada vez, de forma cronológica, sendo que as 5 primeiras são interrompidas e apenas a 6ª nos é dada do início ao fim. De seguida vemos o terminar da cada história enquanto viajamos para trás no tempo (da 5ª até à 1ª história) e consequentemente o livro acaba na Era em que começou. No filme não existe esta divisão entre as 6 histórias, tornando-se mais fácil a ligação entre momentos, diálogos e personagens das várias histórias.

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Outra diferença está na imagem de cada personagem: no filme, os atores são os mesmos em cada história, sendo fácil (na maioria dos casos) fazer a imediata ligação entre o personagem do séc XIX com outro num futuro apocalíptico. No livro esta ligação não acontece de forma tão imediata, sendo necessário uma boa dose de concentração do leitor e um ritmo de leitura que não seja baixo, para não nos esquecermos de pormenores importantes.

Estas duas diferenças tornam a experiência completamente diferente entre ver ou ler Cloud Atlas, mas o trabalho de adaptação está tão bem conseguido que toda a essência do livro está no filme, e essa é: ligação.

É verdade que existem outras diferenças: há personagens que não aparecem no filme, outras que morrem de forma diferente, e essencialmente, o filme é muito mais romântico ao apresentar suaves histórias de amor em cada história (no livro o romance não é tão óbvio em algumas histórias).

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A fabulosa mistura entre ciência e filosofia, fará cada um retirar as suas próprias conclusões, pois estamos perante uma obra que se sustenta em ciência e filosofia que apoia e destrói ao mesmo tempo. E consequentemente, em nenhum dos casos existe uma resposta definitiva. O que é uma ligação? Existirá sequer? O que é real? O que é sonhar? Ou até que ponto as nossas ações influenciam o futuro? Existirá alma? E se sim, o que transporta, transmite e nos molda? Todas estas perguntas poderão ser feitas com a poderosa obra de David Mitchell.

No geral, Cloud Atlas é daqueles casos em que será impossível recomendar apenas filme ou livro. Aqui recomenda-se os dois por serem tão idênticos e ao mesmo tempo tão diferentes, ficando a cada um a escolha de ver ou ler… ou fazer as duas coisas. A diferença entre estruturas, personagens e romances tornam estas duas experiência distintas, e totalmente recomendadas a quem quiser arriscar perante algo que uns irão adorar, outros irão odiar, mas que ficará para sempre como algo inovador… que será estudado e imitado no futuro.

 

LP

 


Luis Pinto

Software developer - Autor do canal Tek Test - Apaixonado por jogos desde o tempo do Spectrum!

4 thoughts on “Do Livro à Tela – Cloud Atlas

  • Apenas vi o filme…
    Mais uma excelente crítica, Luis!

  • Mais uma excelente crítica! Gostei imenso!

    Cláudia

  • Não pensava ler mas, depois desta demonstração de consistência, acho que também vou querer conhecer o conteúdo do livro (e do filme). Parabéns pela tua publicação, Luis!

  • Estou indo atras do livro , o filme é ótimo , merecia indicação para OSCAR

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