DocLisboa Friedkin Uncut critica

DocLisboa ’18 | Friedkin Uncut, em análise

Friedkin Uncut” explora o legado cinematográfico do realizador de clássicos do cinema americano dos anos 70 como “O Exorcista” e “Os Incorruptíveis Contra a Droga”, que até ganhou o Óscar de Melhor Filme e Realizador. Este é um dos filmes apresentados na secção Heart Beat do DocLisboa de 2018.

O documentário sobre o autor respeitado é um subgénero do cinema documental que se está a tornar cada vez mais comum, não obstante a geral mediocridade que este modelo produz. Para quem esteja em busca de uma introdução básica ao trabalho de específicos cineastas, obras assim tendem a ter algum valor. No entanto, se o espectador em questão for um cinéfilo à procura de uma exploração mais séria, surpreendente ou incisiva sobre a figura de um realizador e sua oeuvre, tais projetos tendem a deixar muito a desejar.

Mesmo nos poucos casos em que os cineastas responsáveis pelo documentário se arriscam a aprofundar o seu estudo e a realmente encontrar perspetivas novas sobre trabalhos clássicos, há uma grande tendência a deixar tudo cair num registo de elogio babado e sem nuance. Por vezes, tal elogio é apresentado sem pretensões de maior complexidade, como acontece com “De Palma”, onde Noah Baumbach e Jake Paltrow fizeram culto à glória de Brian De Palma. Noutras instâncias, o filme afirma-se como um estudo incisivo e não é mais que um objeto de insípida adulação de um fã para com seu ídolo.

DocLisboa Friedkin Uncut critica
William Friedkin não é nada favorecido pelo retrato pintado por este documentário.

Tudo isto para dizer que “Friedkin Uncut” de Francesco Zippel é um desses esforços insípidos com pretensões de grandeza. Certamente que o seu título e abertura estão insuflados de pomposidade e auto-importância. Afinal, das primeiras coisas que ouvimos William Friedkin proferir é que as duas pessoas mais interessantes da História são Jesus Cristo e Adolf Hitler. Trata-se do tipo de provocação intelectualmente barata que esperaríamos ouvir de um jovem em primeiro ano de faculdade a tentar impressionar os seus colegas numa festa. Na boca de Friedkin e no contexto do filme, parece uma afirmação cliché e vazia que em nada informa o resto do filme que se desenrola no seu seguimento.

Um filme que, verdade seja dita, é um pesadelo de estruturação disfuncional tão grande que a sua associação a algumas das obras-primas de Friedkin tem a aparência de uma celebração devota, mas o sabor de um insulto profano. Por exemplo, “Friedkin Uncut” começa com “O Exorcista” antes de se aventurar por uma análise mais cronológica da filmografia do autor titular, acabando por regressar a “O Exorcista” com uma segunda introdução e a repetição de muita da mesma informação. É óbvio que o legado desse triunfo inigualável do terror cinematográfico é um ponto crucial na vida e carreira de Friedkin, mas este retorno cíclico não faz sentido dentro de um documentário que aparentemente não tem tempo para tratar de metade das obras do realizador.

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“Friedkin Uncut” nem tem a decência de ser uma boa promoção do trabalho total de Friedkin, pois foca-se somente nos seus projetos mais famosos e nos detalhes que já são conhecimento de quem quer que tente investigar o seu nome no Google. Pior ainda é o conteúdo da entrevista principal entre Zippel e o realizador americano que se está sempre a repetir e parece ter muito pouco a dizer sobre a sua metodologia. Nem mesmo em casos mais controverso em que seria possível questionar ativamente o cineasta, Zippel ousa sair da sua posição de entrevistador passivo.

Essas instâncias, nomeadamente as passagens sobre “Sorcerer” e “Cruising”, são ainda mais notórias pelo testemunho de outras pessoas que não Friedkin. Trata-se de realizadores como Tarantino e Wes Anderson, de críticos e colaboradores antigos do realizador que pouco têm para oferecer senão mais adulação. No caso de “Cruising” isso é impossível de ignorar pois o documentário gasta bastante tempo a mencionar a reação da comunidade gay a esse filme que tanto demoniza o submundo BDSM queer. Contudo, só faz isso para concluir que tais críticas não tinham razão de ser e não lhes dá credibilidade nenhuma.

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Um cocktail irritante de narcisismo, adulação babada e hipocrisia cinéfila.

Não queremos insinuar que o filme deveria dar razão a essas análises negativas do trabalho de Friedkin, mas se as vai mencionar, então que dê oportunidade para alguém apresentar o caso devidamente. Alguém que não seja um fã de Friedkin que nunca verá mal em nada que o cineasta envelhecido faça. Com tantos realizadores de cinema queer que até já realizaram obras sobre o mesmo ambiente que Friedkin explora, o entrevistado que mais fala de “Cruising” em “Friedkin Uncut” é Quentin Tarantino. É difícil levar a sério o documentário depois disso e de uma longa sequência em que Friedkin insiste que todos os seus filmes são apolíticos. Um cineasta que fez tantos filmes sobre polícias heroicos devia considerar bem as suas palavras quando define tais retratos como apolíticos.

Enfim, pelo menos os clips dos greatest hits da filmografia de Friedkin conferem alguma qualidade a este documento de mediocridade. A não ser, é claro, quando Zippel decide colocar música nova por cima dos filmes antigos, como acontece em vários clips de “O Exorcista”. No final, isso é uma sinédoque adequada para toda a experiência deste documentário pinta uma visão de William Friedkin enquanto um tirano do plateau que não tem nada de interessante a dizer sobre o seu trabalho e está rodeado de fãs aduladores incapazes de articular a razão pela qual o velho mestre é merecedor de tanta admiração. O pior de tudo isto é que, tal como os clips violentados de “O Exorcista”, o efeito do documentário é a sintomática depreciação e desvalorização de clássicos do cinema que merecem muita melhor elegia documental que “Friedkin Uncut”.

Friedkin Uncut, em análise
DocLisboa Friedkin Uncut critica

Movie title: Friedkin Uncut

Date published: 27 de October de 2018

Director(s): Francesco Zippel

Genre: Documentário, 2018, 107 min

  • Cláudio Alves - 40
40

CONCLUSÃO

Só mesmo fãs quase cultistas de William Friedkin poderiam afirmar que “Friedkin Uncut” é um bom documentário. Infelizmente, para quem não estiver cego pela devoção e procure uma análise e exploração excitante ou complexa sobre os filmes deste titã do movimento da Nova Hollywood dos anos 70, então é melhor evitar este esforço de Francesco Zippel. A parte mais interessante de toda a entrevista é o instante em que Friedkin define Kathryn Bigelow como a melhor cineasta americana do momento e diz que Damien Chazelle é o futuro da arte. Como não podia deixar de ser, neste filme de tons vagamente sexistas, Chazelle tem direito a uma entrevista e Bigelow não.

O MELHOR: As imagens dos filmes de Friedkin que oferecem alguma dinâmica visual a este documentário feito de entrevistas filmadas do modo mais prosaico imaginável.

O PIOR: Todo o segmento em volta de “Cruising”, onde os limites e hipocrisias deste projeto são postas a nu de modo grotesco.

CA

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