DocLisboa The Raft critica

DocLisboa ’18 | The Raft, em análise

The Raft” investiga e disseca uma experiência social muito controversa que teve lugar nos anos 70 e acabou por ser considerada um fracasso. Este é um dos filmes em exibição na secção “Da Terra à Lua” do DocLisboa deste ano.

Em 1972, o antropólogo mexicano de origem espanhola Santiago Genovés foi vítima do sequestro de um avião por um grupo terrorista. Para o estudioso do comportamento humano que acabava de vir de um seminário sobre as origens da violência, o evento não podia ter sido melhor ou mais irónico. Propulsionado pela experiência excitante do sequestro, Genovés concebeu uma experiência para estudar os impulsos que levam o ser humano a deixar-se levar pela tentação da violência. Para esse efeito, ele decidiu reunir 10 indivíduos de origens e culturas distintas para embarcarem com ele numa viagem transatlântica num barco minúsculo, sem motor, sem espaço, sem sanita sequer.

Aos participantes e autoridades internacionais, Genovés disse que esta era uma experiência que tentaria encontrar o caminho para a paz mundial, promovendo a tolerância. Na verdade, o antropólogo tinha orquestrado tudo de modo a promover o conflito entre os participantes. As diferenças culturais, nacionais e étnicas deles não eram as ferramentas para se construir tolerância, mas elementos de fricção pessoal. Para refletir o estado do mundo como Genovés o via e desequilibrar estruturas de poder tradicionais dentro da embarcação, as posições de autoridade foram dadas a mulheres. A capitã foi mesmo Maria Björnstam, a primeira mulher a licenciar-se em capitania marítima na História da Suécia.

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O passado e o presente estão em precário diálogo neste documentário.

Além disso, num gesto que parece mais apropriado a um produtor de reality shows que a um cientista rigoroso, Genovés fez questão de só escolher pessoas que ele mesmo via como atraentes, assim como um jovem padre católico. O intuito era fomentar a tensão sexual do grupo e ter a presença religiosa como estimulador de culpa e vergonha. Para com a sua equipa de voluntários, o antropólogo proclamava a necessidade de uma ligação íntima uns com os outros. Essas ligações verificaram-se e ainda perduram nos dias de hoje, mas têm mais que ver com intimidade emocional do que com sexo. Infelizmente para Genovés, o seu conceito pessoal de intimidade parecia resumir-se só a sexo.

Pelo menos, essa é uma das conclusões tomadas pelos seis participantes desta experiência que ainda são vivos hoje em dia e que o cineasta sueco Marcus Lindeen reuniu para a rodagem desta sua primeira longa-metragem. “The Raft” é mesmo a comunhão de dois filmes. Um deles feito da narração tirada dos diários de Genovés e de imagens de arquivo da experiência na embarcação que passou 101 dias a navegar das Canárias até ao México. O outro trata-se de uma espécie de teatro da memória, em que Lindeen reúne os participantes numa réplica rudimentar do porão desse barco de outrora e entrevista-os, convida-os a partilharem suas experiências e discutirem uns com os outros o que tiraram da experiência.

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As respostas e reflexões deste grupo, composto por cinco mulheres e um homem, criam uma enorme fricção entre as duas partes do filme. Dominada pela perspetiva individual de Genovés, a porção da obra passada entre documentações históricas é uma elegia quase trágica às tentativas de um cientista entender o ser humano, acabando ele mesmo por se tornar no vilão e criador de caos no microcosmos que ajudou a conceber. Contudo, quando se acrescentam às imagens de arquivo e passagens dos diários do antropólogo as memórias individuais dos participantes, o que se evidencia é uma tapeçaria de hipocrisias e manipulações que despem o aparato da viagem transatlântica de qualquer tipo de integridade científica, moral ou ética.

Os dois testemunhos mais interessantes são os mais críticos de Genovés. A capitã, por exemplo, desde o início que discordou com a metodologia do cientista que estava a levar os participantes numa viagem inusitadamente perigosa e sem condições. Ela recusou-se de início a participar nos questionários do antropólogo, em parte porque ele teimava com os voluntários até obter as respostas que queria. Ainda bem que se mostrou relutante pois, quando não tinha conseguido encontrar o conflito que queria, Genovés divulgou as respostas mais potencialmente polémicas, numa tentativa de destruir a cooperação e paz que se tinha estabelecido no grupo.

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Um teatro da memória serve de palco para os voluntários ainda vivos

Num dos momentos mais críticos da aventura, quando Maria queria mudar a rota pois estavam em perigo de entrar no centro de um furacão, Genovés nomeou-se a si mesmo capitão e traiu a hierarquia marítima. Esse não foi o único dos pontos da viagem em que o machismo do antropólogo mostrou a cara, mas foi o seu mais potencialmente letal. Contudo, a hipocrisia do criador da experiência também não se resumia somente ao seu sexismo, tal como podemos constatar nas palavras de Fé Seymour, uma mulher afro-americana, muitas das suas atitudes refletiam preconceitos raciais. Quando ela diz isso aos seus colegas de tripulação no teatro da memória, as outras pessoas começam por discordar, mas acabam por concordar com as acusações de Seymour quando confrontados com exemplos e boa argumentação.

A facilidade com a qual os participantes admitem estar errados e procuram o entendimento comunal é dos elementos mais interessantes deste filme que jamais tenta impor uma tese conclusiva sobre o material que nos apresenta. Parte dessa atitude até se manifesta no seu modo de encarar os esforços do homem que, durante 101 dias, se tornou em algo semelhante a um ditador. Mesmo Fé Seymour encontra valor na experiência da embarcação, apesar de se sentir manipulada e traída pelo seu criador. Esta é a diferença base entre as duas partes do documentário e as duas forças antagónicas do antropólogo e suas cobaias.

Genovés queria a confirmação de crenças pré-existentes que ele já tinha em relação ao comportamento humano. Ao contrário disso, a maioria dos tripulantes mostra uma enorme flexibilidade mental, adaptando-se à realidade, até admitindo estarem errados. “The Raft” não tem em si a chave para a paz ou para a democracia, mas parece revelar que tentar forçar o mundo a reger-se pelas crenças e preconceitos do individuo poderoso é o caminho para o caos e para a miséria. Só a cooperação leva a algum lado. Não é a mais sofisticada das conclusões, mas não deixa de ser uma ideia de valor. Na esfera sociopolítica atual, talvez possa até ser uma ideia revolucionária.

The Raft, em análise
DocLisboa The Raft critica

Movie title: Flotten

Date published: 27 de October de 2018

Director(s): Marcus Lindeen

Genre: Documentário, 2018, 97 min

  • Cláudio Alves - 80
80

CONCLUSÃO

“The Raft” é um documentário de fascinante estrutura, que confronta o passado e o presente, assim como perspetivas antagónicas numa tentativa de explorar o fracasso de uma experiência social dos anos 70. A sua dissecação da figura de Genovés é de particular interesse e sanguinária precisão.

O MELHOR: O contraste entre dois momentos distintos em que “The Raft” aborda a problemática do choro. Para Fé e Maria, chorar é um modo feminino de expressar raiva e evitar a violência. Para Genovés é sinal de fraqueza masculina, por isso ele tinha de esperar até que todos estivessem a dormir para deixar verter lágrimas de frustração. Elas não têm vergonha do choro. Ele tem. Elas fazem-no em público. Ele escondia-se. Elas admitem o que sentem e tentam encarar os problemas de frente e o mundo de modo direto. Ele esconde, manipula e é incapaz de reconhecer que a sua ideia do mundo possa estar equivocada.

O PIOR: A falta de argumentação clara e de uma tese é frustrante e tende a pôr em questão o propósito da sua existência, apesar de suscitar o raciocínio pessoal de cada espetador.

CA

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