"Palimpsest of the Africa Museum" | © DocLisboa

DocLisboa ’19 | Palimpsest of the Africa Museum, em análise

Palimpsest of the Africa Museum” questiona o legado do colonialismo através da sinédoque cultural que é a instituição do museu. O filme faz parte da secção Da Terra à Lua do DocLisboa de 2019.

Em 2013, O Museu Real da África Central fechou as suas portas em Tervuren, na Bélgica. O encerramento da instituição foi temporário, visto que o museu foi sujeito a uma extensiva renovação. As obras foram precipitadas tanto pela degradação do edifício histórico como pelo seu problemático legado colonialista e racista. Acontece que um comité de aconselhamento foi reunido com base na diáspora africana de modo a trazer o museu aos standards do século XXI e sua sociedade multicultural. Estes eventos foram todos retratados no filme documental “Palimpsest of the Africa Museum”.

A uma primeira análise, tal situação poderá parecer dissimuladamente simples. Afinal, modernizações de museus são algo comum e retórica atual parece sugerir toda uma Europa a viver uma era pós-colonialista e, de certo modo, pós-racial também. O que é interessante nesta história é como o advento da mudança radical traz consigo o limpar da fachada e o cessar da ilusão. Basta começar a investigar os modos de renovar o museu para nos começarmos a aperceber de como toda a Europa moderna está enraizada no legado do colonialismo e como os crimes passados ainda ressoam.

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Utopias pós-raciais não passam de conjeturas ingénuas que burgueses liberais usam para se iludir e embalar no sono da abençoada ignorância. Em suma, basta começar a trabalhar no sentido de descolonizar a cultura para nos apercebermos da podridão da Europa contemporânea. Esta Europa onde se celebram os grandes líderes do passado, erguendo estátuas em praça pública. Estátuas essas que podem celebrar monarcas importantes, mas também celebram genocidas e tiranos que destruíram um continente vizinho e cujos crimes contra a Humanidade são assim honrados.

O Museu de Tervuren é um destes mesmos monumentos. O edifício dedicado a putativos estudos etnográficos e de História Natural, foi o resultado de uma campanha de Leopoldo II. Depois da criação do Estado Livre do Congo na Conferência de Berlim, o rei belga queria assinalar a sua hegemonia sobre o território e o novo poderio internacional. Assim, a Exposição Universal de 1897 foi feita na localidade flamenga de Tervuren, onde se construíram várias instalações para mostrar toda a riqueza que os belgas possuíam através do domínio sobre as colónias.

Entre as exposições estavam coisas como zoos humanos, onde nativos africanos eram expostos como animais encarcerados. Na altura, o recinto até tinha versões fantasiosas das suas terras natais em forma de cenários imersivos e sinais que pediam ao público para não alimentar os animais. Os animais, pois claro, eram os nativos. Ao mesmo tempo que esta folia grotesca se passava na Europa, no Congo decorria um regime de horror e genocídio quase sem precedentes. Dezenas de milhões de congoleses morreram durante os 23 anos de domínio colonial do país.

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As atrocidades cometidas pelo colonialismo belga são infames, mas não devemos cair na mentira que outros colonialismos foram menos perniciosos. Os portugueses bem deviam aprender que a nossa História foi construída sobre o abuso e massacre de populações outrora definidas como incivilizadas, selvagens e outros termos que tais. No entanto, admitir a culpabilidade e as bênçãos que tais horrores proporcionaram às gerações futuras de europeus é algo difícil. O maior sucesso e o maior veneno do colonialismo é como o seu advento moldou de tal modo a identidade europeia que repudiá-lo é pôr em causa os alicerces da cultura ocidental.

O edifício do Museu Real da África Central é um símbolo que cristaliza tudo isto e lhe dá forma material. As campas dos reclusos dos zoos humanos ainda estão incorporadas no terreno, a estátua de Leopoldo II ainda aparece destacada, os artefactos roubados ainda são exibidos. Pelo menos, assim era até estas renovações de 2013. Só que, como o título indica, essas renovações não foram fáceis e não há renovação capaz de redimir o museu.

Este é um palimpsesto de colonialismo cultural, com as injustiças do passado a serem visíveis por debaixo da camada de tinta fresca que lhe foi posta por cima. Podemos desintegrar as taxidermias animalescas e dar ritos fúnebres àquelas almas que nunca tiveram esse privilégio, mas enquanto o museu estiver de pé, o legado de Leopoldo II continuará vivo e glorioso em toda sua brilhante perfídia. As discussões que o realizador Matthias De Groof filmou mostram isso mesmo em “Palimpsest of the Africa Museum”.

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Nesse sentido, “Palimpsest of the Africa Museum” é um fracasso deliberado. Ou melhor, é um retrato rigoroso de uma missão inacabada. A história que o filme apresentou é necessariamente incompleta e é impossível de resolver os problemas levantados na moldura limitada do projeto. Isto não é um erro, mas sim uma admissão do monumento desumano que é o colonialismo e as marcas que ele cravou a ferro e fogo na História de toda a Humanidade, tanto aquela dos opressores como a dos oprimidos. Confrontar tais problemas é quiçá o primeiro passo em resolvê-los. Visto dessa forma, “Palimpsest of the Africa Museum” é um valioso gesto na direção do futuro e uma meditação cinematograficamente gloriosa.

Palimpsest of the Africa Museum, em análise

Movie title: Palimpseste du Musée d’Afrique

Date published: 22 de October de 2019

Director(s): Matthias De Groof

Genre: Documentário, 2019, 69 min

  • Cláudio Alves - 80
80

CONCLUSÃO:

O realizador Matthias De Groof concebeu uma meditação fascinante sobre um tema monumental. A brevidade do projeto tanto o prejudica como torna seu conteúdo cáustico em algo mais fácil de consumir. Trata-se de um documentário valioso sobre uma Europa a tentar apagar os crimes que jamais conseguirá rasurar e de progressistas a tentarem aniquilar as injustiças da cultura hegemónica.

O MELHOR: As visões fantasmagóricas do museu em metamorfose. Animais empalhados a serem descarnados e estátuas a serem despidas, dioramas rebentados e elefantes a moverem-se pela primeira vez em séculos de exposição.

O PIOR: A brevidade do filme é demasiada. De Groof devia ter seguido o exemplo de Wiseman e dedicado horas ao ecossistema antagonista do museu e suas pessoas.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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