"Technoboss" | © O Som e a Fúria

DocLisboa ’19 | Technoboss, em análise

O filme de encerramento do 17º DocLisboa foi o grandioso “Technoboss”, uma tragicomédia musical de João Nicolau que, antes de chegar a Portugal, já havia competido em Locarno.

Apesar de só ter ainda 44 anos, o realizador João Nicolau construiu em “Technoboss” um dos mais belos retratos do envelhecimento que se pode encontrar no cinema atual. Não queremos trespassar qualquer nota de condescendência nestas palavras. Esta tresloucada experiência é tão solene como é paródica, uma ópera bufa que faz rir e faz chorar, que mistura o experimentalismo teatral de um jovem cineasta com a inteligência emocional de um veterano. Em suma, estamos a dois passos de nomear “Technoboss” como uma obra-prima.

Protagonizado por Miguel Lobo Antunes na sua primeira aparição enquanto ator, o filme conta a história de Luís Rovisco. Ele é um sexagenário rabugento e divorciado, vive sozinho com o gato Napoleão e recusa a reforma com um esgar e uma piada. Ele é o diretor comercial da SegurVale e passa a maior parte do tempo atrás do volante, viajando de uma ponta à outra de Portugal para resolver problemas técnicos que estão bem além dos seus conhecimentos tecnológicos. O carro é uma das constantes da sua vida, sendo as outras uma dor na perna e a sinfonia incessante de um telemóvel que nunca se materializa em frente à câmara.

technoboss critica doclisboa
© O Som e a Fúria

Na medida em que “Technoboss” tem uma narrativa, esta orienta-se em volta de uma série de crispações na vida profissional e sentimental do Sr. Rovisco. A manutenção do sistema de segurança de um hotel algarvio leva a que o idoso se cruze com um antigo amor, Lucinda. Ao mesmo tempo que isso ocorre, este dinossauro com tecnofobias é recorrentemente confrontado com a sua mesma obsolescência enquanto profissional. Acontece que tudo se desenvolve a grande velocidade e ainda não se compreendeu as máquinas mais recentes quando novas aparecem e tornam o esforço numa futilidade.

A vida de Luís é solitária e poderia acabar como um melodrama miserabilista nas mãos de outro cineasta, um Sísifo do século XXI. Felizmente, João Nicolau está atrás das câmaras para reconfigurar toda esta tristeza na forma de uma comédia. O que surpreende neste mecanismo, é o modo como este intrépido cineasta realiza a proeza. Não se trata tanto de uma questão de argumento, como seria de esperar. Há piadas, certamente, mas o riso nasce mais da mise-en-scène do que do diálogo. “Technoboss” é uma brincadeira e vê-lo é ver Nicolau na figura de um menino no recreio que usa a forma cinematográfica como ferramenta do seu jogo.

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A subjetividade do protagonista leva o filme a um registo de comédia seca, nascida da frustração e do contraste entre a mundanidade da vida e a loucura da filmagem. O ritmo é preciso, como se fosse estabelecido a compasso e cronómetro, as composições requintadas e simples. A montagem gosta de se desenrolar em bizarras estilizações. Pessoas desaparecem como fantasmas da cena, conversas cortam antes de acabarem e espaços esfumam-se em trevas. Um patrão misterioso é como um deus ausente ou um anjo da Morte a agoirar o fim, a encenação pondo-o sempre longe da vista.

Também os tédios das viagens de carro, por exemplo, tornam-se em brincadeiras com linguagem cinematográfica. As paisagens naturais transfiguram-se em telões pintados e os monólogos interiores são expostos em musicalidade inesperada. E que música! Se Nicolau está disposto a brincar com técnicas de cinema e tonalidades de representação, os compositores estão preparados para engendrar as mais insanas canções imagináveis. Há punk e há folclore de mãos dadas, letras ancestrais a batidas eletrónicas, rock da pesada e até a Canção do Ketchup. Esta última até vem acompanhada por uma dança interpretativa de fazer rir até faltar o ar.

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© O Som e a Fúria

Tanta é a mistura de ideias que reduzir “Technoboss” a um só género é algo impossível. Trata-se de um musical, de uma comédia, de uma tragédia, de um romance sexagenário e de uma paródia do capitalismo moderno, talvez até uma canção sobre oportunidades perdidas. Trata-se de um drama surrealista e de um conto dadaísta também. Apesar disso, a experiência final não peca pela incoerência. Pelo contrário, Nicolau de alguma forma consegue domar o monstro da sua criatividade e orientar o trabalho de todos os seus colaboradores em direção a uma perfeita sintonia de estilos e intenções.

Essa sintonia é essencial para o triunfo de “Technoboss” e sua principal âncora é a prestação do magnífico Miguel Lobo Antunes. Não é que este estreante na representação seja um prodígio de naturalismo e timing cómico, mas a sua presença em frente à câmara é uma necessária amálgama de aspereza e afabilidade. Tanto reviramos os olhos face às absurdidades de Luís como nos comovemos ou rimos sem crueldade. A única falha a apontar em tal configuração é como Antunes e sua personagem se sobrepõem de tal modo a todas as outras figuras humanas que “Technoboss” é um quiçá desequilibrado. Temos um retrato maravilhosamente detalhado rodeado por esboços inacabados. Enfim, pode não ser perfeito, mas esta burlesca brincadeira de cinema português é um júbilo que apetece aplaudir de pé.

Technoboss, em análise
technoboss critica doclisboa

Movie title: Technoboss

Date published: 2019-10-27

Director(s): João Nicolau

Actor(s): Miguel Lobo Antunes, Luísa Cruz, Américo Silva, Duarte Guimarães, Matias Neves, Tiago Garrinhas, Sandra Faleiro, Ana Tang, Jorge Andrade, José Raposo, Mick Greer, Bruno Lourenço, Manuel Mozos, João Monteiro

Genre: Musical, Romance, 2019, 112 min

  • Cláudio Alves - 90
90

CONCLUSÃO:

“Technoboss” é ambrósia cinematográfica, um cocktail de prazer e irreverência que faz rir e faz pensar sobre a impiedade do tempo. Um retrato de velhice rabugenta e rebeldia contra a obsolescência que vem com os anos doirados, este musical é uma obra-prima digna de aplausos. Viva João Nicolau! Viva Miguel Lobo Antunes!! Viva “Technoboss”!!!

O MELHOR: A banda-sonora brincalhona.

O PIOR: A qualidade subdesenvolvida das personagens secundárias, especialmente a enigmática Lucinda.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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