Abertura de "What She Said: The Art of Pauline Kael" (2019) | ©Autlook Films

DocLisboa ’19 | What She Said: The Art of Pauline Kael, em Análise

No penúltimo dia do DocLisboa ’19, foi exibido “What She Said: The Art of Pauline Kael”, inserido na secção “Heart Beat”. Recuperamos agora o filme sobre a crítica de cinema, exibido no Cinema Ideal. 

Pauline Kael foi a primeira grande crítica de cinema no feminino, numa indústria e atividade profissional dominada por homens. Ela foi pioneira, irreverente, e lutou para deixar a sua marca neste mundo difícil de conquistar. Influenciou e inspirou cineastas, lidou diretamente com figuras como Welles ou Spielberg, e influenciou o trabalho de cineastas que vieram a trabalhar posteriormente na indústria, como Tarantino.

“What She Said: The Art of Pauline Kael”, narrado por Sarah Jessica Parker, é um documentário que apresenta entrevistas e material de arquivo inédito, que nos ilustra como é que a crítica do New Yorker foi simultaneamente adorada e detestada.

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PT Pesquisa 9+ 0:52 / 1:53 WHAT SHE SAID: THE ART OF PAULINE KAEL
Pauline Kael | ©Autlook Films

Pauline Kael escreveu para a revista “The New Yorker” de 1968 a 1992. A crítica de cinema californiana faleceu em 2001, mas as conversas em torno do seu legado continuam como uma peça de um assunto corrente e pertinente. Em 2019, a comunicação social norte-americana celebrava, no centenário do nascimento de Pauline, o seu legado. É esse legado que este documentário americano vai recuperar.

Em “What She Said: The Art of Pauline Kael” é importante compreender que Pauline foi uma das primeiras críticas a conseguir verdadeiramente influenciar a indústria, e contornar um status quo muito forte, o de que o cinema seria uma espécie de “boys club”.

What she said: THE ART OF PAULINE KAEL
Antigas edições de ” The New Yorker” |©Autlook Films

A crítica é vista como alguém com uma voz e uma paixão muito próprias. Alguém com quem poderias não concordar, mas que era difícil não admirar. Pauline era alguém que arriscava, falava sobre filmes de novos autores, falou de Spielberg quando este ainda não era a figura celebrada que se viria a tornar, ou sobre Scorsese.

What she said: THE ART OF PAULINE KAEL
Still de “Hiroshima, Meu Amor” de Alain Resnais | ©Autlook Films
Pauline é aqui descrita como uma personagem irreverente, sem medo de ir contra a opinião geral, capaz de criticar ferozmente autores amados. Detestou Chaplin, “Hiroshima, Mon Amour” pareceu infinito e repetitivo, Hitchcock repetia os mesmos truques nos seus filmes, ou assim o defendia a autora. Pauline Kael era uma artista falhada, que chegou perto de desistir totalmente do mundo das artes, mas que encontrou, quase por acaso, na crítica de cinema o seu refúgio perfeito. E esta crítica pretendia ser inclusiva, evitando snobismo, autores intocáveis e abraçando cinema mais comercial pela primeira vez.
DocLisboa '19
Paul Schrader é um dos entrevistados do documentário |©Autlook Films
Muitas são as vozes que neste documentário louvam a sua voz única, desde Paul Schrader, passando por Quentin Tarantino, e tantos outros. Pauline não tinha quaisquer problemas em críticas filmes que, por outro lado, tivessem enorme sucesso comercial. Sem papas na língua, criticou profundamente “Música no Coração” por ser um esforço seguro, irreal e que não ofende ninguém. Problemático para a própria produção de obras de qualidade, no seu prisma. A sua franqueza custou-lhe bastantes conflitos, e problemas em permanecer nos meios onde escrevia.
A autora era crítica do cinema americano dos anos 60, considerando-o uma miragem do passado, e enaltecia, por outro lado, os esforços europeus com a nouvelle vague ou as novas correntes no cinema japonês. Falava de uma qualidade perturbadora nos personagens de Godard, desprovidos de um amanhã.
What she said: THE ART OF PAULINE KAEL
Jean Seberg em “O Acossado” (1960) |©Autlook Films

Aqui, a sua crítica de “Bonnie e Clyde” (1967) funcionou como um ponto de viragem, tanto para a sua carreira como para a do próprio filme. Tornou-se colaboradora permanente do “The New Yorker” e o auge da sua carreira culminou com uma revolução no cinema norte-americano nos anos 70, com a ascensão de nomes como Kubrick, Coppola, Lynch, De Palma ou Scorsese. Por isso, este documentário mune-se de um trunfo importante. Contar a história de Pauline é contar a história das principais décadas do cinema norte-americano.  A crítica de cinema tornou-se assim uma peça da nova era, da  nova vaga do cinema nos Estados Unidos da América.

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Tornou-se ainda mais polémica quando escreveu “Raising Kane”, um documentário no qual acusava o realizador de “Citizen Kane” (1941), Orson Welles,  de ofuscar o seu argumentista Herman J. Mankiewicz. O filme fala ainda de Pauline como uma força fundamental na promoção do polémico “Último Tango em Paris”, de 192. Retrata-a ainda como alguém que criou um novo círculo de jovens críticos, que incluía um jovem Paul Schrader, que fora crítico antes das suas experiências na cadeira de realizador.

O documentário deixa bem claro que a crítica teve um forte impacto na carreira de diversos cineastas, influenciando-os negativa e positivamente. Após a sua reforma, é indicado que filmes lhe chegavam ainda para ver em primeira mão, atestando a sua importância. As diversas cartas enviadas por atores e realizadores atestam esse mesmo facto, e assim este filme mostra um importante pedaço da narrativa de Hollywood.

What she said: THE ART OF PAULINE KAEL
Pauline Kael | ©Autlook Films

“What She Said: The Art of Pauline Kael” apresenta-nos uma das estruturas mais clássicas do documentário. É feito a partir de imagens de arquivo, imagens da autora, e dos filmes que esta comentava. É feito também da sua permanente narração em voice over, interessante por se tratar na maior parte do tempo de uma narração na primeira pessoa. É Pauline que nos conta a sua história, através de entradas das suas cartas, ou das participações recorrentes em programas de rádio. Ouvimos, uma e outra vez, a voz de Pauline, e ouvimos também Sarah Jessica Parker a narrar Pauline. Assim, temos um mosaico em que existe um passado mais anterior e uma ilusão de presente interessante.

Os excertos de filmes estão também impecavelmente editados, tornando esta uma experiência cinematográfica agradável, por si mesma. O documentário termina numa nota muito positiva e inspiradora, não apenas no que diz respeito a Pauline Kael, mas em relação à própria indústria, e à própria necessidade do criador partilhar o seu melhor trabalho com o público.

Existe uma preocupação em oscilar entre contar uma história de forma mais ou menos cronológica, mas ao mesmo tempo humanizá-la. É a história de uma pessoa, mas também a história de todo um mundo, o da crítica, o do cinema. Viaja desde os anos 20, 30 até após a morte da crítica de cinema, sugerindo-nos que, por um lado, poucos críticos conseguem atingir o seu sucesso e influência, devido à proliferação de  vozes na era digital, sugerindo também que a escritora, crítica, e brevemente argumentista se daria muito bem neste século XXI, que infelizmente não chegou a viver.

Mesmo sem conhecermos o trabalho desta crítica, chegamos ao fim de “What She Said: The Art of Pauline Kael” com um profundo respeito pela sua abordagem à crítica cinematográfica. E portanto, não é difícil definir este como um documentário muito bem sucedido.

Desse lado? Consideram que a crítica de cinema retém a sua pertinência nos dias de hoje?

What She Said: The Art of Pauline Kael

Movie title: What She Said: The Art of Pauline Kael

Date published: 28 de October de 2019

Director(s): Rob Garver

Genre: Documentário , 94 minutos

  • Maggie Silva - 85
85

CONCLUSÃO

Uma envolvente e convincente história sobre uma mulher influente, capaz de superar as limitações do mundo em que se movia.

O MELHOR: A forma como consegue fazer com que qualquer um se interesse pela história de Pauline, tornando-a uma extensão da própria história da crítica e do cinema norte-americano

O PIOR: Formalmente, não deve muito à criatividade, mas talvez também não faça falta demais, uma componente estética mais interessante.

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Maggie Silva

Comunicadora de profissão e por natureza. Dependente de cultura pop, cinema indie e vítima da incessante necessidade de descobrir novas paixões. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

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