"Domino - A Hora da Vingança" | © NOS Audiovisuais

Domino – A Hora da Vingança, em análise

Nikolaj Coster-Waldau e Carice van Houten protagonizam “Domino – A Hora da Vingança”, um thriller europeu assinado por Brian De Palma que teve uma viagem muito complicada até chegar aos cinemas.

Brian De Palma nunca foi, nem nunca será, um realizador conhecido por narrativas inteligentes ou personagens psicologicamente complexas. Os seus filmes são deliciosas explosões de entretenimento lúrido, de preferência com muita nudez e violência à mistura. Não obstante tais interesses e ambições, o cinema de De Palma é também um cinema de grande sofisticação formal, cheio de brincadeiras ousadas com a câmara, experiências extravagantes ao nível audiovisual e um gosto por classicismo cinematográfico na mesma veia de Alfred Hitchcock, o grande ídolo e influência deste realizador americano.

“Domino” não foge à regra, mesmo que muitos lhe chamem um esforço menor do seu realizador. Através de sequências cheias de cor e ostentação formal, De Palma conta a história de um agente policial dinamarquês que, numa noite atribulada, vê o seu parceiro morrer às mãos de um homem numa missão para matar o líder do Estado Islâmico. Ao longo do filme, vários ataques terroristas são levados a cabo enquanto se desdobra um jogo de gato e rato, com o protagonista atrás do assassino do seu parceiro, esse mesmo assassino a perseguir o ISIS para vingar a morte do pai e salvar a família que está sequestrada por forças americanas, e os terroristas a levarem a cabo os seus planos de horror por várias cidades europeias.

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Em muitos aspetos, este filme, apesar da sua vertente europeia, é um típico projeto de Brian De Palma. Isso tanto engloba as melhores facetas da filmografia deste cineasta, como as piores. Infelizmente, essas fragilidades são um tanto ou quanto difíceis de ignorar, em específico quando a narrativa em questão se propõe a abordar temas tão complexos e complicados. Em “Domino”, De Palma tece um thriller desavergonhadamente sensacionalista sobre terrorismo e fundamentalismo islâmico, sobre imperialismo americano e a cumplicidade dos media numa sociedade dominada pelo medo.

Tratam-se de questões complicadas para qualquer filme explorar. Quando o filme em questão é “Domino”, tratam-se de questões impossíveis de desenvolver com a devida atenção ou complexidade. Há, contudo, que dar crédito a De Palma, pois o realizador parece estar bem ciente disto. O filme jamais tenta oferecer complicadas deliberações sobre o estado do mundo atual, preferindo olhar para estas temáticas como mero pretexto para analisar algumas dinâmicas típicas dos filmes de De Palma, nomeadamente a criação de espetáculo e entretenimento por meios sangrentos e o uso desse mesmo espetáculo como ferramenta do mal.

Por exemplo, o Estado Islâmico e a luta contra ele são, aqui, os parâmetros pelo qual se constrói um entretenimento violento que é todos os dias exibido ora nos noticiários televisivos ou nas partes mais obscuras do youtube. Um ataque terrorista é uma inglória fusão de um videojogo cheio de carnificina e o ofício de criar cinema. Numa sequência tão sórdida como insana, o grande líder do ISIS guia uma terrorista ao longo de um ataque a um festival de cinema. As imagens da atiradora aparecem em dois ecrãs, um deles focado na sua arma como o clássico ponto-de-vista que estamos habituados a encontrar em jogos de guerra.

A sequência tanto retrata o homem que orquestra este horror como um miúdo a brincar com a vida e a morte, como o eleva à posição de um realizador com amor à carnificina. Ele procura as imagens mais marcantes, a iconografia mais devastadora e o final mais climático para pontuar mais uma das suas curtas-metragens que os noticiários tão fielmente exibem. É um pouco dúbio tentar encontrar aqui uma tese de De Palma sobre o terrorismo contemporâneo enquanto espetáculo de massas. Mais fácil é ver aqui um realizador a comentar sobre o seu próprio trabalho e a indústria em que ainda se insere.

“Domino” é um filme de ecrãs e câmaras, de realizadores cruéis e atores com bombas ao peito e armas na mão. Noutra esplendorosa sequência, De Palma parece estar a refazer o famoso tiroteio na ópera que Hitchcock por duas vezes filmou em “O Homem Que Sabia Demais” e seu remake. Só que, desta vez, a ópera é uma tourada, há um drone metido pelo meio e tudo acaba com um pontapé nos testículos. Mesmo no píncaro do seu engenho formalista, por entre fotografia saturada de cor e elegante câmara lenta, De Palma está sempre pronto a relembrar o espectador que isto é euro trash e não um qualquer exemplo de cinema de prestígio.

É quase como se o realizador estivesse ao nosso lado na sala de cinema, a sussurrar no nosso ouvido que não devemos levar a sério. O problema é que tal atitude nunca se conjuga bem com o tipo de imagética e temática que o filme aborda. Dramatizações das famosas execuções que o ISIS leva a cabo no deserto têm o sabor repugnante de uma comercialização da morte de inocentes. Outras sequências recordam ataques terroristas reais, fazendo deste flagelo um objeto de entretenimento sem miolos. De Palma podia ter facilmente inventado novas iconografias ou um grupo terrorista fictício, mas manteve-se ligado à nossa realidade com resultados péssimos para a existência do filme enquanto um thriller divertido e sem grandes ambições intelectuais.

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Questões morais e éticas à parte, “Domino” pouco tem para oferecer além da sua maravilha formalista. As cores são deslumbrantes, as composições inspiradas, a montagem precisa e a música é uma delícia de dramatismo antiquado, mas a história é indefensível e os atores são pouco mais que marionetas inexpressivas de carne e osso. Considerando as enormes dificuldades que a produção sofreu, inclusive inúmeros atrasos e adiamentos, a qualidade zombie do elenco é um pouco entendível, mas não deixa por isso de prejudicar a experiência do espectador.

Nikolaj Coster-Waldau e Carice van Houten são atores cheios de carisma, mas nenhum desse magnetismo de estrela marca presença no filme. Só Guy Pearce, como um agente americano cheio de esquemas e manipulações na manga, é que se redime, em parte pois parece ser o único ator que se apercebe da patetice do projeto. Por outras palavras, Pearce apercebeu-se que estava num thriller desmiolado e decidiu divertir-se, fazendo da sua personagem um untuoso cliché que tem mais que ver com um cartoon vilanesco do que com um ser humano. Considerando todos os problemas e mais-valias do projeto, suas ambições lúridas e espetacularidade sanguinária, essa foi a decisão certa a tomar.

Domino - A Hora da Vingança, em análise
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Movie title: Domino

Date published: 2019-07-17

Director(s): Brian De Palma

Actor(s): Nikolaj Coster-Waldau, Carice van Houten, Guy Pearce, Paprika Steen, Soren Malling, Eriq Ebouaney, Nicolas Bro, Ardalan Esmaili, Younes Bachir, Hamid Krim, Sachli Gholamalizad

Genre: Crime, Thriller, 2019, 89 min

  • Cláudio Alves - 60
60

CONCLUSÃO:

“Domino – A Hora da Vingança” é Hitchcock com um pontapé nos testículos. É um filme pronto a deliciar fãs de Brian De Palma e a ofender tantos mais. Trata-se de um projeto que aborda temas complicados e os tenta reduzir a uma lúrida reflexão sobre espetáculos de sangue. Os atores e a história humana são completamente desprovidos de valor.

O MELHOR: A tapeçaria de tensão, suspense, cores berrantes e perigo eminente que é a sequência na praça de touros.

O PIOR: De Palma devia manter-se afastado de temas tão complicados como o terrorismo islâmico na Europa. Pelo menos, enquanto desejar explorar tais assuntos no contexto dos seus thrillers perversos.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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