Doutor Estranho, em análise

Doutor Estranho é a 14ª ramificação do Universo Cinematográfico da Marvel e representa uma psicadélica renovação de votos entre a audiência e o grande estúdio americano.

Entre o reino das sequelas, reboots e prequelas e o império das sagas e das concessões, pensamos que é seguro admitir que a nossa afinidade com um franchise começa a assemelhar-se muito à dinâmica revessa de uma relação romântica. Primeiro vem o entusiasmo desmedido, a explosão para os sentidos, as borboletas no estômago. Depois chega a conformidade, o hábito, os tiques que chateiam, mas a que nos habituamos pela convivência, vem a tampa da sanita para cima e a roupa suja espalhada pelo chão, mas também a segurança de um amor que já aprendemos a chamar de casa.

Oito anos e catorze filmes depois, é caso para dizer que o nosso status com o Marvel Cinematic Universe é o de “numa relação séria” – afinal, até já ultrapassamos a infame e tumultuosa “crise dos sete anos”. No entanto, e se queremos que a coisa continue a perdurar e prosperar é preciso investir continuamente em novas formas de reacender a chama.

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Como para bom entendedor meio blockbuster basta, a Marvel iniciou a expansão do seu universo para inexplorados territórios com o excelente Guardiões da Galáxia (2014), guardando para o futuro próximo a dilatação continuada com apostas à margem do entendimento comum com Pantera Negra, Captain Marvel e Doutor Estranho, que estreia entre nós esta semana.

Este último que nos traz a este texto baseia-se numa série de B.D. criada por Stan Lee e Steve Dikto e que gira em torno de um homem arrogante de ego insuflado e cavanhaque bem aparado que se entrega à vida de sacrifício e heroísmo para se redimir do seu passado. Se parece que arrancamos a sinopse da contracapa do DVD de Homem de Ferro, não se admire: de facto, o novo filme da Marvel partilha muito do DNA da estrutura narrativa da história de Tony Stark, mas ainda que raramente abandone o caminho empoeirado da fórmula do estúdio, o realizador Scott Derrickson consegue fazer render o peixe e elevar o material a um estatuto de luxo entre os seus pares. De facto, Doutor Estranho consegue, efetivamente, acrescentar um elemento místico até aqui inexistente no Universo Cinematográfico da Marvel, expandindo esse mesmo universo, ampliando o seu alcance filosófico e metafísico e fazendo o melhor e mais inventivo uso até ao momento do exuberante orçamento da Disney.

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Por outro lado, e se nos quisermos manter na linha de comparação com o primeiro filme do estúdio, devemos dizer, no entanto, que Doutor Estranho acaba por sofrer uma falta considerável: é que, muito ao contrário de Stark, Strange parece ter falta de demónios. Enquanto o magnata da tecnologia sofreu assombrado pelo legado do pai, uma tradição de alcoolismo e uma problemática relação amorosa, Strange parece não ir além de um desejo assoberbado de ser constantemente “o melhor”, sendo as suas motivações emocionais consideravelmente mais rasas do que a maioria dos heróis do estúdio. Esta assumida limitação é particularmente problemática no contexto de uma previsível “história de origem” como a que aqui se apresenta, cortando-se à partida as pernas a uma jornada emocional mais densa e significativa, todavia, e como deixaram a promessa os créditos finais, Stephen Strange estará de volta em incursões futuras no universo Marvel, pelo que podemos esperar novos e melhores desenvolvimentos da personagem no futuro próximo.

No que respeita à gloriosa componente visual, a inspiração arquitetónica em Cidade Misteriosa (1998), Matrix (1999) e A Origem (2011) é palpável na conjuração de um universo que dificilmente poderia estar mais distante da realidade usual das obras do estúdio, revelando-se um guloso festim para os sentidos, particularmente na expansão ocular que oferece uma maravilha visual digna de um grande ecrã – o maior possível. A própria fisicalidade das altercações é reinventada, entre duelos elaborados que deformam o espaço e o tempo forçando os intervenientes a serem mais criativos do que nunca.

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De certa maneira, e também como acontece em geralmente todos os casos dos filmes Marvel, Doutor Estranho não teria funcionado tão bem se não fosse pelo aparentemente super qualificado elenco – e é também graças a eles que o ridículo nunca se instala e que o esotérico se torna recorrentemente sedutor e cativante.

Benedict Cumberbatch interpreta uma versão mais light do seu Sherlock Holmes com um sotaque americano na mosca. A performance é incrivelmente inspirada e divertida, revelando mais uma excelente decisão do departamento de casting da Marvel – quem sabe até não será ele a guiar-nos para a próxima era de filmes Marvel, tal como Downey Jr. fez antes de si, e tendo em conta que Doutor Estranho se revela, de uma forma ou outra, uma espécie de reboot de Homem de Ferro visualmente mais extravagante e alternativo.

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Tilda Swinton, projetando como sempre um aspeto alienígena e etéreo, tem pouca margem de manobra com o distanciamento emocional de The Ancient One, mas ainda assim transforma um veículo de exposição maciça numa personagem digna e memorável. No outro lado da barricada vilanesca, o destaque vai inequivocamente para Mads Mikkelsen, que consegue imbuir Kaecilius – que é uma espécie de reflexo retorcido do próprio Strange – de algum humor, discernimento e compreensão ainda que a Marvel continue sem conseguir criar um vilão verdadeiramente memorável desde Loki. Surpreendentemente, Rachel McAdams revela-se um dos melhores interesses amorosos no Universo da Marvel ainda que, infelizmente, lhe seja conferido pouco tempo de antena.

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Ainda que surja como uma história de origem relativamente formulaica, Doutor Estranho eleva-se pelo tratamento de QI elevado, que iguala a caleidoscópica arquitetura em origami a uma inteligência e critério aos quais não estamos particularmente habituados no género: nos piores momentos revela-se um familiar filme de super-heróis capaz de entreter uma audiência anestesiada, mas nos melhores é uma viagem de proporções fantásticas pela psicadélica expansão da consciência.

É (quase) caso para marcar casamento!

O MELHOR

A expansão psicadélica e criativa do Universo Marvel e o festim visual que se manifesta nos inspirados confrontos com muita magia e arquitetura alternativa à mistura.

O PIOR

A falta de alicerces emocionais de Strange, a natureza formulaica da história de origem e um vilão pouco memorável.


 Título Original: Doctor Strange
Realizador:  Scott Derrickson
Elenco: 
Benedict Cumberbatch, Tilda Swinton, Mads Mikelsen

NOS | Ação, Aventura | 2016 | 115 min

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Catarina Oliveira

Licenciada em Ciências da Comunicação e com formação complementar em Design Gráfico, além de editora e diretora criativa da MHD é também uma das sócias fundadoras da mais recente face da empresa. Colaboradora de Cinema na Vogue Portugal. Gestora de conteúdo na Lava Surf Culture e NOS Empresas - Criar uma Empresa. Autora do blog de Cinema Close-Up.

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