"Downton Abbey" | © Focus Features

Downton Abbey, em análise

Do pequeno ecrã, “Downton Abbey” chega agora à glória do cinema sob a forma de uma adocicada sobremesa com pouco drama, mas muito fausto, pompa e circunstância.

Perto do início da primeira aventura cinematográfica de “Downton Abbey”, a família Crawley recebe a notícia que o Rei e a Rainha de Inglaterra vão passar pela sua propriedade. Uma visita real é algo praticamente inédito na longa História deste clã e há tempo imemorial que o pequeno condado rural não era alvo de tamanho evento. Face a tudo isto, Cora Crawley, a Condessa de Grantham, reage à notícia com excitação jubilante escondida por detrás de uma sóbria cortina de pragmatismo aristocrático. Afinal, diz ela, eles vão ter de mudar de roupa tantas vezes para a visita, o desfile militar, o jantar, a despedida e o subsequente baile. Nesse momento, se a atriz Elizabeth McGovern se virasse para a câmara e desse um piscar de olhos conspirador diretamente para o espectador, o efeito não seria muito diferente.

Aqui temos um filme que sabe qual é a sua audiência, sabe o que ela quer e está pronto a cumprir todos esses desejos com generoso entusiasmo. “Downton Abbey” foi feito para fãs da série que lhe deu origem e é inconcebível imaginar alguém que não tenha visto esse fenómeno televisivo a experienciar o filme. Nenhum dos cineastas se preocupa em conceber uma narrativa que funcione por si só, chegando mesmo a estruturar a obra no mesmo modelo que tantos dos especiais natalícios do programa da ITV. A prioridade principal é em satisfazer uma legião de fãs fiéis e é preciso uma atitude muito cínica para encarar tal empenho em agradar o espectador alvo como algo pernicioso. Este pode não ser um projeto ambicioso, mas cumpre aquilo que promete e que se desafia a si mesmo a fazer.

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© NOS Audiovisuais

Nomeadamente, o filme é uma carta de amor às personagens da série e seu universo de tradicionalismo nostálgico e conservadorismo romântico. O que isso implica a nível estético é uma produção recheada de sumptuosos cenários e figurinos ainda mais espetaculares. Certas cenas parecem existir só mesmo para os cineastas forçarem as personagens a mudar de roupa e exibirem mais um figurino requintado ou então para a câmara se deixar levar pela decoração de um salão palaciano. A fotografia também é digna de um postal, mas raramente desafia os padrões estilísticos estabelecidos pela série, a montagem tem energia e rigor cómico e a música continua a ser tão floreada e ostentosa como já era na televisão.

De facto, apesar de ser maravilhoso ver “Downton Abbey” vestida e decorada com um orçamento cinematográfico e projetada no grande ecrã, esta é uma experiência que perderá pouco na transferência da sala de cinema para a sala de estar. Como já dissemos antes, isto leva o filme a assumir a forma de um episódio prolongado mais do que de uma narrativa fílmica de valor independente. Mais especificamente, esta é uma história estruturada em torno de um evento central de grande cerimónia, à volta da qual orbitam vários subenredos que entrelaçam as preocupações da família aristocrática dos Crawley e os servos que tornam possível o seu glamouroso estilo de vida. Há um necessário equilíbrio narrativo entre as duas facetas sociais, algo que já estava presente na série e que o filme repete sem sinais de esforço.

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Esses subenredos servem para dar conclusões amistosas às muitas personagens que acabaram a sexta temporada de “Downton Abbey” sem um desfecho bem definido. Trata-se de uma carta de amor às dezenas e dezenas de personagens que, durante anos, entretiveram os fãs da série com seus melodramas pessoais. Isto rouba a história de qualquer genuíno conflito, sendo que tudo existe para dar um final feliz a todas as pessoas em cena. Como Thomas acabou a série reprimido e sem esperanças de romance no seu futuro, o filme injeta possibilidades românticas na sua vida por todos os meios concebíveis. Tom, o motorista tornado parte da família, tem um fado semelhante e até a ambivalência de Mary em relação ao futuro dos Crawley e sua ligação à propriedade titular há que ser resolvido antes do filme terminar.

Há algo de mecânico e meio perfuntório nestas escolhas e soluções dramatúrgicas, mas, ao mesmo tempo, é difícil não apreciar o trabalho de cineastas que parecem amar as suas personagens tanto ou mais que os fãs. Precisamente por isso, cada personagem tem, pelo menos, uma cena para brilhar e nos mostrar o que melhor fazem, quer seja desferir alguns insultos muito refinados e sem veneno ou sacar algumas risadas da audiência com um rasgo de impropriedade social. Até os figurinos parecem ter sido desenhados com essa abordagem filosófica e estas pessoas raramente estiveram mais elegantes. Edith, que passou tantas temporadas como o patinho feio da família, agora é a irmã mais glamourosa e até tem direito a se pavonear pelo ecrã numa lingerie dos anos 20 que deve custar mais que o salário anual de Mrs. Patmore, a cozinheira adorável de “Downton Abbey”.

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De longe, a pessoa que melhor aproveita esta oportunidade para brilhar é a magnífica Maggie Smith, como Violet Crawley. Já há anos que a atriz gozava com a sua nova popularidade graças a esta personagem e até falou de quão absurdo era que esta aristocrata enviuvada ainda estivesse viva na narrativa da série cujas temporadas englobaram mais de uma década de História. Contudo, longe de entrar no filme em modo de auto-piloto, Smith mina o guião em busca da inteligência nas suas frases humorísticas e de genuína emoção em passagens mais sérias. Ela encontra isso e muito mais, oferecendo um dos seus mais ricos retratos de sempre. Tão magnífica ela é que é fácil imaginar pessoas que nunca tenham visto a série a entender, de imediato, por que razão a atriz foi a sua figura mais instantaneamente icónica.

Há uma qualidade particularmente apropriada neste destaque para Smith, cuja personagem engloba todas as contradições temáticas que a série sempre exibiu e o filme perpetua. Violet faz-nos rir pela sua acidez e códigos de conduta que põem etiqueta acima de ética. Rimo-nos, pois ela é absurda quando questiona o que é um fim-de-semana e demonstra como a sua visão antiquada do mundo é insustentável de um ponto de vista moderno. No entanto, “Downton Abbey” nunca tornou esta figura num alvo de ridículo, preferindo celebrar a sua natureza anacrónica e encontrando sabedoria e charmosa imperfeição nas suas atitudes draconianas. Tanto a série como o filme são ambivalentes face a Violet, a personificação de toda a nostalgia conservadora deste universo e sua celebração do passado. É, por isso, perfeito que o filme centralize a sua figura perto do fim. Ver Violet Crawley confrontar com um sorriso a finalidade da sua história é o mesmo que ver “Downton Abbey” a despedir-se dos seus fãs com um sorriso lacrimoso e um derradeiro gesto de gentileza.

Downton Abbey, em análise
downton abbey

Movie title: Downton Abbey

Date published: 2019-09-19

Director(s): Michael Engler

Actor(s): Michelle Dockery, Laura Carmichael, Elizabeth McGovern, Hugh Bonneville, Maggie Smith, Penelope Wilton, Imelda Staunton, Tuppence Middleton, Allen Leech, Matthew Goode, Joanne Froggatt, Raquel Cassidy, Robert James-Collier, Kate Phillips, Phyllis Logan, Sophie McShera, Brendan Coyle, Geraldine James, Jim Carter, Max Brown, Simon Jones, Lesley Nicol, David Haig, Michael Fox, Harry Hadden-Paton, Kevin Doyle, Douglas Reith

Genre: Drama, 2019, 122 min

  • Cláudio Alves - 70
  • José Vieira Mendes - 60
  • Luís Telles do Amaral - 75
  • Rui Ribeiro - 80
71

CONCLUSÃO:

“Downton Abbey”, o filme, não é um objeto de particular valor cinematográfico, mas é perfeito para fãs da série.

O MELHOR: Maggie Smith e o esplendor estilístico de todo o filme, desde roupas de baile a mobiliário feito para reis e rainhas.

O PIOR: A falta de drama narrativo e a insularidade de toda a experiência. Este é mesmo um filme exclusivo para fãs das personagens.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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