Melhores Guarda-Roupas de TV

TOP 2018 | Os melhores guarda-roupas da TV

De dramas de época requintados a hediondas distopias, o panorama da televisão mundial raramente foi mais rico em séries de qualidade e guarda-roupas a condizer.

2018 não foi só um grande ano em termos de cinema. Também no mundo da televisão estes passados doze meses marcaram uma maravilhosa procissão de triunfos da arte e do entretenimento, alguns deles com importantes mensagens políticas, outros com festins visuais de ostentação sem precedentes. Outros ainda, ofereceram às suas audiências um cocktail destas duas hipóteses e muitos outros prazeres.

Apesar de ser muitas vezes menosprezado como um mero elemento ornamental das artes performativas, o figurino representa uma engrenagem essencial no mecanismo que é a narrativa televisiva. Afinal, o que seria “The Handmaid’s Tale” sem os seus icónicos trajes de opressão e injustiça? Teria “Mad Men” sido tão importante e popular sem a sua precisa reprodução histórica dos anos 60 nos EUA? Conseguiríamos estar tão emocionalmente investidos no drama de “Game of Thrones” se não fôssemos confrontados com um mundo de materialidade tão visceral que parece mais real que a realidade? Provavelmente não.

Como já fizemos em anos anteriores, para honrar o trabalho dos figurinistas responsáveis por tais maravilhas técnicas e criativas, decidimos listar aqueles que consideramos serem os 10 melhores guarda-roupas da TV. Em consideração estiveram séries, minisséries e filmes televisivos que estrearam, a nível mundial, entre 1 de janeiro e 31 de dezembro de 2018. Filmes claramente concebidos para cinema, mas distribuídos por plataformas mais tradicionalmente associados a produtos televisivos, como é o caso de “A Balada de Buster Scruggs” não serão considerados, contudo.

westworld
WESTWORLD tem direito a uma menção honrosa pelos figurinos desenhados por Sharen Davis.

Antes de apresentarmos o nosso top 10 final temos de destacar algumas menções honrosas. Na sua segunda temporada, “Westworld” expandiu o seu jogo de referência histórica e elementos de ficção-científica a estilos do Japão feudalista. Se possível, os resultados foram ainda mais extraordinários que na primeira temporada exclusivamente focada em fantasias do Velho Oeste. Também no panorama da ficção-científica, “Maniac” merece algum destaque, nem que seja só pela insana quantidade e variedade de estilos dos seus figurinos.

Mais no mundo da fantasia, “The Chilling Adventures of Sabrina” e “American Horror Story: Apocalypse” exigem algum reconhecimento pela sua mistura de referências folclóricas de bruxaria, iconografia de cinema de terror clássico e tendências atuais. Mais perto da realidade contemporânea, mas não por isso menos merecedor de apreço e celebração, é o guarda-roupa de “The Good Fight” que diz mais com o contraste entre a indumentária de dois advogados que muitos dramas conseguem dizer com dez páginas de diálogo.

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Sem mais demoras, segue as setas para descobrires quais foram as obras televisivas que selecionámos como as mais bem-vestidas de 2018.




10. PICNIC AT HANGING ROCK

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Figurinos de Edie Kurzer.

Em 1900, no dia de S. Valentim, um grupo de estudantes de um requintado colégio interno desaparecem misteriosamente em Hanging Rock, na Austrália. Assim é a história do romance de Joan Lindsay “Picnic at Hanging Rock“, originalmente publicado em 1967, que viria a servir de inspiração a um filme de Peter Weir, estreado em 1975, que ainda hoje é considerado como um dos grandes píncaros artísticos na História do Cinema Australiano. 43 anos depois, a história voltou a ser dramatizada no ecrã, mas desta vez sob a forma de minissérie.

Se o filme dos anos 70 se baseou numa estética de verismo histórico a diluir-se em impressionismo imersivo, uma espécie de mistério sonhador construído com mecanismos realistas, o projeto televisivo recorre a técnicas de estilização mais abrasivas. Não é que a figurinista Edie Kurzer tenha virado as costas por completo ao facto histórico. No entanto, os seus desenhos, especialmente para a figura imperiosa da Sra. Appleyard, interpretada por Natalie Dormer, tendem a sublinhar os temas e dramatismo da narrativa através de contrastes extremos e alguns exageros notórios.

No final, esta é uma história sobre uma procura por um sentido de identidade por parte de uma nação fundada sobre os excessos sanguinários do colonialismo. A natureza meio absurda de algumas das confeções de renda e seda em contraste com a paisagem desértica é uma das muitas manifestações da fricção entre os colonos ingleses e esta terra que não lhes pertence. As diferenças de silhueta, por seu lado, revelam como a rapidez de chegada das modas europeias é ditada pelas posses monetárias de cada pessoa, uma dinâmica mesquinha que nos mostra como a infeção do classismo inglês se expande além-fronteiras. Este é um guarda-roupa concebido à ordem do princípio do constante desconforto, entre as atrizes e o cenário, entre as personagens para consigo mesmas e entre a faustosa história de época e o olho crítico de um espectador atento.




09. THE MARVELOUS MRS. MAISEL

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Figurinos de Donna Zakowska.

Desde o primeiro episódio da primeira temporada que “The Marvelous Mrs. Maisel” se afirmou como uma série em que as aparências importam e onde os figurinos têm um papel de destaque na criação de um mundo credível e na definição psicológica, socioeconómica e cultural do seu elenco de nova-iorquinos neuróticos. Na segunda temporada, os horizontes da série expandiram-se e o seu guarda-roupa seguiu o mesmo caminho. Afinal, Midge, a nossa encantadora comediante judia com vocabulário de marinheiro ébrio, vai até Paris, passa o Verão em Catskills e vai desenvolvendo a sua carreira e afinando a imagem de marca. Que guarda-roupa não evoluiria com tais eventos?

Para a figurinista Donna Zakowska, estes desenvolvimentos narrativos foram uma grande oportunidade na mesma medida que foram um monumental desafio. Ao todo, a designer estima que se tenham criado 5000 figurinos para esta temporada. Felizmente, o ornamento também aumentou consideravelmente e isso vê-se bem na qualidade das roupas, desde as fantasias parisienses em que Midge tenta emular a elegância de Grace Kelly até aos fatos de banho de finais dos anos 50 usados em absurdas competições que infantilizam as mulheres que nelas participam.

Com tudo isso dito, o aspeto mais interessante desta guarda-roupa de época continua a ser a caracterização das personagens enquanto pessoas para quem as roupas são uma ferramenta social e profissional de grande utilidade. Andar de avião pode ser um exercício em dar vida a uma imagem icónica que nada tem que ver com a realidade do comum mortal. Reavivar um romance em Paris é tanto um desafio estilístico como emocional. Desenvolver uma carreira não depende só do trabalho duro, mas também da criação de uma imagem e sucesso. No caso de Midge, essa imagem é uma coleção infindável de vestidos pretos com colares de pérolas que lentamente vão sugerindo que estas personagens e esta história estão quase prontos para entrar de rompante na década de 60.




08. OUTLANDER

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Figurinos de Terry Dresbach.

Depois dos campos sangrentos da Escócia em estado de guerra, depois da pomposidade da Versalhes de Luís XV, depois do sofrimento de atravessar o Atlântico e umas desventuras caribes, a história de “Outlander” chega agora a uma América antes da alvorada da Revolução. Claire e Jaime Fraser, eternos heróis românticos cujo amor transcende as barreiras do tempo, são agora colonos a viver num novo mundo onde os resquícios da sociedade europeia expatriada vivem em precária comunhão com os povos nativos.

Esses mesmos povos representaram aquele que foi talvez o maior desafio na carreira da figurinista Terry Dresbach que, ao fim de quatro temporadas da série vai abandonar “Outlander” em prol de outros projetos. Quando o objetivo é reproduzir modas francesas setecentistas, sempre há material para pesquisar. Quando o objeto de estudo são culturas indignas que foram aniquiladas pela ação genocida dos governos americanos, a história é muito diferente.  Contudo, com muito respeito e inteligência, Dresbach deu vida a tais culturas perdidas e, mesmo no meio das requintadas roupas de época mais tradicionais, são esses figurinos que se destacam pelo detalhe e empenho inerentes à sua conceção.

Nada disso implica que os outros figurinos sejam menos bons. As roupas dos anos 70 usadas na secção narrativa de Brianna, a filha dos protagonistas, são fantásticas, especialmente o seu figurino para “atravessar as pedras”. Claire, por seu lado, continua a ser um ícone de anacronismos deliberados, fundindo o seu gosto formado na primeira metade do século XX com as exigências de uma sociedade antiga com pressupostos estéticos e valores muito diferentes. Em termos de figurantes, o guarda-roupa da série continua a vacilar ocasionalmente, mas a qualidade do seu vestuário nunca foi melhor, mesmo que esteja muito menos espampanante que em temporadas anteriores.




07. GLOW

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Figurinos de Beth Morgan.

Já na sua segunda temporada e a caminho da terceira, “GLOW é uma das séries mais estilisticamente divertidas do panorama televisivo atual. Focando-se nos verídicos dramas humanos por detrás de um programa de mulheres wrestlers dos anos 80, esta é uma autêntica explosão das modas mais absurdas de uma década em que o excesso era a ordem do dia. Contudo, presumir que o guarda-roupa da série é composto exclusivamente por crimes contra a moda cheios de lantejoulas, chumaços e licras em cores garridas seria um erro.

Esta temporada foi particularmente boa a delinear as monumentais diferenças entre a falsidade estereotípica da série dentro da série em relação à vida das personagens fora do plateau. A figura de Debbie, tão loucamente coberta numa paródia de patriotismo americano no ringue, usa fatos masculinos como modo de se afirmar no contexto profissional em que se encontra e tentar arrancar algum poder das mãos daqueles que a querem controlar como uma marioneta.

Apesar de tudo isso, seria desonesto não admitir que sim, a pirosada deliberada das peças mais rebuscadas é o que faz deste guarda-roupa um dos melhores da TV. Os figurinos de combate melhorados com a inclusão de detalhes ainda mais espampanantes que na temporada anterior são uma maravilha. Noutro patamar, a inclusão de uma cena de baile de finalistas serviu de montra aos horrores e curiosas preciosidades das modas dessa década que perduram na mente cinéfila devido a tantos clássicos de cinema sobre adolescentes da época.




06. THE LITTLE DRUMMER GIRL

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Figurinos de Sheena Napier e Steven Noble.

John le Carré é um nome bem familiar a qualquer fã de histórias clássicas de espiões e conspiração governamental. Seus trabalhos praticamente construíram um género literário e cinematográfico por si só e hoje em dia o autor é em si uma espécie de instituição cultural. Não é de admirar, portanto, que seja habitual ver obras da sua autoria em constantes ciclos de adaptação. Tal quantidade tende a resultar numa certa banalização destas histórias, pelo menos a nível estético.

É aqui que entra Park Chan-wook, o célebre cineasta coreano responsável por épicos violentos e bizarras adaptações literárias como “Oldboy e “A Criada” respetivamente. Acontece que o realizador é um enorme fã de le Carré e, quando a BBC estava à procura de alguém para filmar uma adaptação de “The Little Drummer Girl” em forma de minissérie, ele decidiu agarrar na oportunidade. Contudo, longe de sublimar o seu estilo à convenção estabelecida por outros projetos semelhantes da televisão britânica, o coreano abordou o projeto com seu habitual gosto por estilização e teatralidade. Tais valores estéticos manifestaram-se especialmente nos figurinos.

Entenda-se que esta é a história de uma atriz que, nos anos 70, é contratada por agentes secretos israelitas para se infiltrar num grupo terrorista. Estas pessoas são todos atores e seu mundo é um palco forjado a ferro, fogo e muito sangue. Por isso, suas indumentárias têm sempre a função de roupa da personagem como de máscara essencial para o jogo de mentira. O génio de Chan-wook e dos figurinistas Sheena Napier e Steven Noble é a simplicidade do seu engenho, usando roupas quase demasiado elegantes para serem realistas em cores garridas que lembram sempre o espectador do artificio que rege as vidas das figuras em cena. A moda, aqui, é tanto ou mais importante que os próprios desempenhos dos atores.




05. THE HANDMAID’S TALE

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Figurinos de Ane Crabtree.

Raro é o figurino que consegue tornar-se tão icónico, tão presente na mente coletiva de uma sociedade, que suas cópias são usadas como forma de protesto político. Assim foi o que aconteceu com as vestes vermelhas usadas pelas mulheres férteis e cruelmente subjugadas que dão nome a “The Handmaid’s Tale”. Os temas de misoginia e fundamentalismo bíblico explodidos numa teocracia americana podem ser apresentados num contexto de ficção-científica, mas sua relevância atual é inegável. As roupas, parte da iconografia da série, tornam-se, portanto, símbolos destas crises modernas fora do próprio contexto da série. É um feito de design extraordinário que merece aplausos.

Com isso dito, esses figurinos nada seriam se existissem na série enquanto objetos únicos. O que os torna extraordinários é a multiplicação do uniforme, suas formas simples repetidas ad nauseum, sua cor simbólica como tinta a cobrir toda uma paisagem de opressão humana. Convém dizer, é claro, que muitos destes designs já estavam presentes na primeira temporada de 2017.

Na segunda, o que foi desenvolvido em termos de roupa foi a especificidade mais profunda desta distopia. Veja-se, por exemplo, as vestes em gradações de azul bebé das pessoas nas Colónias radioativas ou os rituais estilísticos que vêm em consonância com a gravidez. Mais interessante ainda é a visão deste futuro infernal fora das fronteiras do estado de Gillead. Aí, as parecenças com a nossa realidade são ainda maiores, o que não é de todo reconfortante, especialmente quando observamos a parecença entre os refugiados americanos e os protagonistas das atuais crises de migração que assolam a Europa e a América do Norte. Isto é figurinismo enquanto comentário político.




04. THE ASSASSINATION OF GIANNI VERSACE: AMERICAN CRIME STORY

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Figurinos de Lou Eyrich e Allison Leach.

A primeira temporada de “American Crime Story” ofereceu aos espectadores uma fabulosa reexaminação do escândalo, história criminal e polémico julgamento de O.J. Simpson. Uma das melhores partes desse esforço televisivo foi a qualidade imersiva da sua recriação histórica a nível material. Cenários, penteados e roupas apresentavam a perfeita simbiose entre verismo e dramatismo operático. Se possível, a segunda temporada é ainda melhor.

Desta vez, é claro, longe da austeridade dos tribunais californianos, as figurinistas Lou Eyrich e Allison Leach tiveram a oportunidade de explorar o universo de maximalismo estilístico tipificado pela Versace. Desde reproduções cuidadas de arquivos de museu ao uso de peças originais da época, estas mestras da sua arte rechearam esta história de moda, repressão, injustiça social e psicopatia com todo o glamour e excesso que uma homenagem póstuma a Gianni Versace deve exibir. Até o luto de Donatella parece saído de uma ópera vestida pelo irmão.

Melhor ainda é toda a reconstrução de um cosmos social em que a espiral homicida retratada na série podia ter acontecido e perdurado sem a intervenção de uma polícia intoxicada pelo preconceito homofóbico. O capítulo protagonizado por Judith Light é de particular espetacularidade com sua exploração dos teatros sociais de uma Flórida conservadora dos anos 90 onde fatos severos enchumaçados e joalharia ostentosa eram parte essencial de um uniforme socioeconómico que transpira aspirações trágicas de respeitabilidade.

PS: Em termos de “eye candy” masculino, esta série merece algum tipo de honra especial. Tantos speedos coloridos, tão bem-adaptados aos corpos dos atores…




03. SHARP OBJECTS

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Figurinos de Alix Friedberg.

Mais do que qualquer outra série no ano passado, a adaptação televisiva de “Sharp Objects” de Gillian Flynn foi uma lição imprescindível no modo como, longe de serem simples adornos, os figurinos podem ser a máxima manifestação do discurso concetual de um projeto. Esta é, à primeira vista, uma história de homicídio e predação. Através de uma análise mais profunda, no entanto, as complexidades ominosas da história florescem como ervas daninhas bem diferentes das flores delicadas que todas as personagens femininas parecem condenadas a vestir se querem ser aceites dentro da sua comunidade.

Nesse aspeto particular, o modo como os figurinos são usados em “Sharp Objects” é em si um tratado em forma de roupa sobre a performance de feminilidade num contexto cultural marcado pela opressão canibal de forças matriarcais. Camille, a protagonista, apesar dos seus cabelos fogosos, é um fantasma da sua pessoa, um espectro vivo em perpétuo luto pela sua vitalidade e perdida algures entre o trauma juvenil e o desapontamento da vida adulta causado pela mesma ditadura das flores e rendas que parece inócua, mas revela a loucura deste universo de pequenas cidades americanas cheias de grandes segredos.

Veja-se como, numa sociedade de castas informais e hierarquização quase patológica, cada indivíduo tem um uniforme. Somente os monstros nascidos deste inferno e amamentados com veneno podem trespassar as barreiras codificadas do vestuário e assumir imagens diametralmente opostas consoante a sua vontade oportunista. As roupas de “Sharp Objects” estão-nos sempre a dar pistas e a revelar aquilo que as próprias personagens têm medo de revelar a si mesmas.




02. THE ALIENIST

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Figurinos de Michael Kaplan.

Rara é a produção, quer seja em cinema ou televisão, que se propõe a reproduzir o passado sem o filtro da adaptação ao gosto contemporâneo. Por outras palavras, em histórias de época, genuíno verismo histórico é uma raridade imensa, visto que, para agradar aos gostos desinformados do espectador comum, os figurinistas são levados a empregar estilizações que deturpam a base histórico. Por vezes, tal é a manipulação que o resultado final está mais próximo da alta-costura fantasiosa que da reprodução do passado.

Neste panorama, “The Alienist” afirma-se assim como essa rara criatura onde o verismo foi o objetivo da sua equipa criativa que procurou autenticidade acima de qualquer tipo de conforto da audiência. Curiosamente, o figurinista encarregue de tal projeto trata-se de um especialista em estilizações burlescas e epítetos do fantástico, Michael Kaplan. Na verdade, até foi o figurinista a primeiro levantar a ideia desta abordagem atenta ao facto histórico, pois foi exatamente o potencial para tal trabalho que o havia atraído à série. Isso e a possibilidade de definir com os seus desenhos todo o ecossistema humano da Nova Iorque de 1896, desde a ralé mais oprimida até aos dandys queridos da alta sociedade.

Nem tudo é perfeito. A lingerie feminina e algumas roupas mais formais demonstram alguma falta de rigor, mas, de forma geral, isso são detalhes que em nada ofuscam a grandiosidade de tudo o resto. De facto, “grandiosidade” é a palavra-chave no que diz respeito a este guarda-roupa que requereu milhares de figurinos individuais, muitos deles feitos de raiz. As roupas dos três protagonistas são particularmente brilhantes no que diz respeito à execução cuidada e exata, cheia de pormenores ínfimos e perfeita alfaiataria. Tal requinte em tal quantidade merece uma ovação de pé.




01. POSE

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Figurinos de Lou Eyrich e Analucia McGorty.

Com o advento de “RuPaul’s Drag Race”, certos aspetos da cultura queer têm vindo a sair do submundo marginalizado e a entrar no mainstream. Mesmo assim, ainda há muito por explorar na cultura popular moderna, incluindo, até agora, toda a cena dos bailes de Nova Iorque nos anos 80 e 90. Para quem se interesse por tais temas, esse universo foi imortalizado para sempre no extraordinário documentário “Paris Is Burning”, mas foi com “Pose” de Ryan Murphy que a maioria da população teve conhecimento de tais comunidades e sua cultura, suas especificidades estéticas e maravilhoso individualismo.

O melhor de tudo é o respeito e cuidado que todo o projeto exsude sem ter de sacrificar em nada sua ostentosa espetacularidade. Afinal, uma série sobre o mundo dos bailes e a cena do voguing demanda bons figurinos. No caso de “Pose”, os figurinos são mais que bons, são um festim visual que tanto nos embebeda e encanta a vista como nos diz muito sobre as aspirações sociais e ideias de beleza das várias personagens. Por vezes, encarar a noção que alguém tem de ideal feminino, é ver sublinhado todos os sintomas de uma sociedade doente com a febre da opressão. Outras vezes, é celebrar a maravilha do glamour levado às suas antípodas enquanto forma de expressão pessoal.

Mesmo para quem não tiver tempo de dedicar horas e horas a toda a temporada de “Pose”, somente o primeiro episódio tem mais qualidade estilística que todo o ano televisivo combinado. Vejam-se os figurinos monárquicos roubados a um museu, a elegância à la Joan Collins de uma matriarca ríspida ou a beleza modesta de um bailarino despojado do fausto que enche as cenas mais festivas da série. É tão belo, tão extraordinário que quase traz lágrimas aos olhos e por isso mesmo “Pose” mais do que merece estar no topo desta lista.

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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