pormenor da capa de Drunk Tank Pink (2021)

shame, Drunk Tank Pink | em análise

Prova de versatilidade e amadurecimento, o segundo álbum dos londrinos shame deixa ainda bastante espaço para crescer.

O ano que passou foi sem dúvida atípico. A partir de março, o mundo inteiro ficou fechado em casa e os planos para o resto do ano saíram furados. A quarentena acabou por mudar muitos, de uma forma ou de outra, e os artistas não foram exceção. Na segunda metade do ano começaram a chegar álbuns feitos em isolamento, evidenciando o impacto de uns meses de isolamento nos músicos. Este janeiro, a banda inglesa shame lançou o seu segundo álbum Drunk Tank Pink, também ele resultado de um período de isolamento. Contudo, este foi feito antes sequer de alguém prever uma pandemia.

Com o lançamento de Songs of Praise, o grupo rapidamente se tornou uma sensação, ao que se seguiu a típica digressão interminável pelo mundo fora. Como também já vimos acontecer com outras bandas, o longo encadeamento de concertos e festivais teve um efeito brutal nos jovens músicos, tanto física como mentalmente. Quando finalmente voltaram a suas casas sentiram a necessidade de se reconstruirem. O tempo que passaram isolados uns dos outros após a digressão permitiu aos londrinos pisar novo chão com o segundo álbum, lançado um ano após as gravações. Com outras formas de tocar guitarra, novas influências, mais introspeção e sobretudo ainda mais atitude, o amadurecimento dos shame em Drunk Tank Pink é algo de impressionante.

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Seria difícil encontrar melhor altura para lançar o registo. Numa entrevista à revista NME, o vocalista Charlie Steen admite que “apesar do álbum ter sido escrito pré-pandemia, fala bastante de isolamento”. Depois destes meses, a hiperatividade de Steen em “Born in Luton” é-nos familiar, bem como uma certa indecisão, refletida nas várias mudanças de andamento ao longo da canção. Habituado à constante digressão, é-lhe difícil parar e estar sozinho. O alinhamento de Drunk Tank Pink parece estar sequenciado cronologicamente e, depois de duas faixas referentes à vida na estrada, “Born in Luton” é o primeiro momento em que a solidão e a possibilidade de repouso se fazem sentir.

Este “novo normal”, a vida pós-digressão, é o problema central que a banda tenta gerir ao longo do registo. Em “Water in the Well”, Steen reconhece o ponto de partida: “We all got lost somehow/ I tried to find myself but I lost the map/ Now I’m all burnt out”. “Nigel Hitter” já tinha deixado escapar alguns versos como “I need a new beginning”, mas em “Water in the Well” vemos o narrador a encarar o seu problema frontalmente pela primeira vez, sem se desviar ou procurar distrações. Em estilo de crescendo, esta vulnerabilidade é recuperada em “Human, for a Minute”, que nos agarra pela sua letra, nada imediata mas deveras relevante, bem como pelo seu instrumental complexo. “Station Wagon”, o remate do álbum, é ela própria um crescendo e espelha tanto o reconhecimento do problema como a sua resolução. No início, Steen canta “I need a new solution/ I need a new resolution”. Mas não fica por aí. Após os versos iniciais, a canção segue para um surpreendente monólogo, no qual o “eu” aparenta ter finalmente encontrado um sentido. Steen soa estar à vontade com a introspeção e o isolamento, resultando num dos marcos do álbum e, arrisco-me a dizer, uma das canções do ano.

DRUNK TANK PINK | “STATION WAGON”

Comparando com o álbum de estreia, em Drunk Tank Pink a sonoridade do grupo está mais controlada e polida. Para além de terem sido bastante influenciados pelo trabalho dos Talk Talk, as faixas foram foram produzidas por James Ford, produtor dos Arctic Monkeys. Assumindo por vezes uma postura mais glam, os shame demonstram uma nova confiança e a expansão da palete sonora permite que canções como “Nigel Hitter” se aproximem de um funk-punk. O melhor momento do álbum resulta desta mesma disponibilidade da banda para explorar novas soluções. No segundo verso de “6/11”, Steen canta, por cima de um instrumental bastante minimalista, “I pray to no god / I am God / I am every thought your mind has ever held / I prevent nothing / And nothing prevented me”. Por instantes, ficamos totalmente suspensos e agarrados à atuação, num misto de incredulidade, surpresa e admiração, do tipo “Espera, deixa-me ouvir esta parte outra vez!”. Trata-se de uma passagem que dificilmente teria lugar em Songs of Praise, mas que resulta na perfeição enquadrada na abordagem renovada da banda.

DRUNK TANK PINK | “NIGEL HITTER”

Com todas as suas qualidades, Drunk Tank Pink não é fenomenal. Apesar de algumas das letras serem admiráveis poemas, outras parecem pouco esforçadas ou demasiado latas para expressarem algo de relevante. Sendo um alinhamento bastante energético e também graças à garra do grupo, numa primeira audição somos facilmente surpreendidos. Contudo, quando se volta às canções, aquelas que se destacavam soam ainda melhor, como “Station Wagon” ou “Human for a Minute”, mas o encanto das restantes vai-se esboroando. Ainda assim, Drunk Tank Pink é mais um exemplo da grande promessa que são os shame. Poucas são as bandas que com apenas dois álbuns demonstram uma capacidade de evolução e de reinvenção deste nível, algo que permitirá construir uma carreira notável se assim o quiserem. Para além disso, o grupo mostra não ter vergonha de partilhar as suas reflexões e a sua vulnerabilidade. Drunk Tank Pink é um verdadeiro “new beginning”, ao qual os shame se agarraram com unhas e dentes. Ficámos cheios? Não. Esperamos mais no futuro? Sem dúvida. Mas por agora estes jovens deixaram-nos um álbum digno de aplausos, ao som do qual podemos (e iremos) trepar às paredes, enquanto não pudermos experienciar ao vivo e a cores a caótica energia tipicamente shame.

shame, Drunk Tank Pink | em análise
shame, Drunk Tank Pink, Dead Oceans

Movie title: Drunk Tank Pink

Movie description: No segundo álbum, os londrinos shame demonstram um amadurecimento exemplar. A presença de Charlie Steen é insubstituível e mantém-nos agarrados durante grande parte do registo. As guitarras são o outro grande protagonista, estando bastante mais afinadas do que em "Songs of Praise". Embora o álbum facilmente impressione numa primeira audição, quando a ele voltamos acontece que as grandes canções sabem cada vez melhor, enquanto as outras se vão tornando pouco satisfatórias. Ainda longe da perfeição, "Drunk Tank Pink" reassegura a banda como uma das mais promissoras atualmente.

Date published: 15 de January de 2021

Author: shame

Genre: post-punk, glam punk, alternative rock

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  • Pedro Picoito - 81
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