Melhores Álbuns da Década 2010-2019

Estes são os Melhores Álbuns da Década 2010-2019 que ainda quereremos ouvir daqui a dez anos, para lá de todas as modas e agendas. Porque só isso é música.

A distorção do poptimismo

A tarefa de apreciar a criatividade de uma década é um pouco distinta de listar o que de melhor saiu ao longo do ano. Mais longe ainda de ser o resultado do cruzamento das preferências pessoais de cada um (mesmo se a preferência é um dos critérios), uma lista de melhores álbuns da década é, ou devia ser, um retrato artístico e cultural de uma época. Por sabermos como é difícil construir uma imagem de uma era que seja tão fidedigna ao passado quão profícua para o futuro, quisemos esperar um pouco e fasear todo o processo de seleção e votação dos álbuns que constariam da lista. No caso desta década em particular, acresce à dificuldade geral a complicação trazida por uma recente deriva dos critérios inerentes à prática da crítica de arte, pelo menos no meio da música pop, com a qual discordamos em grande parte. Este desacordo mais profundo obrigava a uma reflexão cuidada sobre o que queríamos que esta lista de melhores álbuns da década fosse e que contributo deveria trazer à discussão.

Várias vezes chamámos a atenção para uma atual existência de critérios extrínsecos ao valor artístico a subjazer à promoção de certa música em detrimento de outra. Uma valorização excessiva dos géneros da dita música urbana (pop/R&B, hip-hop, soul, reggaeton, etc) tem deixado na sombra muito do que se fez noutros âmbitos, aparentemente fora de moda e relegado para listas de especialidade, como se de música de nicho se tratasse. É o caso do emo, pop-punk, pós-punk, pós-rock, noise-rock, etc, contra os quais parece vigorar ainda a reação negativa dos críticos à sua divulgação massificada em meados da década dos 2000, talvez devido ao sucesso do revivalismo pós-punk, à inclusão (nem sempre criteriosa) de indie e emo em séries televisas como The O.C. ou One Tree Hill, ao gosto muito discutível da maioria das bandas da terceira onda de emo e à deflagração de cópias deslavadas de bandas pós-punk de genuíno valor como os Interpol. Outros motivos, mais obscuros ainda, parecem proceder à preferência contemporânea por formas menos agressivas de rock, na órbita do dream e bedroom pop e indie-folk, geralmente de cantautores ou bandas lideradas por um elemento feminino. Sem querer sondar demasiado, parece-nos contudo que a agenda política contemporânea, aliada talvez à necessidade de uma sobrevivência comercial, não deverá ser alheia à negligência de subgéneros há muito estabelecidos na tradição do rock alternativo.

Melhores Álbuns da Década 2010-2019
Seth Cohen, em The OC, foi uma faca de dois gumes para a cena indie dos 2000s (© FOX)

Sob a alçada desta agenda, herdada de um pós-modernismo há muito desaparecido de outras esferas da cultura, encobre-se uma erosão radical do princípio modernista da diferenciação entre obras de arte e indústria de entretenimento. Mesmo se nem sempre bem aplicado, a utilidade deste princípio parece-nos indiscutível ao criar uma tensão entre práticas distintas que se alimentam mutuamente e ao estabelecer ideais cuja prossecução e contestação são fonte de criatividade e inovação. Mas a indiscriminada discriminação de toda a discriminação que infesta o ambiente cultural do nosso tempo pretende atribuir um poder iconoclasta e revolucionário a manifestações musicais que, há uns anos atrás e para nós ainda, nunca passariam de instâncias de gosto duvidoso, vazias de qualquer significado relevante para homens de tempos e lugares distintos. Se nos objetarem que a abolição da ideia de gosto é precisamente o propósito político deste poptimismo que aqui rejeitamos, apenas podemos encolher os ombros e responder que, se o juízo de gosto for uma construção cultural elitista e inútil, ou (o que é o mesmo) todos os gostos forem igualmente defensáveis, então não são precisos críticos mas apenas os algoritmos dos serviços de streaming, que já existem e aos quais deveríamos oferecer uma alternativa. Parece-nos escusado relembrar que a atividade do crítico é procurar, ouvir, conhecer, comparar e discriminar entre o que tem e não tem valor, introduzindo leigos e caloiros na matéria a coisas que é uma pena desconhecerem. Se não for isso, resta apenas o papel de oferecer às pessoas razões para gostarem do que já gostam de qualquer maneira, o que talvez seja (isso sim) um pouco presunçoso, para além de pura e simplesmente patético.

Uma outra leitura da década

Uma alternativa é, por isso, exatamente o que quisemos propor com esta lista dos Melhores Álbuns da Década. De modo a garantir o ecletismo de uma lista que, dentro do âmbito da música pop-rock, se pretendia generalista, recolhemos um conjunto muito lato de álbuns, entre aclamados e injustamente esquecidos, provenientes de todos os géneros cultivados durante a década. Distribuímo-los por quatro grandes categorias – (i) punk, hardcore e noise; (ii) eletrónica ambiental e experimental; (iii) cantautoria, folk e dream pop; (iv) hip-hop, pop/R&B e art pop – de cada uma das quais, após extensa audição e ordenação, apurámos os melhores 25 álbuns. Reunido o conjunto dos 100 álbuns que constariam da lista procedemos então a nova audição e ordenação final.

Melhores Álbuns da Década 2010-2019
Os Cloud Nothings são um dos emblemas do outro lado da década dos 2010

Os critérios que nos guiaram, quer durante as eliminatórias, quer na final do campeonato, foram o valor artístico do álbum, o seu impacto histórico-cultural e a nossa preferência pessoal. Enquanto grandes exemplos de realização ou inovação do respetivo género ou até mesmo criadores de um novo género, enquanto versões originais e carismáticas de comunicação musical, teatral e literária de sentido existencial ou político relevante, enquanto contributos para o imaginário cultural, abrindo possibilidades novas de percecionar a realidade ou acrescentar à realidade, enquanto influenciadoras do modo de nos concebermos nesta década que passou, enquanto capazes de nos conquistar pessoalmente, todos estes álbuns mereceram um lugar nesta lista de melhores álbuns da década. Se a sua ordenação é sempre discutível, entre nós e até mesmo para nós, indiscutível é a afeição por cada um dos registos aqui incluídos e, embora nem todos pudessem chegar ao topo, qualquer um deles podia estar acima do lugar onde calhou. Tentámos salvaguardar aquilo que, desta década, quereríamos ainda ouvir daqui a dez anos ou que, pelo menos, não conseguiremos ouvir sem que nos venha toda esta década à mente. Sabemos bem que há ausências notórias, mas são deliberadas e não fruto de esquecimento ou desconhecimento. Esses álbuns foram todos ouvidos e reconsiderados mas o nosso juízo inicial de terem sido objeto de uma inexplicável sobrevalorização manteve-se, mesmo (ou sobretudo) passados vários anos.

Esperamos que esta lista seja um retrato daquela música da década de 2010 a 2019 com que valeu a pena conviver não só durante uns tempos, mas ainda agora e para sempre, não só por esta ou aquela classe de pessoas, mas por qualquer pessoa. Uma convivência que seja, como toda a verdadeira amizade, um desafio ao modo de nos pensarmos e à realidade, uma interpelação às profundezas do eu e àquilo que verdadeiramente deseja. Se as únicas cotas que tivemos em linha de conta foram os géneros (e apenas os musicais), foi por acreditarmos que o interesse político da arte está na sua independência política, na sua criação de um espaço onde todos nos possamos encontrar para falar do que nos une, ou do que nos separa desta unidade.

100. DJ Rashad, Double Cup (2013)

Melhores Álbuns da Década 2010-2019

Tão icónico se tornou o Double Cup que é fácil esquecermo-nos quão antiga era já a cena do footwork por altura do seu lançamento em 2013. Associado a um estilo peculiar de dança de rua, onde o trabalho de pés garante a vitória, o footwork deve a sua existência, no início da década de 90, acima de tudo a RP Boo, resultando de uma metamorfose do juke e guetto house de Chicago, por meio da aceleração da batida e da sincopada distorção de amostras sonoras de rap e pop. Mas desde a mais tenra adolescência que Rashad Harden, juntamente com o seu amigo de liceu DJ Spin, se pôs a girar house e juke um pouco por todo o lado, até chegar à rádio universitária WKKC, integrando clãs de dança locais, fundando os Teklife e difundindo o novo estilo de footwork pela área metropolitana de Chicago. O género eventualmente chegaria à consciência colectiva com os vários discos e antologias lançados pela Planet Mu nos finais da década de 2000. Embora não se lhe possa atribuir a génese desta sonoridade, DJ Rashad foi seguramente peça fundamental no desenvolvimento da cena e o seu álbum oficial de estreia o mais bem conseguido do género. Em Double Cup a celeridade e intermitência do footwork são de tal modo exacerbadas que a função mais imediata da dança é transcendida e o álbum conquista a expressividade própria da música ambiente, desde o seu desconforto (há momentos em que as faixas se tornam um verdadeiro exercício de paciência) até à sugestão de certos lugares e estados de ânimo ou atmosferas. Os timbres, evitando a acidez da música eletrónica que lhe está no DNA, possuem um calor e aveludado acústicos que retiram o álbum das pistas de dança, levando-o para os bares de fim-de-tarde ou ruas da cidade, e da lógica repetitiva do footwork emerge paradoxalmente a liberdade e indefinição do improviso jazzístico. Sem a sofisticação de Double Cup não se perceberia como o footwork pudesse derivar na música experimental de Jlin, e sabe-se lá o que o próprio Rashad não teria trazido ao mundo se tão cedo não se tivesse deixado sair dele. Mas fica-nos este monumento do género, capaz de ofuscar tudo o resto e fazer-nos dizer que “everyday of my life”, “you’re the only one I need”. (Maria Pacheco de Amorim)

99. Dean Blunt, Black Metal (2014)

Melhores Álbuns da Década 2010-2019

Natural de Londres (Hackney), Roy Nnawuchi, aka Dean Blunt, é um irrequieto, determinado e pouco ortodoxo cantor, compositor da cena mais vanguardista e e experimental do pop/rock alternativo. Dean começou por dar nas vistas ao lado da russa Inga Copeland, como Hype Williams, associação que deu à luz alguns bons álbuns e EP’s de house e colagens noisy. Em 2011, já sem Copeland, Dean Blunt inicia o seu fértil percurso a solo, do qual se destaca Black Metal (Rough Trade, 2014), um dos mais belos exemplos de como experimentalismo, harmonia e melodia não são elementos antagónicos. Embora rejeitando as classificações de chillwave e pop hipnótico frequentemente atribuídas ao seu trabalho, é difícil contudo não nos lembrarmos dos deliciosos Dean and Britta perante alguns dos seus melhores duetos, como aquele em “100” colado ao sample de Annabel Wright, dos Pastels, uma das bandas patriarcas da indie-pop. A abrir o álbum, o magnifico “Lush”, que só peca por curto, deve o seu acompanhamento de cordas a “For You” de outros veteranos do indie-pop, os lendários Big Star, não deixando dúvidas sobre as suas influências. Algumas faixas mais experimentais, com efeitos de reverberação e algum rap e sobretudo a sua arte de copy and paste de imenso bom gosto, marcam a diferença em relação aos tempos da Factory Benelux, acentuado ainda por aqueles sentimentos de desânimo e desolação bem presentes ao longo de Black Metal e refletido com imensa elegância naquela que é também uma das melhores faixas do álbum, talvez até da década, “Molly & Aquafina”: I think it’s time you should know […] So I ain’t worried ’bout nothing”. (Rui Ribeiro)

98. The Caretaker, An Empty Bliss Beyond This World (2011)

Melhores Álbuns da Década - 2010-2019

An Empty Bliss Beyond This World é a melhor introdução possível ao trabalho do britânico Leyland James Kirkby e à sua música electrónica fragmentada e evocativa de recordações vagas e remotas. O conceito do disco parte da investigação da reacção de pessoas com Doença de Alzheimer à música que escutavam quando eram jovens, o estabelecimento de uma conexão a determinadas situações e tipos de emoção. O álbum de estúdio alicerça-se em poeirentas faixas de Dixieland jazz e desconstrói a sonoridade nostálgica com recurso à arte moderna do turntable. The Caretaker dá um nó firme na linha temporal do universo e cria uma falha na matriz, colocando-nos nos pés de uma personagem que tenta descodificar a sua vida por entre sons fracturados. Neste buraco desloca-se o ouvinte, enigmaticamente melancólico e intrigado pelos possíveis e inimagináveis trajectos. Nos corredores desta versão musical do Overlook Hotel, ouve-se música ballroom e a agulha risca o vinil, desgastando-o progressivamente. Procuramos um desfecho, mas as faixas terminam abruptamente. A música clássica desvanece e é consumida por ruído, até não existir mais. Um vazio imenso toma o seu lugar. The Caretaker ergue-se na paisagem negra, novamente de objectivo cumprido e experiência musical bem-sucedida. (Diogo Álvares Pereira)

97. Actress, R.I.P. (2012)

Melhores Álbuns da Década 2010-2019

Há males que vêm por bem. Uma, talvez brilhante, carreira desportiva gorada foi a melhor coisa que aconteceu a Darren Cunningham, ou pelo menos a nós. Muitos terão sido os contributos de Actress para o mundo da música, mas o maior de todos foi a colaboração do seu terceiro álbum de estúdio para a onda de criatividade no âmbito da música tecno e ambiente mais experimental que, a julgar pela nossa lista, varreu os primeiros anos da década. Este é um disco que se move na zona do aparentemente aleatório. Um todo sobretudo atmosférico, inundado de eco e reverberação junta-se ao som de instrumentos mais acústicos como violino e violoncelo, harpa, guitarra, sinos, flautas, para criar um espaço nostálgico indefinível. Nele, coagulam-se faixas onde se sobrepõem, à partida desconexas, linhas melódicas esparsas, cujas notas e amostras soam distantes o suficiente para resistir à apreensão de um motivo. Tudo subordinado às, muitas vezes reminiscentes, fórmulas do tecno de Detroit, como em “Iwaaad”, ou dub, em “Marble Plexus”. Mas no seio dos sons cósmicos, troços melódicos e perene incompletude, esborratadas em “Shadow from Tartarus”, intermitentemente emudecidas na grande “Raven”, as linhas de baixo alusivas à música de dança esfarelam-se sob aquela atmosfera que deveriam orientar, soando submersas na distância, como fragmentos de uma história desaparecida. R.I.P. (Maria Pacheco de Amorim)

96. The Radio Dept., Clinging to a Scheme (2010)

Melhores Álbuns da Década 2010-2019

Nos últimos anos, a relação entre a pop e o hip-hop foi-se estreitando, assim como entre o indie e a pop. Mas o hip-hop nunca tinha estado tão próximo do shoegaze como em Clinging to a Scheme. Nas faixas é impossível ignorar, logo nos primeiros segundos, o filtro na voz de Johan Duncanson. À medida que avançamos no alinhamento, percebemos também que este não é o único filtro presente. Os Radio Dept. sempre tiveram um som peculiar e em Clinging to a Scheme torna-se evidente que isto se deve à vastidão de influências que o grupo reúne. Certamente o indie pop e shoegaze saltam à vista, mas o doo-wop em “David” não passa despercebido, nem os samples retirados de documentários sobre a cena do hip-hop ou a resposta de Thurston Moore sobre a indústria do rock em “Heaven’s On Fire”. Temporalmente, podemos ir ainda mais longe e ouvir Beach Boys nas melodias. Este alargado espetro tem tudo para dar errado, não fosse o gosto certeiro da banda. Ainda mais surpreendente é a coesão sonora do álbum, depois de tanta costura de retalhos, o que mostra que os Radio Dept. têm controlo total sobre a sua sonoridade. Na arte, a complexidade desnecessária é muitas vezes tomada por qualidade. Por essa razão, há algo de desafiador na acessibilidade, intencional e descarada, de Clinging to a Scheme. (Pedro Picoito)

95. Lil Ugly Mane, Mista Thug Isolation (2012)

Uma salva de palmas para Lil Ugly Mane e o seu subvalorizado Mista Thug Isolation. Numa década dominada pelas diferentes formas de hip-hop e uma abundância de álbuns de estúdio sonoramente integrados nesta grande família, a obra do rapper Travis Miller destaca-se pelo perfil iconoclasta e o clima misterioso circundante. O artista originário de Virginia cria um distanciamento entre o seu rosto e a arte que produz, acompanhando cada mudança de estilo e etapa na sua carreira com a adopção de novos pseudónimos, sendo Bedwetter, Shawn Kemp e Lil Ugly Mane alguns dos mais célebres. No caso de Lil Ugly Mane, Mista Thug Isolation é um álbum fortemente enraizado na tradição do southern hip-hop e, em paralelo, esteticamente distinto do remanescente catálogo do hip-hop dos 2010’s. A veia esotérica interligada à era digital é a característica mais notável do disco, reunindo o fascínio pelas ciências ocultas à atitude dos rappers representativos do Dirty South, as suas barras directamente confrontacionais e a cultura hedonista celebrada. A produção encontra uma zona de conforto no passado noise de Travis Miller, incorporando igualmente elementos do jazz, sintetizadores e samples de voz. Repleto de colaborações cativantes, Mista Thug Isolation é um oásis etéreo no meio do deserto de inovação que assombra o género. (Diogo Álvares Pereira)

94. Burial, Rival Dealer EP (2013)

Melhores Álbuns da Década 2010-2019

No início desta década, o sucesso do britânico William Bevan, sob o nome de projeto Burial, arrastava uma vaga de novos nomes que, esperançosos, copiavam o som característico do artista. Como resposta, em Rival Dealer, Bevan saiu do seu “som característico”, destacando-se dos imitadores e reiterando o porquê do seu sucesso. Ao longo deste, agora icónico, EP são usados vários samples de voz, sendo o discurso da realizadora Lana Wachowski o mais perceptível de todos, rematando o EP. A mensagem é clara: “I am loveable”. O próprio Burial caracterizou o EP como três “faixas anti-bullying que poderiam talvez ajudar alguém a acreditar em si mesmo”. Ao mesmo tempo que oferece um consolo, Rival Dealer retrata também o seu público-alvo. As faixas expõem a fragmentação e o ruído que se sente no caminho de descoberta da própria identidade. Uma voz assegura-nos, “You don’t have to be alone”, mas o registo mostra a profunda introspecção e a solidão de quem vive a dilacerante dúvida sobre si mesmo. Mais do que hinos anti-bullying, o EP é uma caracterização, sem vernizes ou pós, de todos os que procuram um poiso numa sociedade de que se sentem alienados. (Pedro Picoito)

93. The Menzingers, On The Impossible Past (2012)

Melhores Álbuns da Década - 2010-2019

Por vezes, uma ação sem qualquer intenção por trás acaba por ter um resultado perfeito, que seria deveras inatingível com o mais minucioso dos planos. É uma experiência comum e os The Menzingers fizeram-na em On the Impossible Past. Descrito pelo guitarrista e vocalista Greg Barnett como “um álbum conceptual por acidente”, nele tudo parece cair no sítio certo. A capa é uma fotografia tirada na área nordeste da Pensilvânia, que serve de cenário a grande parte do álbum. Devido a vários fatores geográficos e sociológicos, projetou-se um futuro economicamente próspero para os habitantes da zona. Em On the Impossible Past, a banda apercebe-se de que a vida adulta da sua geração já não integrará o tempo das vacas gordas. E não ficam por aí. O grupo questiona se os tempos de abundância alguma vez existiram, denunciando a pobreza, os problemas sociais, as drogas e a saúde mental dos locais, abalados pela corrida desenfreada atrás de possíveis oportunidades. A protagonista da capa é desconhecida, mas quem a observa sente-se próximo. Com as canções acontece o mesmo. São íntimas e familiares. As emoções e as frustrações retratadas por vezes são cruas. Mas serão as histórias de vários ouvintes que, de alguma forma, amadureceram e experienciaram que as lentes da vida adulta revelam as montanhas outrora ocultadas pelas lentes da infância. On the Impossible Past é um dos mais complexos retratos do sonho americano no dia-a-dia e, com as suas melodias irresistíveis aliadas a um temperamento punk, um furacão que não queremos ignorar. (Pedro Picoito)

92. Savages, Silence Yourself (2013)

Melhores Álbuns da Década - 2010-2019

Poucas bandas desta década se podem gabar de ter tanto carisma como as Savages. Uma secção rítmica imbatível, uma guitarra lacónica nos seus acentos e distorção e, em primeiro plano, a voz vibrante e impositiva de Jehnny Beth. Dito assim parece a descrição, não desta banda feminina de Londres, mas daqueloutra de Manchester que todos bem conhecemos e a comparação não é despropositada. Silence Yourself é seguramente um dos maiores álbuns pós-punk da década, a sua assertividade minimalista alternando com secções de puro ruído ou momentos atmosféricos como a coda de “Dead Nature”, a força teatral de Beth sustentada por algumas das mais memoráveis linhas de baixo dos 2010 (“Shut Up” vem logo à mente), a banda toda unida numa única e incontornável declaração de intenções. O que seja mesmo que as Savages estejam a dizer, no seu registo profético de um eu desencarnado a interpelar um tu ainda mais indefinível, não se percebe bem e talvez não seja importante. O poder da mensagem não está no conteúdo semântico dos versos, de talento poético discutível, mas no ânimo que Beth traz à sua performance e na convicção com que a banda ora a sublinha unânime ora a pontua agressivamente nos intervalos. É tudo pura confiança, puro desdenho e furor, pura afirmação de desejo de existir e ser ouvido no que se tem para dizer. Ficar em silêncio, um pouco de boca aberta desde que nos mandaram calar, é a primeira e talvez única reação possível. (Maria Pacheco de Amorim)

91. White Lung, Deep Fantasy (2014)

Melhores Álbuns da Década - 2010-2019

Nunca é fácil destacar-se no jogo de possibilidades limitadas que é o hardcore, mais ainda décadas depois de o tabuleiro ter sido posto em cima da mesa. O mero exercício é, por si só, um desafio e cinzelar uma sonoridade invulgar, num campo restrito e estafado como este, é ganhar o campeonato. Mas não há dúvida de que os canadianos White Lung, de Vancouver, mereceram representar o género na memória colectiva da década que passou. A banda de Mish Barber-Way chamou a atenção do mundo com o seu segundo registo Sorry (2012), onde se delineia já uma personalidade distinta, mas foi em Deep Fantasy que a sonoridade, totalmente focada, alcançou a precisão e acutilância para disparar certeira, mandando tudo aos abrigos. Anunciadas pelo martelar inicial dos timbalões, as canções explodem por dois minutos, a bateria avançando pujante e inexorável, a guitarra alternando entre guturais acordes metralhados e agudos arpejos ziguezagueantes, as melodias vocais infecciosas, o arrasto e descida de tom das últimas vogais dos versos a espalhar desdém sobre todos os reais e potenciais ofensores. Embora a consistência deste, apesar de tudo breve, álbum possa cansar alguns, a verdade é que isto é hardcore, e o gozo está nas pequenas inflexões de uma fórmula vencedora, nas mínimas variações que vão expandindo uma mesma viciante ideia trabalhada ao longo de Deep Fantasy. Brama Mish que “I always win”. Tinha toda a razão. (Maria Pacheco de Amorim)

Páginas: 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10

Maria Pacheco de Amorim

Literatura, cinema, música e teoria da arte. Todas estas coisas me interessam, algumas delas ensino. Sou bastante omnívora nos meus gostos, mas não tanto que alguma vez vejam "Justin Bieber" escrito num texto meu (para além deste).

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *