Entrevista a Tiago R. Santos (Argumentista)

 

Tiago R. Santos é um dos argumentistas mais solicitados do momento, tanto em projectos de cinema, como na escrita de séries de televisão. Além disso ainda é escritor, crítico de cinema e está prestes a estrear, mais um filme com argumento da sua autoria: ‘Amor Impossível’, de António-Pedro Vasconcelos. Conversámos, com a naturalidade de duas pessoas que se conhecem bem, mas sobretudo para saber como se escrevem filmes e sobre esta experiência muito particular, de recriar (e actualizar para os dias de hoje) uma nova versão de ‘O Leão da Estrela’, agora dirigida por Leonel Vieira.

Tiago R. Santos

 

COMO (R)ESCREVER UMA COMÉDIA À ANTIGA PORTUGUESA?

MAGAZINE.HD: Como surgiu o convite para escreveres o remake de ‘O Leão da Estrela’?

TIAGO R. SANTOS: Como todos os convites surgem. Alguém liga, pergunta o que é que ando a fazer e se estou ocupado, dizem que querem conversar sobre um projecto, conversamos sobre esse projecto e percebemos se é uma coisa que me interessa, se eu acho que poderei ser uma mais valia para o objectivo que se pretende e se os prazos nos servem aos dois – ao realizador/produtor e a mim, argumentista. Mesmo sendo ‘O Leão da Estrela’ um projecto invulgar, para mim e no contexto do cinema português, esses arranques são todos semelhantes.

MHD: Quantas vezes viste o filme original?

TRS: Três. Uma quando era miúdo, outra quando me fizeram o convite e quis perceber se me sentia confortável a fazer a adaptação e uma terceira de forma mais técnica, tentado perceber quais eram os elementos que iria manter na minha história e quais os que ficariam de fora.

MHD: Naturalmente o guião deste é muito diferente do original? Há coisas no original que hoje já não fazem sentido, certo?

TRS: É um guião novo. Mantivemos a premissa, as personagens também – mesmo se transformadas – e algumas situações são homenagens à narrativa original, mas a partir do momento em que escrevi a primeira palavra do guião, não voltei a olhar para o filme de 1947. Até porque este filme ganhou a sua própria vida, tornou-se mais uma homenagem do que um remake. E sim, há muitas coisas que já não fazem sentido. A ideia base, por exemplo: hoje em dia, um sportinguista que não consiga ir ver um jogo ao Porto já não precisa ficar em pânico como acontecia com o Anastácio. Basta juntar alguns amigos e ir para uma tasca beber minis, comer tremoços e ver a bola na SportTV – e isto não é depreciativo, eu adoro todo este ritual. Por isso, para as coisas fazerem sentido, fomos à procura desse futebol de 1947 onde as pessoas ainda ficavam coladas ao rádio a pilhas para ouvir os relatos e conheciam todos os outros espectadores que estavam ao seu lado no sofrimento: encontrámos isso no futebol regional que está distante dessa indústria do espectáculo em que se transformou o desporto e justifica a viagem que a família precisava fazer para o filme acontecer.

E, considerando que o filme é basicamente sobre uma família de mentirosos disposta a mentir para não pagar a estadia de um fim de semana fora, fazia também todo o sentido explorar as redes sociais – o Facebook e o Instagram e tudo isso -, que são na verdade ferramentas que todos nós utilizamos para dar uma imagem de nós próprios (das nossas vidas, das nossas experiências, do nosso valor) que raramente corresponde à verdade. Há também sub-plots que se perderam e outros que se transformaram e não há um único diálogo repetido. E, sinceramente, acho que foi a decisão certa, esta liberdade criativa. Julgo até ser a melhor homenagem que podemos fazer ao Leão da Estrela de 1947, esta coisa de não o tentarmos copiar mas sim perceber de que forma é que nos inspirou a escrever, produzir e realizar algo completamente novo.

Tiago R. Santos

‘Julgo até ser a melhor homenagem que podemos fazer ao Leão da Estrela de 1947…’

MHD: Já tinha trabalhado em cinema, com o Leonel Vieira?

TRS: Em cinema, nunca. Já tínhamos falado dessa possibilidade variadas vezes, mas só agora se concretizou. Já tinha, no entanto, colaborado com ele – como produtor – em televisão, quando escrevi vários episódios da série ‘Os Filhos do Rock’, criada e realizada pelo Pedro Varela.

MHD: Acompanhas-te as rodagens?

TRS: Apenas conseguir ir à rodagem no último dia de produção – quando filmaram, curiosamente, a primeira cena do filme. Estava a ultimar a escrita do ‘Amor Impossível’ e a minha disponibilidade para acompanhar todo o processo foi reduzida.

MGD: É normal acompanhares as rodagens?

TRS: Depende, como já reparaste na resposta anterior, da minha disponibilidade no momento da produção e também da relação que tenho com a produtora e realizador, claro. Gosto de o fazer porque sinto sempre que aprendo alguma coisa e nunca no sentido de proteger “o guião”, porque isso iria apenas atrapalhar um processo de produção que já é bem mais complicado do que as pessoas do lado de cá julgam. Claro que o faria se sentisse que o projecto poderia ficar comprometido com alguma decisão criativa, mas confio sempre nas pessoas com quem trabalho.

MHD: O resultado final é muito idêntico ao que escreves-te ou o Leonel deu-lhe o seu toque pessoal?

TRS: As situações e diálogos são as que estavam na página, tirando algumas piadas que foram acrescentadas. Claro que o Leonel e os actores, na sua interpretação, as transformaram com as suas idiossincrasias e um tom particular, mas isso é absolutamente normal. O guião nunca é um texto fechado, é um documento de trabalho, um mapa que indica o caminho a seguir mas que permite alguns pequenos desvios. Outra questão é se é idêntico ao filme que passava na minha cabeça enquanto escrevia, mas aí a resposta é sempre não. Na minha cabeça, o filme é sempre perfeito. Na vida real, o perfeito não existe e ainda bem. 

Leão da Estrela

‘O guião nunca é um texto fechado, é um documento de trabalho, um mapa que indica o caminho a seguir…’

MHD: Uma coisa que se ficava com a sensação nas comédias dos anos 40, incluindo O Leão da Estrela, era que os actores eram muitos bons, as piadas e os diálogos funcionavam porque eles improvisavam muito. Aqui também ouve margem para a improvisação?

TRS: Como referi, há algumas piadas que se percebe terem sido improvisadas pelo actores. Mas o resultado final é muito fiel ao guião.

MHD: Tiveste alguma influência na escolha dos actores?

TRS: Nem um bocadinho.

MHD: Não  sentes uma grande responsabilidade ao mexer com a escrita de outros argumentistas famosos (Ernesto Rodrigues, Félix Bermudes, João Bastos), que escreveram o filme original

TRS: Pensei nisso durante um dia e depois decidi ignorar essa responsabilidade, caso contrário não conseguiria escrever o guião. Gosto de pensar que eles achariam piada e teriam curiosidade de saber como o seu trabalho inspirou um outro argumentista tantas décadas depois e como as suas ideias se transformaram e adaptaram perante um mundo que mudou a uma velocidade assombrosa.

MHD: Conhecia a carreira destes argumentistas? Fico com a sensação que hoje já não ninguém se lembram deles?

TRS: Nunca ninguém se lembra dos argumentistas. Faz parte do trabalho. Somos os tipos que estão escondidos atrás da cortina. E podia agora ir ver ao IMDB ou ao Google qual foi a carreira do Ernesto Rodrigues, do Félix Bermudes e do João Bastos, mas a verdade é que não conheço a carreira deles e desconheço em que outros projectos é que colaboraram. O que só sustenta a minha primeira opinião.

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‘Nunca ninguém se lembra dos argumentistas. Faz parte do trabalho.’

MHD: Isto é estar-te quase a pedir uma homenagem a estes argumentistas. Achas que daqui sei lá a 60 anos se vão lembrar de ti como argumentistas dos filmes que escreves-te?

TRS: Não, de forma nenhuma. Espero, isso sim, que se lembrem dos filmes. Isso já seria fantástico.

MHD: Os argumentistas são sempre uma espécie de artistas que ficam na sombra?

TRS: Não gosto do termo “artistas”, acho que somos contadores de histórias, tentamos fazer o melhor que conseguimos, criar narrativas que cativem as pessoas durante 1h30m e não tenho a presunção de achar que estou a criar “arte” nem isso me preocupa. E acho que sim, claro que estamos na sombra, mas isso faz parte do próprio processo. No início, está a palavra e tudo nasce do texto, mas depois há um número extenso de pessoas que vai trabalhar para que essas palavras se transformem na aparência de realidade – não apenas o realizador e os actores mas também toda a equipa de produção, a direcção de arte, guarda-roupa, etc. Tendo dito isto, acredito também, no que se refere à “autoria de um filme” (um termo tão querido do nosso cinema, isso do “autor”), que há três funções que influenciam de forma decisiva o que se vê no ecrã depois de atravessado todo esse processo: realizador, argumentista e director de fotografia. Claro que o trabalho de qualquer um fica lixado sem a colaboração fundamental e o talento dos actores, mas é da sinergia criativa entre estes três elementos – que trabalham em conjunto com o produtor – que nasce um filme.

MHD: A pergunta é difícil, mas na tua opinião esta versão, e agora estou a falar como se tu fosses apenas espectador, esta versão fica muito aquém ou não da versão original?

TRS: Acho que são filmes completamente diferentes. O original vive muito do charme dos seus actores, na sua cumplicidade e capacidade de improviso. Esta parece-me narrativamente mais coesa (espero, estás a perguntar à pessoa errada, não sou capaz de ver o filme como se fosse “apenas espectador”). Acho que, em ambos os casos, os filmes cumprem os objectivos a que se propõem: entreter, divertir, fazer as pessoas esquecer o difícil mundo lá fora da sala durante 1h45m. Por isso, essa questão parece-me sublinhar uma forma errada de olhar para esta reinterpretação de ‘O Leão da Estrela’. Até porque, como já te referi, a ideia nunca foi fazer igual. Aliás, neste novo filme até há um piscar de olho a isso, quando alguém refere que toda esta aventura parece “o enredo de uma comédia de 1947”. É quase meta-ficção, na verdade, não faltam outros momentos onde, de forma directa ou indirecta, as próprias personagens reconhecem aquilo que estão a fazer. Também por isso, digo que é mais uma homenagem do que uma “nova versão”.

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‘…os filmes cumprem os objectivos: entreter, divertir, fazer as pessoas esquecer o difícil mundo lá fora da sala durante 1h45m.’

MHD: Sentes mais à vontade a escrever comédia ou drama? Já pensas-te escrever uma comédia original?

TRS: Já escrevi uma comédia original. ‘A Bela e o Paparazzo’. Era uma comédia romântica, mas uma comédia mesmo assim. E sinto-me à vontade em ambos os géneros, na verdade. Até porque acho que nos filmes, como na vida, há espaço para tudo. Lembro-me de ir a uma sala de cinema ver o ‘Call Girl’ e as pessoas rirem-se em imensos momentos, mesmo não sendo uma comédia. O mesmo aconteceu com ‘Os Gatos Não Têm Vertigens’ (‘Amor Impossível’ já será outra história, julgo) O que me interessa mais é a construção da narrativa, as personagens que nascem e qual o objectivo e tom do projecto. A partir daí, e quando as coisas correm bem, tudo o resto surge de forma orgânica.

MHD: Não achas que é um bocadinho sacrilégio estar a pegar nas velhas comédias portuguesas dos anos 40 e estar a recriá-las?

TRS: Sou ateu, não acredito em sacrilégios. Se é errado? Não. Até acho que os espectadores que assistirem a este ‘O Leão da Estrela’ e acharem piada ao filme sentirão mais curiosidade de procurar o original no caso de ainda não o terem visto. Isso do sacrilégio é conversa de quem acha que o cinema deve ser uma peça de museu, exposta atrás de vidros duplos para não ficar suja com as impressões digitais dos espectadores. Não acredito nisso. Acho que o cinema é um objecto que vive e respira também quando está ali no meio da confusão das emoções e do público. E qualquer cinematografia faz remakes e sequelas e adaptações. Só por cá é que isso é um “sacrilégio”, tal como só porque cá é que tentar contar história que apele a um público vasto é considerando uma “ofensa”.

MHD: Achas que o’O Leão da Estrela’, vai ser um sucesso de público tão grande como foi ‘O Pátio das Cantigas’

TRS: Não faço a mínima ideia, mas tenho sérias dúvidas. 600 mil espectadores são muitos espectadores.

MHD: A velha questão é possível fazer um bom filme sem um bom argumento ou não há bons filmes sem argumentos bem escritos?

TRS: Acho que tudo é possível, na verdade. Há filmes de que gosto e que não estão minimamente interessados numa narrativa e onde o argumento é secundário. Há outros onde o argumento até está bem construído e certinho e emocionalmente tudo faz sentido mas que, por alguma razão, se sai da sala de cinema com um sentimento de indiferença. O que é giro no cinema é isso: tudo pode acontecer. Agora, se o argumento for mau e for esse o texto que será filmado, a probabilidade do filme ser bom desce consideravelmente e se, mesmo assim, as coisas resultarem, será um milagre. Mas repito: é tudo uma questão de gosto, do que se pretende e da honestidade com que as coisas são feitas e, num mundo perfeito, haveria espaço para tudo sem a necessidade de algumas pessoas defenderem a não-existência daqueles que têm visões diferentes.

Tiago R. Santos
O Leão da Estrela

‘…é tudo uma questão de gosto, do que se pretende e da honestidade com que as coisas são feitas…’

MHD: Sei que andas sempre a mexer, que estás a preparar agora?

TRS: Vou seguir a via do sacrilégio. Vou arrombar a porta de uma igreja, roubar a água benta, colocá-la numa bisnaga e alvejar transeuntes de forma aleatória ou, melhor ainda, vou para a porta das salas onde ‘O Leão da Estrela’ estiver em exibição para, com as bisnagadas, os libertar do pecado de se quererem divertir com um filme português. Depois, vou continuar a colaborar numa série para a RTP, a seguir a pré-produção do ‘Índice Médio da Felicidade’, a adaptação que fiz com o David Machado do seu próprio romance e que será produzido pela MGN e realizado pelo Joaquim Leitão no próximo ano. E tenho ainda outros projectos que estão a arrancar e, também por isso, é demasiado cedo para falar deles.

PERFIL

Tiago-R.-Santos-e1411424196409-cópiaTiago R. Santos é argumentista e escritor. Nasceu em 1976 e, depois de uma curta carreira como jornalista, iniciou o seu trabalho de argumentista, em 2007, com ‘Call Girl’. Escreveu ‘A Bela e o Paparazzo’ e ‘Os Gatos Não Têm Vertigens’, trabalhou em séries como ‘Liberdade 21’, ‘Conta-me como Foi’ e ‘Filhos do Rock’ (entre outras) e é autor do argumento de ‘Amor Impossível’, de António-Pedro Vasconcelos, filme que irá estrear em Dezembro deste ano, assim como ‘O Leão da Estrela’, remake realizado por Leonel Vieira e igualmente escrito por si. Actualmente, é também crítico de cinema para o suplemento GPS, da Sábado. Em 2013 publicou o seu primeiro romance: ‘A Velocidade dos Objectos Metálicos’, pelo Clube do Autor.

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colabora no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’, ( 2014). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’,(2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’, (2012) Mostras de Cinema da América Latina 2010 e 2011, 'Vamos fazer Rir a Europa', 2014 e Mostra de Cinema Dominicano, 2014 e Cine Atlântico, Terceira, Açores. É o Director de Programação do Cine’Eco- Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela desde 2012. É membro da FIPRESCI.

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