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Especial | Opinião: O Cinema às Voltas com o Futuro (2)

“Se a pandemia não for vencida em breve, será que o futuro do cinema vai estar nas mãos de uma Netflix, que nos últimos meses duplicou o número de assinantes, ou nas Amazon, Disney+, Hulu, para citar alguns dos outros grandes beneficiários da quarentena? Irão crescer da mesma forma um Criterion Channel ou, numa escala mais local, um Filmin?”  A opinião do jornalista e programador João Garção Borges, que toma como base ‘The Shape of Things to Come‘, o romance de H.G. Wells e a versão cinematográfica ‘A Vida Futura’, de William Cameron Menzies. (1936).

HISTÓRIA DO FUTURO ou THE SHAPE OF THINGS TO COME…? (*)

(*)Título do livro de H. G. Wells…excepto o ponto de interrogação.

São muitos os danos colaterais registados numa crise como a actual provocada pelo COVID-19, nomeadamente quando a sua dimensão pandémica resulta da falta de preparação das sociedades ditas avançadas para contornarem rapidamente as consequências dramáticas da crise sanitária, onde diariamente se lançam os dados de um jogo macabro situado entre a vida e a morte, razão principal que obriga os governos e instituições a decretarem medidas excepcionais de confinamento que, por sua vez, geram uma igualmente grave e algo inevitável crise económica. Neste contexto, as actividades que não são essenciais ou aquelas que dependem de uma fruição colectiva, contrária ao isolamento social, acabam sempre por sofrer os reflexos das diferentes crises, e a actividade cinematográfica, nas suas diversas vertentes, não podia deixar de ser atingida, pelo menos no seu modelo mais clássico de exploração comercial. Não existindo espectadores, ou seja, não existindo procura no circuito comercial das salas, para a maioria dos investidores privados, assim como para algumas áreas de participação financeira do sector público, faz pouco sentido manter a produção. Particularmente a da grande indústria, impedida por agora de exercer em pleno a sua actividade, ainda por cima face a um clima de grandes incertezas geradoras de prejuízos difíceis de recuperar ou problemas estruturais difíceis de contornar no plano legal. De momento, a produção que se baseia na equação super-investimento igual a super-receitas, no pressuposto de que existe um mercado livre de constrangimentos, praticamente desapareceu por não ser viável conjugar as regras sanitárias impostas ao mercado laboral com os mecanismos de defesa desse mesmo mercado, entre outros, os agentes que defendem os artistas, as associações profissionais, os sindicatos e, mais do que nunca, a disponibilidade do sistema financeiro para emprestar capital sem o brutal aumento do valor das garantias e seguros de bom fim, situação que, por sua vez fragiliza ou, pura e simplesmente, paralisa a distribuição associada ao referido circuito.

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VER TRAILER DE ‘A VIDA FUTURA’ (THINGS TO COME) (1936) 

Pelo contrário, a distribuição que vem sendo orientada para a exibição nas plataformas de streaming pode gerar, num contexto de ausência de uma forte concorrência, uma oferta sustentada e com algum peso económico, nomeadamente se optar por uma gestão e renovação criativa dos catálogos que as principais marcas representam, recuperando assim junto dos diferentes segmentos que constituem o grande público o sentimento de procura que, por sua vez, gera grandes oportunidades de desenvolvimento a outras empresas e plataformas associadas a este negócio. Na verdade, estas empresas não precisaram de muitos meses para assistir a um aumento exponencial da sua influência no mercado, com naturais reflexos na rentabilidade das suas operações que, assim o desejem e logo que as condições sejam mais favoráveis do ponto de vista do desconfinamento laboral, podem investir na produção própria ou então simplesmente canalizar para a aquisição a valores mais favoráveis de “produtos” de cinema e audiovisual, alguns dos quais estão neste momento em fase de pós-produção, ampliando a carteira de activos que irão fazer circular não só durante como após a pandemia. Dito isto, se a pandemia não for vencida em breve, será que o futuro vai estar nas mãos de uma Netflix, que nos últimos meses duplicou o número de assinantes, ou nas Amazon, Disney+, Hulu, para citar alguns dos outros grandes beneficiários da quarentena? Irão crescer da mesma forma um Criterion Channel ou, numa escala mais local, um Filmin? Mas será mesmo assim? Será que a grande indústria que investiu milhões em filmes que estão por agora parados, milhares de horas por capitalizar, vai aceitar de forma passiva a manutenção do seu modelo de produção, distribuição e exibição, sem vislumbrar uma alternativa? Será que vai repor simplesmente o business as usual? Será que vai apostar na mera vontade política dos agentes ou cúmplices do capitalismo para abrir a economia a qualquer preço, correndo o risco de, no meio de uma depressão social e económica, não poder estabelecer um calendário minimamente seguro para a circulação global dos seus investimentos? Sobretudo num mundo que parece incapaz de resolver a pandemia a uma só voz, optando antes por estratégias concebidas a diferentes velocidades e onde há quem, com a maior das irresponsabilidades ou seguindo estratégias manhosas, propõe o uso de detergentes ou medicamentos que nenhuma autoridade sanitária validou no combate a uma doença cuja vacina não vai surgir para já e, como por encanto, ao virar da esquina? Não, a produção cinematográfica não pode ignorar a pandemia e alimentar a ilusão de que no final as sociedades atingidas vão regressar ao normal, seja lá o que isso for. Basta olhar para o número de desempregados, ou sub-empregados, para perceber que a oferta e a procura vão levar muitos anos a recuperar o fôlego de há uns meros meses. Naturalmente, estou a falar aqui da grande indústria e não da actividade cinematográfica fortemente dependente de subsídios e cuja rentabilidade na bilheteira não constitui a preocupação principal. Na verdade, nem muitas vezes a falta dela impede a continuidade da actividade dos produtores e da produção em causa, apesar de, por agora, quer a indústria pesada quer a produção inserida numa lógica pessoal e menos comercial sofrerem do mesmo mal, ou seja, inactividade forçada e, aqui e além, falência pura e dura. No entanto, existe uma diferença. Os grandes estúdios possuem capital em carteira, os filmes produzidos e não estreados. Podem não ganhar agora, mas mais para a frente e na primeira oportunidade irão inundar o mercado com as novidades bem guardadas, leia-se, protegidas de um mercado que para já não está a funcionar como eles gostariam. Já os produtores do cinema de autor, ou Arte & Ensaio ou como lhe quiserem chamar, só podem contar com o próximo subsídio, se ele vier.

©SOTTC Film Productions Ltd.

Para melhor percebermos o que está em jogo, procurem colocar-se no lugar de um grande produtor que pagou alguns milhões, seja qual for a moeda, por um filme que ele esperava rentabilizar globalmente no mais curto espaço de semanas ou meses, antes de acrescentar ou até recuperar boa parte do investimento, incluindo o reservado para as campanhas de marketing, nos circuitos complementares do Home-Video, das redes de cabo e do streaming. Procurem ainda colocar-se no lugar dos que, não sendo produtores executivos, nem sequer profissionais de cinema, são igualmente investidores e parte interessada na obtenção dos lucros gerados pela citada capitalização rápida e a uma escala global. Pensem bem. Será que estariam interessados em fazer estrear um filme de que esperavam receber milhões, sem a bola de neve mediática de um festival de cinema de classe A, sem conferências de imprensa dignas desse nome, com a actividade dos críticos reduzida aos serviços mínimos? Será que iriam estrear os vossos activos cinematográficos com um número de lugares limitado nas salas de cinema, onde por muitos meses irá subsistir o receio de contaminar e o medo maior de ser contaminado. Pior, sem garantias de um calendário de estreias estável e coordenado a nível global, sem poder fazer previsões do que vai ser ou não programado?Depois perguntem ao distribuidor e ao exibidor se vale a pena manter o negócio com os preços que habitualmente se praticavam e se não correm um grande risco financeiro ao fazer sessões para meia dúzia de espectadores, que ainda serão menos se os preços das entradas aumentarem para cobrir os prejuízos de parte da sala ocupada e parte da sala vazia. Dito isto, que soluções podem ser viáveis para manter a produção, distribuição e exibição de cinema, quer seja comercial e industrial quer seja de autor? Para já, o streaming e a oferta do que já existia antes, entre estreias interrompidas e filmes que ficaram por estrear, será o cenário mais seguro e provável. Desconfinada que esteja a actividade cinematográfica, desconfinamento que pode não acompanhar ou ser compatível com o da sociedade em geral, sobretudo face a uma mais do que certa recessão económica, uma das soluções no campo da produção industrial pode passar pela concentração do capital em filmes com maior orçamento e potencial de rentabilização e por períodos mais prolongados. E, em primeiro lugar, prioridade natural para os filmes cujas rodagens foram interrompidas.

O futuro do cinema
Jack Palance é o protagonista da versão de 1979. | ©SOTTC Film Productions Ltd.

Para superar a concorrência do streaming, muito provavelmente irão ser reduzidos os períodos de protecção, aliás, cada vez mais curtos, podendo suceder com frequência as estreias simultâneas de um conjunto de filmes nas diferentes plataformas de visionamento, as que existem ou as que foram criadas para os devidos efeitos. Resta saber que filmes podem ser produzidos neste contexto e que produções podem avançar respeitando os protocolos e as regras impostas no combate ao Covid-19. Em princípio, serão aqueles que já hoje podem ser realizados com o mínimo de interacção pessoal, ou seja, aqueles que dependem cada vez mais do CGI e dos processos digitais na criação de realidades virtuais. Por exemplo, uma animação, digital ou não, pode ser produzida a partir de diversos pontos do globo, e os profissionais cujos nomes estão inscritos nos longos genéricos podem, de uma maneira geral, nem se conhecerem uns aos outros. Melhor distanciamento social não me parece existir. Por outro lado, a produção de muitos filmes de super-heróis, onde os actores, cada vez menos presentes, são uma espécie de humanóides que muitas vezes estão ali a cumprir funções inscritas num caderno de encargos que os quer como marionetas no meio de mil e um efeitos sonoros e visuais, não se distingue muito da metodologia utilizada na animação industrial.

Em resumo, se o problema do desconfinamento da produção não for resolvido ou se for para a frente mas com muitas limitações, o futuro das estreias comerciais será pouco atraente para públicos mais exigentes, mesmo que a indústria distribua generosos dividendos a quem nela quiser investir. Parece evidente que irão jogar pelo seguro e que não vão aproveitar a eventual margem de manobra financeira e, se ela for concretizada, para arriscar em mais e melhor. Esta projecção de uma possível e futura estratégia de produção industrial, assim como a distribuição e exibição no circuito comercial das salas, que de algum modo irá influenciar as plataformas digitais, não se adivinha sedutora do ponto de vista dos conteúdos. Especialmente se a aposta mais incisiva for no cinema das pseudo-ficções com criaturas de super-poderes. Mas o cinema dos blockbusters, que não precisa forçosamente de ser um repositório de mediocridade, face a uma mais do que certa segunda vaga da pandemia, acabará muito seguramente por definir as linhas gerais do principal modelo de negócio oriundo dos grandes estúdios. Por outro lado, podemos igualmente esperar uma renovação na continuidade, ou seja, o lançamento de novas versões alargadas de filmes já produzidos, sob a designação cut de qualquer coisa, seja a versão do realizador, seja até uma fan-cut. Forma hábil de com um pouco mais de dinheiro e marketing, vender o que já se vendeu antes.

Relatório Minoritário
Relatório Minoritário | © Twentieth Century Fox Film Corporation and Dreamworks LLC.

Relativamente aos festivais de cinema, nada impede que eles se realizem online, como se provou com a recente aposta do 66º Festival de Oberhausen, um dos mais antigos festivais de cinema do mundo, especializado em curtas-metragens, cujos resultados divulgados pela organização são muito interessantes. Esta experiência convocou mais de mil profissionais de cerca de setenta países. Mais de 2 500 espectadores de cerca de sessenta países compraram passes para aceder aos visionamentos, e foram mais de cem os países que receberam a programação, naturalmente contando com os acessos dos convidados já acreditados e cujas viagens foram canceladas. Só que o simples sucesso do cumprimento de um calendário de exibições e de algumas actividades conexas não justifica um luminoso entusiasmo a quem marca presença regular na cidade alemã. Pessoalmente, a sensação que me ficou foi a de missão cumprida, uma vez que os filmes passaram sem problemas de maior, foram sem dúvida preenchidas as expectactivas de um grupo de cineastas que assim não ficou privado da exposição global das suas obras mas, no final das contas, sabe a pouco. Porque um festival não se pode confundir com uma plataforma de streaming ou de VOD, e muito menos a sua componente de mercado.  Seja como for, vale a pena pensar que, no dia em que for possível encontrar as condições subjectivas e objectivas, na verdade estas últimas já existem, para organizar festivais como o de Berlim, Cannes ou Veneza multiplicando a sua programação por diversos pontos do mundo e por períodos de 24 horas num ecrã perto de nós, não digo que os profissionais ganhem muito com a inovação, mas o grande público pode muito bem beneficiar do prazer associado a uma participação activa e de maior intensidade do que o simples acompanhamento passivo da cobertura dos mesmos, na maior parte dos casos, ficando ainda com uma boa antecipação da futura oferta em matéria de distribuição e exibição cinematográfica. Muito fica por dizer, mas esta proposta de reflexão sobre o futuro da economia do cinema não se perfila só urgente como merece a nossa mais do que justificada atenção.

Precisamos de voltar ao assunto…!

Finalmente, permitam-me uma reflexão suplementar e, naturalmente, muito subjectiva: No livro The Shape of Things to Come”, H. G. Wells escreveu uma “História do Futuro”, futuro que se queria redentor, após a devastação provocada por uma crise económica, a guerra e… uma praga. Muito do livro pode ser lido hoje com perplexidade, sabendo o que se passou depois de 1933, data da publicação, e o caminho apontado para essa sociedade utópica não era necessariamente o mais radioso. Pensar e escrever sobre o futuro sempre foi uma aventura no desconhecido, não isenta de erros.

Mas, se nada fizermos e não aproveitarmos a presente crise para alterar as regras do jogo dos sistemas que até agora pavimentaram o caminho que percorremos, a estrada para o futuro irá desembocar no abismo. Mesmo que ela seja utilizada com a melhor das intenções.

João Garção Borges

(Produtor, Realizador, Programador e Crítico de Cinema)

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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