Exterminador Implacável: Destino Sombrio | © Big Picture Films

Exterminador Implacável – Destino Sombrio, em análise

Exterminador Implacável – Destino Sombrio” reinicia o programa falhado das três últimas atualizações cinematográficas, para regressar à fórmula originária do seu passado glorioso. Schwarzenegger, Hamilton e Davis recuperam o charme retro e perfume icónico da saga, convergindo numa metralhada furiosa de balas rápidas e murros anabólicos com aquela pitada de sarcasmo.

Chegou mais um “Exterminador Implacável” pensam vocês, mas olhem que não, dizemos nós. A fita de ficção científica de Tim Miller (“Deadpool”), que requisita o apoio técnico do pai de todos os Exterminadores (James Cameron), até aqui exilado do que foi o extermínio cinematográfico subsequente a T1 e T2, regressa na “Hora H” para ajudar a lavar a face do seu bebé destrutivo com a nostalgia vibrante dos seus dois primeiros clássicos. Nessa medida, este T6 infiltra-se paralelamente na estrutura formal e temporal desses respetivos enredos, derivando a sua premissa retórica num futuro alternativo ditado pelos acontecimentos ocorridos na fita de 1991. Aliás, a imagem do grande ecrã abre-se nessa analepse cronológica, num novo e surpreendente epílogo, que leva Hamilton às lágrimas por ter um duplo digitalmente rejuvenescido com a sua cara de 35, a fazer um papel que deveria ser desempenhado por ela, agora. De facto, a indústria do cinema tem vindo a “puxar por esse envelope” visual, o chamado “de-aging”, que colocou Will Smith nas bocas do mundo ao contracenar com o seu clone virtual em “Projeto Gemini”, embora aqui o efeito seja muito mais subtil e pontual, não deixa de fazer sentido numa metragem que assenta a sua história em múltiplas linhas temporais. Ademais, este Exterminador Implacável está mais focado em dar sumo às suas personagens do que em espremer toda a cor das suas laranjas, colocando a imagem artificiosa ao serviço dos intervenientes, e não o inverso.

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Exterminador Implacável: Destino Sombrio
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Dito isto, o próprio argumento, que passou de mão em mão com o estigma de poder acabar em mais um déjà vu de rabiscos esquecíveis, consegue vislumbrar novamente aquele fio condutor que impulsionou a profecia messiânica dos Connors, contra os desígnios genocidas das máquinas pela posse e destruição do nosso planeta. Desta feita, e com o propósito de encerrar satisfatoriamente o arco histórico desse carma de família, o futuro de “Exterminador Implacável – Destino Sombrio” devolve uma veteraníssima Sarah Connor (Hamilton) à nossa realidade atual – uma exterminadora “rockabilly” de exterminadores, que é apanhada pela manipulação do seu passado, perante a ameaça premente de uma nova inteligência artificial (Legião), bem como de uma suprema unidade assassina metamórfica (Rev-9), enviada para terminar a existência do próximo líder da Resistência Humana. Parece soar tudo a mais do mesmo, não é? Mas se vos disserem que John Connor já não é o alvo a abater; que o velhinho modelo “T-800” (Schwarzenegger) tem direito a descansar uns minutos no banco de suplentes; e a titularidade ofensiva recai numa mulher com amplificadores biónicos (Davis); a coisa fica mais interessante, não fica? Claro que, os mais puristas, terão toda a legitimidade em apontar o dedo às gritantes semelhanças com o guião original, que teoricamente não faz mais que trocar a aparência e nome dos ingredientes base, o que não é necessariamente mau, neste caso. Por vezes, dar um passo atrás para se dar dois passos à frente é mais benéfico do que uma total reinvenção, por isso a invocação do pedigree da velha guarda, tal como em “Star Wars: Episódio VII – O Despertar da Força”, parece cair tão bem na mood nostálgica dos fãs menos esperançosos e mais esquecidos.

Claro que, ter Cameron a filmar um Exterminador Implacável, nunca será a mesma coisa do que ter o novato Miller a dirigir o peso gigante de um trabalho alheio já respeitado e aclamado pela crítica, mas apraz-nos informar que o realizador, animador, e artista de efeitos especiais, até consegue respeitar a essência do criador, traduzindo-a com uma sobriedade notável. Não temos aquela crueza imagética destituída do grande CGI massificado de hoje em dia, que em abono da verdade, é quase sempre implementado de forma abusiva, mas Miller é capaz de agradar os olhos com uma imagem limpa e colorida, se quase cartoonish, fazendo recorrência a alguns truques de belo efeito como o “slow motion”, nas ótimas cenas coreografadas das lutas corpo a corpo. Além disso, os violentos “mano a mano” entre Grace (Davis) e o ciborgue Rev-9 (Gabriel) são dos mais realistas, eufóricos e inventivos que veremos este ano, ancorados por uma troca de olhares tão contrastante que é simplesmente galvanizador. Mas por muito que a atriz canadense nos dê de emoção naquela íris oceânica, mesmo que seja a guardiã da calorosa atriz colombiana, Reyes (Dani) – que vai buscar aquele sotaque latino da diversidade cultural presente em outros “Terminators”, não há nada que consiga confortar mais o coração do que a reunião de Hamilton e Schwarzenegger na tela maior para uma última cavalgada, ao fim de 28 anos de separação. Nem de propósito, ainda recentemente, tivemos oportunidade de os ver em “Exterminador Implacável 2: O Dia do Julgamento”, e que parelha bélica faziam os dois, enchendo-nos as medidas com os seus carismas heróicos e clichés “patéticos”. E eram essas nuances genuínas dotadas de personalidade que estavam a faltar aos “Exterminadores” pós-Cameron, e que agora são recuperadas com uma Sarah Connor corrosiva e sarcástica a fazer pandã com uma nova entidade de T-800 (Carl). É um cheirinho dos bons velhos tempos com um twist inesperado, é tudo o que podemos revelar.

Exterminador Implacável: Destino Sombrio
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“Exterminador Implacável – Destino Sombrio” leva-nos para o seu lugar comum de memórias entusiasmantes, isso é certo, que podiam desleixar-se no facilitismo do seu apelo histórico e emocional, mas, ainda assim, é capaz de nos oferecer variantes suficientes para afastarmos aquela sensação agridoce desprovida de alguma frescura. Os novos atores são competentes, os séniors são cultura pop em movimento, as cenas de ação são eletrizantes e mais terra-a-terra como eram antigamente, com a exceção de algumas extrapolações aqui e ali, e a banda sonora dos Junkie XL é potente. Há quem diga que este “Exterminador Implacável: Destino Sombrio” poderia muito bem ser o primeiro se fosse realizado hoje por James Cameron, e isso já é dizer muito, mas talvez possamos concluir que estamos perante um “reboot” feliz, que poderá ser classificado como um dos melhores “blockbusters” de 2019, e isso também já é dizer muito. Num mundo cada vez mais tecnológico e ligado em rede como o nosso, talvez este “Exterminador Implacável” faça mais sentido agora do que alguma vez tenha feito no tempo da sua criação. “Hasta La Vista, Baby!”

Exterminador Implacável - Destino Sombrio
Exterminador Implacável: Destino Sombrio

Movie title: Terminator: Dark Fate

Movie description: Linda Hamilton (“Sarah Connor”) e Arnold Schwarzenegger (“T-800”) regressam ao grande ecrã na pele das suas icónicas personagens em “Exterminador Implacável: Destino Sombrio”. Este filme, realizado por Tim Miller (Deadpool) e produzido pelos visionários cineastas James Cameron e David Ellison, conta também com Mackenzie Davis, Natalia Reyes, Gabriel Luna e Diego Boneta para contar a história após os eventos de “Exterminador Implacável 2: O Dia do Julgamento”.

Date published: 5 de November de 2019

Director(s): Tim Miller

Actor(s): Arnold Schwarzenegger, Linda Hamilton, Mackenzie Davis

Genre: Acção, Aventura, Sci-Fi

  • Miguel Simão - 75
  • Luís Telles do Amaral - 88
82

CONCLUSÃO

“Exterminador Implacável – Destino Sombrio”, com tanta verborreia cronológica que foi acumulando nas duas últimas décadas, a mais atinada foi mesmo esta, que resgatou os pesos pesados para uniformizar a anarquia de múltiplas histórias paralelas. É um recomeço conhecido, mas diferente, que no seu “core” joga pelo seguro, mas consegue simultaneamente pavimentar um rumo promissor para futuras sequelas com mais coerência e interesse. Não há aqui nada de “groundbreaking”, pese embora alguns efeitos especiais muito “cool”, mas o que faz, faz com enorme competência e sentido de responsabilidade para com uma saga que marcou gerações.

O Melhor: O regresso da parelha de sucesso Linda Hamilton e Arnold Schwarzenegger; performances competentes; efeitos especiais vistosos, mas bem doseados entre o plausível e o imaginário; resmas de ação empolgante; “script” coerente que não compromete; banda sonora dos Junkie XL bombeia adrenalina.

O Pior: Trama poderia ter resgatado mais daquela linguagem peculiar tornada “pop culture”; alguns problemas de cadência e repetição inerentes à estrutura formal dos “Terminators”; CGI com tentação de exagerar em algumas montagens visuais.

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Miguel Simão

Jurista e Poeta em algumas horas vagas. Cinéfilo incurável com forte pancada pelo sci-fi, que se perde algures pelo vício noturno de umas quantas séries televisivas de renome; amaldiçoado pelo perfecionismo estético de uma resma de palavras mais ou menos caras. Podem encontrar-me a divagar entre a Terra e o Espaço no meu blogue premiado Última Transmissão Humana.

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