"Extra Ordinary" | © MOTELX

MOTELx ’19 | Extra Ordinary, em análise

Extra Ordinary” é uma fantasiosa comédia irlandesa que mescla loucuras sobrenaturais com a casualidade do corriqueiro e quotidiano. O filme está em competição no MOTELX.

Tal como o seu título indica, “Extra Ordinary” é um filme construído em volta de uma proximidade paradoxal entre o que é normal, corriqueiro e até enfadonho em relação ao que é extraordinário. Por outras palavras, esta é uma comédia onde as situações mais insólitas e fantasiosas são encaradas como uma ligeira paródia sobre a vida quotidiana de pessoas vulgares. Afinal, há muito humor a ser minado na fricção entre duas tonalidades cinematográficas aparentemente antagónicas. Ver uma possessão demoníaca ser filmada como uma inconveniência excêntrica tem o seu quê de absurdo e de hilariante também.

Toda esta insanidade cómica centra-se em Rose, uma amável instrutora de condução que esconde um segredo negro e muito pouco secreto. Ela consegue comunicar com os mortos e inclusive tem poderes que lhe permitem ajudar os espíritos a transitar para o que vem depois desta existência terrena. O seu pai tinha talentos semelhantes e os dois trabalharam juntos durante a infância dela. Contudo, tudo mudou quando, um dia, acasos da vida e uns quantos acidentes inocentes resultaram na morte do patriarca. Desde então, Rose tem rejeitado os seus poderes, mas a comunidade em que vive, na Irlanda, ainda a assedia com constantes pedidos de ajuda.

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© MOTELX

É através de um desses pedidos, que Martin Martin chega à vida de Rose. Ele é um pai enviuvado que sofre o abuso diário do espírito rancoroso da sua falecida esposa e, devido à pressão da filha adolescente, decidiu pedir ajuda à médium relutante. Encantada pelo charme meio pateta do viúvo e sedenta por alguma atenção romântica, Rose lá o tenta ajudar, mas tudo se complica quando o pacto de uma celebridade local com o Diabo põe a vida da filha de Martin em risco. Este filme pode brincar com o contraste entre fantasia e normalidade, mas o seu guião é absolutamente doido.

Christian Winter é um cantor americano que, nos anos 80, se mudou para a Irlanda e aí conseguiu produzir um single de sucesso. Infelizmente, depois desse triunfo, a carreira entrou em declínio e agora ele tem de se virar para a magia negra se quer voltar a ter um sucesso musical. Seguindo as instruções de um livro de ritos satânicos e com a ajuda de um cajado fálico, ele encontra uma virgem para sacrificar aos demónios do submundo em troco da fama e do dinheiro. Para azar de Winter, a virgem em questão é a filha de Martin e Rose fará tudo para parar o seu esquema demoníaco, inclusive caçar fantasmas em busca de ectoplasma vomitado para bloquear a magia do cantor.

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Há uma certa beleza tanto na excentricidade como na eficácia estrutural do argumento escrito por Mike Ahern e Enda Loughman. As personagens são simples e bem definidas, as suas relações claras e quase arquetípicas no contexto da comédia britânica e irlandesa. A estrutura, por seu lado, é feita de três atos bem delineados, com o do meio a ser constituído por um ciclo repetitivo de cenas episódicas marcadas, a meio, por um ponto de conflito e viragem emocional. Trata-se do tipo de trabalho que seria ensinado em escolas de cinema, não fosse a natureza meio obscura do filme e as suas tentativas meio catastróficas de mesclar tipos de humor muito diferentes.

Na verdade, esse cocktail de estilos humorísticos em colisão é perfeitamente exemplificado pelos seus três protagonistas. Rose e Martin parecem pertencer a um filme sardónico e amistoso, enquanto Winter está algures numa paródia muito menos subtil ou ancorada pela realidade quotidiana. Não são só as personagens, enquanto parte do argumento, que definem tais contrastes, mas também os atores. Como Rose, Maeve Higgins é um triunfo de charme cómico refratado por angústias dramáticas. Ela é uma personagem tridimensional que tanto nos encanta como nos faz rir e parece alguém que facilmente conheceríamos no nosso dia-a-dia. A não ser, é claro, no que se refere à sua capacidade de comunicar com os mortos.

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No papel do absurdamente batizado Martin Martin, Barry Ward é, de longe, a maior qualidade do filme. Ele pode não possuir os mesmos talentos cómicos de Higgins, mas compensa isso com um perfeito domínio das exigências tonais de “Extra Ordinary”. Nas suas mãos, uma personagem que podia ser ora patética ou cartoonesca, torna-se num homem de carne e osso, com problemas matrimoniais que transcendem as leis da natureza e uma nova oportunidade de encontrar o amor. Tudo isso e tem de salvar a filha de demónios que a querem consumir. Até quando está possuído por fantasmas aleatórios, Ward consegue evitar que o filme se torne numa paródia à la SNL e por isso temos de o aplaudir.

Por falar nisso, Will Forte é um veterano do SNL e é ele quem mais destabiliza o equilíbrio tonal do filme. O ator interpreta Winter como um ser completamente desconexo de quaisquer considerações sobre comportamento humano realista. Por um lado, isto sublinha a qualidade de Ward como um forasteiro deslocado da sua zona de conforto, efetivamente tornando o conflito entre comédia irlandesa e humor americano num dos temas do filme. Por outro, isto dá à obra uma qualidade meio inconsistente. Verdade seja dita, sempre que temos de deixar as outras personagens para ver o cantor desesperado, é como se o filme perdesse energia e se fosse abaixo. Aliás, iríamos ao limite de dizer que uma comédia romântica convencional somente em volta de Higgins e Ward era capaz de ser bem melhor que “Extra Ordinary”, não obstante os seus consideráveis charmes.

Extra Ordinary, em análise
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Movie title: Extra Ordinary

Date published: 2019-09-15

Director(s): Mike Ahern, Enda Loughman

Actor(s): Maeve Higgins, Barry Ward, Will Forte, Claudia O'Doherty, Jamie Beamish, Terri Chandler, Risteard Cooper, Emma Coleman, Carrie Crowley

Genre: Comédia, Fantasia, Terror, 2019, 94 min

  • Cláudio Alves - 73
73

CONCLUSÃO:

Cheio de referências visuais a clássicos de terror e um humor sardónico muito irlandês, “Extra Ordinary” é uma charmosa proposta de comédia tingida pelos mecanismos e iconografia do terror. O desequilíbrio tonal entre os três protagonistas é o que mais prejudica o filme. No entanto, Maeve Higgins e Barry Ward são exemplares.

O MELHOR: Como já muito dissemos, Higgins e Ward são fantásticos e as cenas que partilham são as melhores do filme.

O PIOR: O exagero de Will Forte e da sua personagem.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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