"Faz-me Companhia" | © MOTELX

MOTELx ’19 | Faz-me Companhia, em análise

Faz-me Companhia”, de Gonçalo Almeida, é uma produção portuguesa na competição para Melhor Longa-Metragem Europeia do MOTELX deste ano.

Por vezes, quando algo terrível acontece, quando fazemos algo irreversível ou uma grande desgraça se abate sobre aqueles que amamos, há um desejo de acordar. Não era melhor se toda a infelicidade fosse um pesadelo e que estes males não tivessem consequências? Raramente, o desejo é cumprido e damos por nós num emaranhado de lençóis e suores frios, com o coração palpitante e um rasgo de alívio a passar pelo espírito. Na maioria dos casos, contudo, a realidade que vivemos não é uma fantasia sonhada. Tudo pode estar coberto pela pátina do pesadelo lúcido, mas há que encarar a realidade e seguir em frente. A alternativa, é ficar paralisado no desejo de um acordar que nunca virá.

Num dos seus gestos mais marcantes e finais, “Faz-me Companhia” mostra-nos este mesmo desejo em manifestação suplicante. Vemos a negação do real e a angustiada realização que o horror que acabou de ocorrer não se vai esfumar como um sonho mal lembrado. Trata-se do melhor momento no trabalho da atriz Cleia Almeida cuja personagem está sempre na corda bamba entre o concreto e a abstração. Certamente, quando o filme acaba, sabemos muito sobre ela, mas o realizador Gonçalo Almeida prefere sugerir do que explicar, prefere fazer do filme uma impressão mais do que um retrato. Tal abordagem funciona tanto para benefício como prejuízo para a totalidade do projeto.

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Se tudo acaba com um pesadelo de onde é impossível acordar, tudo começa com a fuga da realidade em direção ao sonho. O filme começa com Sílvia a guiar em direção a sul, onde terá arrendado uma casa para passar um fim-de-semana romântico. Ela está grávida de um homem que não ama e guia para se encontrar com Clara, sua amante e uma mulher mais nova que é atriz de profissão. Tirando estas duas mulheres, só mesmo a voz desconfiada da proprietária da casa marca outra presença humana. Duas mulheres incrivelmente diferentes, mas aparentemente apaixonadas, uma casa de férias, uma piscina e muita tensão. Assim se estabelecem os elementos principais de “Faz-me Companhia”.

Sílvia é a primeira que vemos e a que primeiro chega à casa, com o sol ainda no céu. É através dos seus olhos que conhecemos o espaço com paredes brancas e decoração simples, quase anónima. Este é um espaço impessoal, um ponto de passagem que existe distante, tanto em termos geográficos como simbólicos, das complicações do mundo exterior. No meio de tudo isso, é a piscina nas traseiras da casa que nos chama mais a atenção, especialmente pelo ruído que os seus filtros e bombas mecânicas fazem. Mesmo descontando a amorfia sintetizada da banda-sonora musical, já “Faz-me Companhia” seria uma experiência embalada pela indefinição sónica dessa piscina.

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Zona de lazer e de refresco, de sedução e confronto, de sonho e pesadelo, a piscina tornar-se-á no palco principal do drama humano, mas antes que isso se possa registar, há que marcar a chegada da nossa segunda protagonista. Depois de vermos Sílvia a se arranjar em dissolves sucessivos tingidos de vermelho sanguíneo, Clara finalmente chega à casa. Sem uma única palavra ser dita, o contraste entre as duas amantes é imediato. A diferença de idades não é enorme, mas sentida, o estilo da atriz é a pretensão de uma aspirante a boémia e a futura mãe é uma visão de aprumação burguesa. Diz-se que os opostos se atraem, mas manter essa atração viva não é fácil depois do primeiro contacto fogoso. Sílvia e Clara são prova disso mesmo.

Entre Cleia Almeida, como Sílvia, e Filipa Areoso, como Clara, há pouca química, mas isso até funciona para nos dar ideia do estado atual da relação das personagens. Em tempos, elas podem ter sido amantes próximas. No entanto, aquando destas miniférias há mais ressentimentos que paixão entre as duas mulheres. Denotamos as marcas da intimidade nos seus gestos e ações, nos seus diálogos e atividades, só que elas parecem sempre estar a interpretar um guião social em que já não acreditam. Muito antes da loucura despoletar revelações dolorosas, já sabemos que esta união tem os dias contados e, mais do que um filme de terror, “Faz-me Companhia” é uma exposição dos sinais de podridão no cadáver de uma relação sem vida.

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Até o modo como os mecanismos do terror afetam as personagens sublinha a dissonância do casal. Sílvia é atormentada por pesadelos durante a noite, como que atraída por uma qualquer malignidade que habita na sala das máquinas da piscina. Clara, pelo contrário, não se recorda sequer dos seus movimentos noturnos, quanto muito de um sonho inquietante. Pelo contrário, a mulher mais nova é atormentada por gritos inaudíveis tanto para Sílvia como para a audiência. Os sons vêm da piscina e vão levando Clara ao desespero e à loucura.

Gonçalo Almeida não se deixa levar pela indulgência do género de terror, preferindo criar angústia através de acontecimentos corriqueiros. Sangue do nariz, ruídos mecânicos estranhos e pesadelos inofensivos, tornam-se no combustível da discórdia quando filtrados pela paranoia de duas mulheres presas numa casa e numa relação que lhes está a envenenar o espírito. O drama não é muito intenso, é o sussurro e não o grito, mas vai lentamente asfixiando o espectador. A música embala e as imagens belissimamente flimadas encantam o olho, indo hipnotizando a audiência que, tal como as personagens, é levada a ficar num estado de incerteza. Afinal, “Faz-me Companhia” é um pesadelo ou é um sonho, é devaneio onírico ou é realidade? Quando a resposta final chega, já é tarde demais para fugir e para acordar.

Faz-me Companhia, em análise
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Movie title: Faz-me Companhia

Date published: 2019-09-15

Director(s): Gonçalo Almeida

Actor(s): Cleia Almeida, Filipa Areosa, Eunice Muñoz, Helena Simões

Genre: Mistério, Terror, 2019, 88 min

  • Cláudio Alves - 75
75

CONCLUSÃO:

Com fotografia primorosa, uma paisagem sonora amorfa e abafada, uma montagem lânguida e ritmos sonolentos, “Faz-me Companhia” que, dependendo de quem o vê, poderá ser ora soporífero ora intrigante. O filme segue o exemplo de muitas outras obras do terror e conflagra um drama romântico com o advento do sobrenatural. Pode não ser o cúmulo da originalidade, mas é eficaz.

O MELHOR: O gesto angustiado de quem quer acordar, mas não acorda.

O PIOR: O modo como o filme telegrafa seus temas e principais escolhas estéticas através de uma conversa sobre sonhos lúcidos.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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