Zac Efron e Lily Collins

Extremamente Perverso, Escandalosamente Cruel e Vil, em análise

“Extremamente Perverso, Escandalosamente Cruel e Vil” apresenta-nos parte da história do infame serial killer, Ted Bundy, através dos olhos da mulher que o amou.

Após ter sido, de uma forma geral, bem recebido pela crítica aquando a estreia mundial no Sundance Film Festival, “Extremamente Perverso, Escandalosamente Cruel e Vil” chega agora às salas de cinema portugueses. Adquirido pela Netflix, o que não é de estranhar tendo em conta a aposta neste tipo de conteúdo por parte do gigante do streaming, o filme, em formato docu-drama, traz-nos a visão da mulher que amou Ted Bundy, papel desempenhado por Zac Efron.

Certamente que já terás ouvido falar no infame serial killer que deixou um rasto de mais de 30 vítimas, das quais apenas admitiu 28, nos Estados Unidos, na década de 70. No entanto, se vais com a ideia de ver Bundy em ação, avisamos desde já que não é esse o caso. A versão cinematográfica de Joe Berlinger, reconhecido pela sua veia documental, é baseada na autobiografia “The Phantom Prince: My Life with Ted Bundy, Extremely Wicked” da autoria da namorada do assassino, Elizabeth Kendall, na altura Kloepfer, interpretada por Lily Collins. Por conseguinte, o filme incide no período em que Ted Bundy já se encontrava preso, oscilando entre os vários julgamentos, até à cadeira elétrica. Isto claro, com nuances do seu namoro, mas sempre enquanto breves apontamentos.

Extremamente perverso, Escandalosamente Cruel e Vil
Lily Collins dá vida a Elizabeth Kloepfer, a mulher que amou Ted Bundy

O docu-drama abre com Bundy na prisão da Florida, a sua última morada, em frente a Elizabeth (Liz), numa sala de visita, separados por um vidro. De repente, recuamos até 1969, altura em que o casal se conheceu. Observamos como o serial killer seduziu a mãe divorciada e como esta lhe deu acesso imediato à sua casa e à sua vida. Tal como as suas vítimas, também Liz reconhece a capacidade penetrante de Ted, admitindo que não seria difícil uma mulher confiar nele. Mas, para além do seu charme, está documentado que Bundy utilizava ocasionalmente gesso no braço para ganhar mais facilmente a confiança das suas vítimas.

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Independentemente da sua via de sedução, o infame Ted Bundy é precisamente descrito como um cavalheiro charmoso dotado de uma perversão inimaginável. É nesta dualidade que Efron brilha. O jovem ator, normalmente associado a personagens menos densas, consegue surpreender-nos e captar a nossa atenção ao longo dos 108 minutos de “Extremamente Perverso, Escandalosamente Cruel e Vil.” Foram várias as vezes em que demos por nós a pensar se Bundy poderia, na mais remota das hipóteses, estar de fato inocente, precisamente por Efron ter conseguido dominar com mestria a sua ‘arte’ de ilusão.

A sua prestação é o nítido retrato do quão vil, calculista e perverso Ted Bundy era, mesmo em situações quotidianas com Liz. Exemplo disso, é a cena em que Bundy dorme pela primeira vez em casa de Liz, e esta acorda com o mesmo a dar pequeno-almoço à filha segurando uma faca de cozinha na mão. Claro que o próprio espetador tende a suster a respiração, expirando quando Efron mostra o lado encantador do serial killer, que aparentemente estava apenas a preparar uma inocente refeição. Mas é impossível não reparar no olhar inicial que este lança à nova namorada aquando a sua entrada na cozinha. Acaba por ser irónico como esta personagem ilustra o que, por vezes, acontece com o próprio Efron: nunca julgues um livro pela capa, ou, se preferires, as aparências iludem. Certo que, no caso do ator, este ditado é referido no bom sentido.

Extremamente Perverso, Escandalosamente Cruel e Vil
Zac Efron tem aqui a sua melhor prestação até à data

Paralelamente à narrativa de Ted Bundy, acompanhamos o percurso de Liz, que afirmava que “ele foi sempre bom comigo.” Apesar da divorciada ter sido uma das primeiras a denunciar o assassino à polícia, Liz foi incapaz de o deixar de amar. Collins tem então o desafio de interpretar uma mulher introvertida, mas que ao mesmo tempo teve a coragem de fazer a dita chama, algo que inicialmente se tornou um fardo e que deu origem ao seu alcoolismo. Ela acompanha os julgamentos iniciais de Bundy, parecendo não acreditar completamente na dita inocência do namorado. Porém, mesmo quando se tenta convencer de que poderá ser verdade e pára de ir aos tribunais, Liz nunca deixa de dormir com o telefone ao lado aguardando a chamada de Ted. Na verdade, este é um papel em que não estranhamos ver Collins, ao contrário do seu co-protagonista. Ainda assim, a atriz consegue retratar a ambiguidade e sentimento de culpa que perseguiu Elizabeth Kloepfer durante quase 20 anos e que culmina com a cena de abertura/fecho do filme: o confronto com o infame serial killer.

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Além de Liz, Bundy teve uma segunda ligação amorosa com uma antiga amiga, Carole Anne Boone, que nutria uma estranha obsessão pelo assassino. Aliás a primeira vez que a conhecemos na adaptação, é quando o casal ainda se encontrava junto à procura de um cão. Mais tarde vimos a saber que Carole seguia Bundy à procura da sua oportunidade, antes de o mesmo ser acusado. No entanto, no caso desta, acreditamos que tal fator não tivesse grande importância, uma vez que ambos aprofundaram a sua relação, que incluiu um casamento em pleno tribunal e uma filha, durante a prisão e julgamento do serial killer. Carole deixa-se levar nos esquemas de Bundy, quase que orgulhosa por ter sido ‘escolhida,’ não se apercebendo de que não passa de um mero peão no xadrez mental do famoso assassino. Kaya Scodelario dá vida a Carole Anne, conquistando aqui a sua oportunidade de se distanciar das personagens juvenis que tem interpretado nos últimos filmes.

Extremamente perverso, Escandalosamente Cruel e Vil
Kaya Scodelario desempenha o papel da mãe da única filha de Ted Bundy, Rose

De uma forma geral, enquanto uma nova produção, o guião adaptado por Michael Werwie não acrescenta propriamente muito à história de Ted Bundy. Contudo não podemos menosprezar o talento da realização de Berlinger no que toca à combinação de técnicas documentais com uma realização mais mainstream. A comparação entre as gravações reais, que vemos nos créditos finais do filme, e a versão cinematográfica são assustadoramente idênticas. Principalmente quando entramos nas cenas decorridas no tribunal da Florida, em que somos brindados pela presença de John Malkovich, enquanto o juiz que em 1979 condenou à pena da morte o jovem serial killer de então 33 anos.

O julgamento fez história por ter sido o primeiro a ser transmitido em direto na televisão norte-americana, onde Bundy atuava diretamente para as câmaras, dando o ar da sua perversa graça enquanto advogado de si próprio. Esta é não só a altura mais hilariante e sarcástica do filme, como também a apoteose de Efron, desencadeando algumas das melhores cenas de “Extremamente Perverso, Escandalosamente Cruel e Vil.”

Certamente que quem não conhecer Theodore Robert Bundy, o melhor será ver a outra produção do cineasta “Conversations with a Killer: The Ted Bundy Tapes,” também disponível na Netflix. Independentemente de estarmos a par dos fatos ou não, “Extremamente Perverso, Escandalosamente Cruel e Vil” não deixa de ser perversamente interessante.

Extremamente Perverso, Escandalosamente Cruel e Vil, em análise
Extremamente Perverso, Escandalosamente Cruel e Vil

Movie title: Extremely Wicked, Shockingly Evil and Vile

Date published: 2019-05-16

Director(s): Joe Berlinger

Actor(s): Lily Collins , Zac Efron,, Angela Sarafyan, Sydney Vollmer, Macie Carmosino, Ava Inman, Morgan Pyle, James Hetfield, Richard K. Jones, Justin Inman,, Grace Victoria Cox, Alan B. Jones

Genre: Biografia, Crime, Thriller

  • Inês Serra - 65
65

CONCLUSÃO:

"Extremamente Perverso, Escandalosamente Cruel e Vil" não acrescenta nada de novo à história do infame serial killer, mas dá sem dúvida uma oportunidade dourada a Zac Efron, que suporta o filme do início ao fim.

O MELHOR: Zac Efron. As cenas entre Efron e John Malkovich.

O PIOR: Quem espera ver a faceta perversa, cruel e vil do assassino poderá sair bastante desiludido da sala de cinema. Ainda assim, mesmo não contendo essa parte, o argumento poderia ter sido melhor explorado. As audiências que não conheçam com algum detalhe a história de Ted Bundy, poderão sentir-se algo perdidas em determinados momentos do filme.

IS

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Inês Serra

Cresci a ir ao cinema, filha de pais que iam a sessões duplas...Será genético? Devoro livros e algumas séries. Fã incondicional do fantástico e do sci-fi. Gostaria de viver todos os dias com o mote Spielbergiano - "I dream for a living"

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