"Pebbles" | © FEST

FEST ’21 | Pebbles, em análise

“Pebbles” do indiano P.S. Vinothraj ganhou o Tigre de Ouro no Festival de Roterdão deste ano. O filme chegou finalmente a Portugal por meio do FEST 2021 em Espinho, onde competiu pelo prémio Lince de Ouro. O festival portugês tem agora uma extensão na plataforma FILMIN.

Algures na Índia, numa paisagem árida e montanhosa, um inferno inóspito onde parece que nenhuma vida jamais conseguiria subsistir, encontramos uma família. Cada membro está magro de tal modo que, olhando para a sua pessoa, é impossível não ser possuído pela ideia da fome esfaimada. De facto, tão intensa é essa lazeira que tudo na terra se afigura como uma possível fonte de salvação. Perscrutando o chão, eles descobrem uns buracos no solo seco, pequenas escavações que facilmente passariam desapercebidas a uma vista ligeira. Os predadores subnutridos descobriram a presa.

Com ervas ressequidas e uma faísca sortuda, faz-se fogo e dele brota fumo, branco e sufocante. Assim se monta uma armadilha, uma força que leva pequenos ratos de campo a fugirem desesperadamente da toca, tentando escapulir-se à asfixia. Sem hipótese de liberdade, todos os bichos são apanhados e prontamente condenados à chacina. Mortos sem grande alarido e decepados por galhos que estavam à mão, os animais servem de refeição, assados sobre chamas que não devem estar muito mais quentes que o sol abrasador que sobre toda a cena se abate.

pebbles critica fest 2021
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Não há aqui magia do cinema para esconder a brutalidade da sobrevivência em tempos de necessidade. De facto, nem há um impulso de julgamento, censura ou qualquer outra consideração negativa sobre estas pessoas. Simplesmente se documenta a humanidade em crise, faminta ao ponto de que até um esquelético rato é manjar dos deuses. Só que a vida, mesmo dos mais despojados, não é feita só de dor. O realizador de “Pebbles” percebe isso e, num dos seus gestos mais misericordiosos, deixa que personagens e espetadores se percam na plenitude da maravilha infantil.

A menina mais nova nesse clã da fome divaga pela terra seca em busca de distração e a câmara segue-a nessa missão inglória. Até aqui, a fotografia digital pouco fez para embelezar o mundo das personagens, salientando a violência da natureza sobre a gente que por ela passa. Contudo, neste singelo momento, algo muda. Quando a menina se depara com algumas plantas verdes, afigura-se uma variação do seu suplício. Colhendo seus tesouros, a menina enche os braços com sementes aladas e, por fim, atira-as ao ar. Repentinamente, o registo realista da fita eleva-se ao sublime. Num minuto que se arrasta com doçura, vemos as plantinhas a girarem como helicópteros e partilhamos o júbilo da criança.

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Tudo isto que descrevemos é uma parte bem menor de “Pebbles”, uma espécie de narrativa paralela que só esporadicamente se entrelaça com a ação principal. Dito isto, são estes desvios que dão autenticidade à obra e é deles que desabrocham as suas maiores maravilhas. Em jeito de fim, testemunharemos outro salto para fora da esfera dos protagonistas, quando a espera por um vaso cheio de água tem que servir como conclusão poética. Assim se encontra lirismo na vida dura, assim se faz cinema sobre a miséria sem cair no erro da exploração pornográfica. Apesar de este ser o primeiro filme de P.S. Vinothraj, o realizador evidencia-se como um nome a seguir.

Mas, com essas variações já despachadas, que mais sobra de “Pebbles”? O que fica é uma história que, na sua simplicidade, ganha proporções quase religiosas, como se fosse uma história antiga passada de boca em boca como um mito, uma moral que acautela o ouvinte. Trata-se de um retrato da raiva patriarcal de um homem ressentido com aqueles que um dia disse amar. Alcoólico e violento, Ganapathy é um poço de suspeita fermentada até se tornar paranoia. Ele está convicto que a esposa o quer deixar e, irado, decidiu ir confrontá-la com o filho dos dois de atrelado.

pebbles critica fest 2021
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Arrastando o menino para fora da escola, os dois atravessam a paisagem de autocarro, visitando os sogros e cunhados. No veículo, o caos explode e começamos a entender as texturas agrestes do cosmos cinematográfico. Pressentimos um mural da sociedade que se constrói através de sinédoques humanas, vislumbres de uma senhora que antecipa a rixa entre homens suados, a troca de dinheiro constante, a dor nos pés que caminham descalços sobre a rocha afiada. Quando a confrontação desejada não se manifesta, a viagem inversa tem início, mas, na tentativa de salvar a mãe, o filho rasga os bilhetes e força a caminhada a estender-se até proporções insuportáveis.

Nesse sentido, “Pebbles” é um píncaro de simplicidade. Basicamente, compõe-se por dois movimentos horizontais a atravessar a paisagem, acompanhando os olhos das personagens à medida que elas se vão distraindo e apanhando momentos alheios, janelas abertas para as vidas complicadas de outros. Até a própria construção dos takes salienta este compasso rítmico, partindo a duração da fita em fragmentos sem cortes, gestos contínuos e intocados pela montagem. Há uma qualidade quase minimalista no engenho, mas o que mais espanta é a ideia de fisicalidade e de uma realidade material que Vinothraj, o calor e a sede, a dor de mexer as pernas quando os músculos gritam para que paremos. “Pebbles” é por isso um filme duro, um trabalho que produz reações físicas e que, no meio de todo esse suplício, encontra oportunidades para o êxtase total.

Pebbles, em análise
pebbles critica fest 2021

Movie title: Koozhangal

Date published: 18 de October de 2021

Director(s): P.S. Vinothraj

Actor(s): Chellapandi, Karuththadaiyaan

Genre: Drama, 2021, 75 min

  • Cláudio Alves - 75
75

CONCLUSÃO:

O primeiro filme de P.S. Vinothraj é uma visão deprimente do mundo com variação suficiente para evitar o niilismo. Pelo final, até podemos sentir um raio de esperança. É claro que, como muita coisa em “Pebbles” essa sensação pode não passar de um rasgo de inocência infantil.

O MELHOR: Os movimentos horizontais, o instante em que se rasgam os bilhetes, as sementes aladas, um reflexo dançante e o salpicar da água no deserto.

O PIOR: Por muito bem que a fotografia digital funcione, há problemas de resolução que afetam todo o filme e mancham a estratégia estética do realizador. É um claro problema de orçamento, mas não podemos deixar de o apontar. A feiura mostra ambição tonal, só que também acaba por carregar em demasia nas vertentes desesperantes do projeto.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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