"Zero Fucks Given" | © FEST

FEST ’21 | Zero Fucks Given, em análise

“Zero Fucks Given”, também conhecido como “Rien à foutre”, é uma longa-metragem francesa protagonizada por Adèle Exarchopoulos. A obra estreou no Festival de Cannes antes de passar no FEST 2021 em Espinho, onde competiu pelo Lince de Ouro. O festival português tem extensão online na FILMIN.

No mundo em que vivemos, todos somos prisioneiros de sistemas desumanos que veem cada pessoa como uma engrenagem, ora consumidor ou produtor de capital. Dependendo do contexto, essas crises existenciais são mais ou menos sentidas. Em certas situações, é impossível desviar os olhos da verdade e a mente assim mergulha no desespero de quem se sente explorado, objetificado, enclausurado numa prisão invisível. “Zero Fucks Given” explora esse mesmo sentimento, partindo de um estudo de personagem naturalista que, gradualmente, descasca as camadas de miséria na vida de uma hospedeira.

A protagonista é Cassandre que trabalha para uma pequena companhia aérea que dá pelo nome de Wing. Obviamente, os realizadores Julie Lecoustre e Emmanuel Marre estão a fazer referência à Ryanair sem apontarem o dedo diretamente. Desde os uniformes aos esquemas cromáticos e logótipos, o espectro dessa empresa irlandesa atormenta “Zero Fucks Given”. A certa medida, a combinação garrida de azul e amarelo quase parece gozar com as pessoas que assim se fardam, seu desespero contrastado com uma paleta primária. Indo além da estética e considerando as greves e várias histórias sobre o tratamento indevido de seus trabalhadores, não admira que o filme tenha usado esse modelo para conceber uma crítica sociopolítica.

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Enfim, durante a primeira metade da fita, o que nos ocupa o ecrã é o dia-a-dia monótono de Cassandre, sua vida entre países, sempre em transição e desprovida de um lar fixo. Observamos o trabalho, o modo como a qualidade de cada hospedeira é contado pelas suas vendas, como a companhia as trata em modo de robots. De facto, ficamos com a certeza de que, se a Wing do filme conseguisse substituir as pessoas por máquinas, assim o faria sem hesitação. Mais do que isso, familiarizamo-nos com o peso das horas de trabalho, com a desconexão que atormenta Cassandre e suas colegas em perpétua deslocação.

Quando o contrato temporário termina, ao invés de seguir a vontade instantânea, ela deixa-se levar pelas melífluas palavras da companhia. Assim, faz treino para a promoção, para um trabalho de supervisão que põe a nu quão humanidade e capitalismo são incompatíveis no cosmos viador da Wing. Antes de a desgraça se abater, consequência de um gesto de empatia, já o filme pinta o processo formativo como um pesadelo a esbarrar no terror. Uma sequência inesquecível foca a câmara nos homens e mulheres que praticam sorrir sem quebrar a expressão, espasmos faciais e ondas de emoção a revelarem a pessoa por detrás da máscara.

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Para Cassandre, o sorriso não é fácil de esgalhar e parte da magia de “Zero Fucks Given” é o ritmo languido pelo qual descobrimos as razões para tal. Em cenas iniciais, é fácil pressentir a sombra da depressão na jovem apática. Quando ela fala sobre sonhos de uma vida jet-set, tudo é dito com uma indiferença atroz. Mais tarde, essa aura lobotomizadas precipita-se numa busca desesperada por intimidades efémeras, casos de uma noite combinados por telefone, sexo como veículo para sentir algo e, por momentos, esquecer a anestesia de viver. No entanto, uma chamada inesperada, acaba por iluminar certas fontes da mágoa.

Não são só as companhias aéreas que renegam a humanidade pelo seu engenho do capital. Também operadoras telefónicas só encaram a pessoa enquanto fonte de lucro, assediando a hospedeira sobre uma conta por pagar. Pertencia a dívida a uma mãe que morreu e cujo contrato não foi terminado com o óbito. Até a sete palmos de terra, há quem queira esvair dinheiro de todo o corpo humano. Nesse instante, percebemos que Cassandre está de facto rendida a uma perpétua locomoção e que o emprego é como que castigo autoimposto, uma chance para fugir eternamente. A ironia cruel é que é esse mesmo trabalho que a repudia e leva a confrontar a família no luto.

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A segunda metade de “Zero Fucks Given” é mais transparente e clara que a primeira, seus propósitos dramatúrgicos tornando-se mais evidentes ao mesmo tempo que os ritmos repetitivos do avião são trocados pelo nervosismo de um jantar entre familiares rudes. No papel principal, Adèle Exarchopoulos concebe uma das suas caracterizações mais acutilantes, deixando-se mortificar por sistemas vilanescos, sem cara e sem nome. Fados da perda e fardos do trabalho levam à exaustão. Tais horrores são personificados pela atriz, pelo modo como a sua Cassandre negoceia os limites do controlo num mundo definido por mantras corporativos e as tautologias dos bons costumes, mesmo face à morte materna.

Tudo isto nos traz ao final, uma conclusão inconclusiva que recusa a catarse do espetador e da personagem. Quando a fuga sem rumo parecia ter chegado ao fim, uma entrevista no Zoom abre portas a nova autoaniquilação pelo meio profissional. Num paraíso terreno onde fontes cantam e a voz de Lady Gaga dá boas-vindas a um Ano Novo, pressentimos os inícios de uma crise mundial nas máscaras que cobrem rostos. Mais importante ainda, sentimos um ciclo vicioso fechar-se sobre a heroína infeliz de “Zero Fucks Given”. Queremos chorar, mas, hipnotizados pelo filme, só conseguimos sentir o vazio que escoria a alma de Cassandre. Nós somos ela nesse instante, renegados a uma realidade injusta.

Zero Fucks Given, em análise
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Movie title: Rien à foutre

Date published: 18 de October de 2021

Director(s): Julie Lecoustre, Emmanuel Marre

Actor(s): Adèle Exarchopoulos, Jean-Benoît Ugeux, Jonathan Sawdon, Mara Taquin, Alexandre Perrier, Arthur Egloff, Erwan Maillot, Gilles Alexandre Bussutil

Genre: Drama, Comédia, 2021, 110 min

  • Cláudio Alves - 85
85

CONCLUSÃO:

Orientando sua primeira longa-metragem em torno do olhar cansado de Adèle Exarchopoulos, Julie Lecoustre e Emmanuel Marre constroem um poderoso drama humano em “Zero Fucks Given”. Perscrutando a vida difícil de uma hospedeira, os cineastas comentam as injustiças sistémicas de um mundo contemporâneo onde o indivíduo é reduzido a números e onde a empatia é má para o negócio.

O MELHOR: A crítica socioeconómica patente no estudo de personagem. O ataque às práticas laborais da Ryanair. A prestação da atriz principal.

O PIOR: O filme é intencionalmente repetitivo, mas esse mecanismo é capaz de irritar muitos espetadores. Além disso, apesar da estratégia justificada, admitimos que, com quase duas horas, “Zero Fucks Given” é comprido demais

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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