"Turno da Noite˝ | © NOS Audiovisuais

Festa do Cinema Francês ’22 | Turno da Noite, em análise

Na Festa do Cinema Francês, o programa Segunda Chance dedica-se a trazer de volta aos ecrãs algumas das obras gálicas que agraciaram as salas portuguesas nos últimos meses. Apela-se assim à redescoberta e reavaliação, a novas oportunidades de descobrir valor nesses filmes que podemos ter ignorado no passado recente. Um dos primeiros títulos a desfrutar desta segunda chance foi “Turno da Noite,” também conhecido como “Police.” Originalmente estreado na Berlinale, o filme realizado por Anne Fontaine conta com Virginie Efira, Omar Sy, Grégory Gadebois e Payman Maadi nos papéis principais.

No cinema de Anne Fontaine, a perspetiva pela qual se observa a ação faz toda a diferença, assumindo-se como a raison d’être por detrás de alguns dos seus melhores projetos. Mesmo quando fracassam, os seus filmes primam pela tentativa de encarar narrativas cansadas através de novos prismas. Pensemos no conto-de-fadas retorcido pela modernidade feminina em “Branca Como a Neve,” o romance Flaubert repensado em “Gemma Bovery,” ou a Segunda Guerra Mundial reexaminada no rescaldo da violência sexual. Nas suas melhores passagens, “Turno da Noite” segue um modelo semelhante, antes de cair na convenção em atos finais.

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Em termos gerais, o filme relata um dia na vida de três agentes da polícia parisiense – Virginie, Aristide e Erik. Ela acabou de ser mãe e resguarda-se no trabalho para fugir aos suplícios domésticos. Vislumbres da sua rotina matinal denunciam a disfunção familiar, um matrimónio moribundo para o qual o nascimento de um bebé veio servir de prego final no caixão. A complicar a situação está um caso adúltero com Aristide, envolvimento que veio culminar numa gravidez indesejada que Virginie há pouco descobriu. Seria fácil desenrolar a trama da figura num melodrama sem jeito, mas tanto Fontaine como a atriz Virginie Efira evitam tal fado.

Verdade seja dita, a história desta mulher encurralada num inferno da sua própria criação representa o melhor fio narrativo do “Turno da Noite.” Longe de escolher um registo moralista que faz da câmara juíza de valor, Fontaine segue o preceito da empatia, procurando entender as vicissitudes depressivas da protagonista sem violar a sua intimidade. Nunca trespassamos a superfície da sua psique, mas as forças unidas de realizadora e intérprete afiguram um retrato complexo da personagem. Além disso, existe também uma dissecação feroz do sexismo intrínseco à autoridade policial, as agressões subtis que se vão acumulando ao longo de um dia de trabalho.

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Aristide, interpretado por Omar Sy, é figura menos explorada pelo guião quando comparado com a sua colega tornada amante. Em primeira análise, ele parece mais um macho sexista nas forças policiais, gentil para com Virginie, mas tão pronto a cair nas mesmas piadas ofensivas dos homens em seu redor. Contudo, momentos de introspeção oferecem-nos uma ideia mais multifacetada do homem, iluminando sua sensibilidade e o modo como os traumas circundantes o afetam. O Erik de Grégory Gadebois é menos heroico ainda, perdendo-se no ébrio da boa reputação profissional enquanto, em casa, uma relação de longa data se desmorona, reduzida a escombros e fechaduras mudadas.

No primeiro terço de “Turno da Noite,” sua mais interessante parte, Fontaine acompanha estes três em sequências repetitivas que consideram os mesmos acontecimentos através de diferentes pontos-de-vista. A altercação com um marido abusivo em caso de violência doméstica é extremamente diferente quando visto através dos olhos de Erik e Virginie, enquanto uma conversa entre os amantes ganha tonalidades distintas graças a algo tão simples como um enquadramento alterado. Aqui se encontram alguns dos mais sublimes exemplos de formalismo, economias de ritmo e montagem que tornam uma mãe pouco penitente em assombração brutal cujo horror ecoa pela restante fita como um grito entre montanhas.

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Dito isso, “Turno da Noite” jamais se perde em reflecções sobre filicídio ou outras das visões horroríficas que os protagonistas experienciam ao longo do seu dia de trabalho. Convergindo em ação noturna, a estrutura tripartida do filme é abandonada quando as personagens recebem uma missão incumbida graças à falta de pessoal. Desejosos de fugir ao que os espera em casa, Virginie, Aristides e Erik passam horas extraordinárias na escolta de um migrante ilegal ao aeroporto. Os detalhes do caso não são esclarecidos, a dúvida depressa se instalando no ambiente claustrofóbico do carro de patrulha, com alguns sentindo simpatia pelo prisioneiro enquanto outros se mantêm fiéis aos comandos superiores.

Como o misterioso Asomidin Tohirov, Payman Maadi – ator iraniano famosos pela colaboração com Asghar Farhadi – é figura perdida numa tragédia sociopolítica só por ele entendida. As outras figuras não compreendem o seu discurso e o próprio filme parece indeciso em relação às conclusões que quer tomar perante o seu caso. Ao invés de considerar a perspetiva desta quarta personagem, Fontaine permanece à distância, traindo as boas intenções sociopolíticas que o enredo poderia despertar. Quanto mais “Turno da Noite” se aproxima do fim, mais o argumento descamba, mas o trabalho dos atores nunca vacila. São eles que sustentam o exercício, especialmente Efira cuja caracterização prima pela negociação entre interioridades secretas e projeções furiosas, desconforto e paixão de mãos dadas com o dever dúbio da profissão policial.

Turno da Noite, em análise
o turno da noite

Movie title: Police

Date published: 29 de October de 2022

Director(s): Anne Fontaine

Actor(s): Virginie Efira, Omar Sy, Grégory Gadebois, Payman Maadi, Elisa Lasowski, Emmanuel Barrouyer, Anne-Pascale Clairembourg, Anne-Gaëlle Jourdain, Cécile Rebboah, Cédric Vieira

Genre: Crime, Drama, 2020, 98 min

  • Cláudio Alves - 60
60

CONCLUSÃO:

Quiçá com boas intenções, talvez influenciado por reacionismos gálicos, “Turno da Noite” examina um dia de trabalho para a polícia parisiense, desde confrontos diurnos com mães assassinas a escoltas rumo à deportação sem sentido. O trabalho de ator dá o maior valor da peça, mas o exercício da realizadora também revela qualidades inexistentes num texto desajeitado. Vendo o filme, é fácil perceber porque razão Virgnie Efira e Omar Sy são dois dos maiores nomes do cinema francês dos nossos dias.

O MELHOR: A prestação de Efira e os ocasionais floreados formalistas e estruturais com que Fontaine nos surpreende. Aplaudimos o uso do enquadramento enquanto barómetro tonal e alguns dos devaneios mais líricos em cenário noturno, a escuridão da rua parisiense inspirando o sonho lúcido de três polícias perdidos.

O PIOR: A relutância em explorar a perspetiva de Asomidin, resultando num teor de desumanização decerto acidental. Pelo menos, esperamos que seja acidental e não parte do jogo autoral de Fontaine e companhia limitada.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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