©Festa do Cinema Italiano | O Carteiro de Pablo Neruda

12ª Festa do Cinema Italiano | O Carteiro de Pablo Neruda, em análise

Para celebrar o seu 25º aniversário, “O Carteiro de Pablo Neruda” regressa aos cinemas portugueses numa edição restaurada. Não percas a nossa cobertura da 12ª Festa do Cinema Italiano.

Hoje em dia, é difícil não olhar para o legado de “O Carteiro de Pablo Neruda” com alguma reticência e cinismo. O filme representa a única obra falada numa língua que não inglês a conquistar uma nomeação para o Óscar de Melhor Filme durante os anos 90, sendo mesmo a única produção italiana a alcançar tal honra. Contudo, tal reconhecimento não parece provindo de qualquer respeito pela herança cinematográfica de Itália. A verdadeira causa deste sucesso nem foi mesmo a qualidade do filme, mas sim a campanha promocional intensa que a Miramax, seu distribuidor americano, montou. Uma campanha que, juntamente com todos os outros esforços desta mesma empresa, acabou por ser um ponto de viragem na História de Hollywood. Por outras palavras, “O Carteiro de Pablo Neruda” deve muito do seu legado ao monstruoso Harvey Weinstein.

Weinstein e seu irmão, fundadores da Miramax, dominaram o panorama do cinema de prestígio da última década do século XX. Sua metodologia empresarial era, na altura, uma peculiaridade gritante na indústria de cinema americana, baseando-se principalmente no sucesso dos filmes entre os prémios de Hollywood. Foram os Weinstein que começaram a fazer de novembro e dezembro os meses em que todos os dramas de prestígio estreiam, pois assim podiam garantir que os seus filmes estavam na mente dos votantes da Academia e que, quando as nomeações fossem anunciadas, as obras ainda estariam em sala para atrair novas audiências dinamizadas pelo prestígio adquirido com os Óscares.

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Uma amizade improvável.

Para garantir seu sucesso, Harvey Weinstein não se cingiu a manipular o calendário de estreias. Ele popularizou a prática moderna da campanha para o Óscar, promovendo agressivamente os filmes em todas as plataformas disponíveis e denegrindo publicamente a competição. Ao mesmo tempo, Weinstein, agindo enquanto produtor e distribuidor, moldava os projetos de modo a apelar especificamente aos gostos dos corpos votantes. No caso de filmes não-americanos, ele chegava a reeditar as obras antes de as estrear internacionalmente, ou bloqueava a distribuição até que os cineastas sucumbissem às suas demandas criativas. No caso de “O Carteiro de Pablo Neruda”, Weinstein não fez mudanças, pois o produto final já era o ideal platónico de um filme distribuído pela Miramax. Isso não é necessariamente um elogio.

Tratava-se de uma obra com pedigree europeu e a aparência de importância literária. Tinha uma pátina de complexidade histórica e política que, na verdade, nunca desafiam intelectualmente o espectador. Há a sugestão de sensualidade e erotismo, mas a figura feminina é quase um adereço sem uma psicologia complicada ou motivações que possam irritar um público conservador. As paisagens são bonitas e filmadas com um estilo banal, um postal em forma de filme, enquanto a música é agradável ao ouvido. Toques de romance e um final triste trazem emoção fácil e, assim, o espectador sente-se comovido e pensa que participou numa experiência culturalmente importante.

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O melhor de tudo é que o filme trazia consigo uma perfeita história de tragédia atrás das câmaras que praticamente garantia seu sucesso entre jornalistas e votantes dos Óscares. Massimo Troisi era uma estrela em ascensão do cinema italiano e “O Carteiro de Pablo Neruda” era um projeto que há anos ele tentava trazer aos seus ecrãs nacionais. Foi ele mesmo que escreveu o argumento, adaptando um romance de Antonio Skármeta de tal modo que quase nada dessa obra original ou do facto histórico se mantêm no filme. Também protagonizou e realizou algumas partes da obra e, chegado o fim da rodagem, Troisi morreu repentinamente devido a problemas cardíacos. Sua perda pintou o filme como o testamento final de um grande artista demasiado novo para tal fado. Não podemos denegrir as capacidades de Troisi como ator, sendo que ele traz um naturalismo admirável ao filme, mas seus feitos enquanto argumentista deixam muito a desejar e não há tragédia da vida real que vá mudar isso.

Nas mãos de Troisi, a história de um adolescente chileno a travar conhecimento com o célebre poeta comunista em tempos de revolução tornou-se na tragédia romântica de um carteiro italiano na casa dos 40 que conhece Neruda num exílio fictício em Itália. Quase toda a retórica política foi apagada da narrativa e o final trágico também é uma novidade, visto que o livro termina de forma totalmente diferente. Todas estas mudanças tiraram a complexidade ideológica do romance e substituíram-na pela manipulação descarada das emoções do espectador. Veja-se só como, por exemplo, Neruda não faz mais nada no filme senão servir como catalisador para a evolução do carteiro titular ou barómetro emocional do espectador. As especificidades de Pablo Neruda são tão inconsequentes que, se mudássemos a sua personagem para a de um poeta imaginário, a história não se alterava.

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Uma joia de sentimentalismo barato perfeito para ganhar prémios de cinema.

Enfim, o argumento é um poço sem fim de sentimentalismo indisciplinado, mas, pelo menos, lá serve para espicaçar as emoções da audiência. A realização do inglês Michael Radford, por outro lado, é imperdoável no que diz respeito à sua banalidade. Se a desinspiração composicional e dramática com que o filme se desenrola fossem evoluindo ao longo da narrativa, ainda podíamos entender o trabalho de Radford como um seguimento do modo como o carteiro aprende a ver o mundo com outros olhos. No entanto, nenhuma das escolhas do realizador aparentam ser motivadas pela dramaturgia. Esteticamente, isto não afeta muito a qualidade do filme que, não obstante a falta de ideias do realizador, tem o benefício de ter uma sublime equipa de criativos atrás das câmaras.

A cenografia de Lorenzo Baraldi e os figurinos de Gianna Gissi trazem um realismo material atraente à produção, encontrando beleza na mácula e na pobreza. A fotografia de Fraco Di Giacomo, por outro lado, é elegante, apesar de as suas composições serem tristemente inertes e sem vida. Em termos de som, aí sim, temos de felicitar “O Carteiro de Pablo Neruda”, pois tanto a música como a sonoridade natural das paisagens italianas vibram com uma expressividade incomum. O facto de que a banda-sonora Oscarizada raramente exagera o dramatismo das cenas é um gesto de contenção admirável. Por outras palavras, este filme é atraente e importante, em tempos até foi a joia da coroa de Harvey Weinstein, mas, enquanto uma obra de arte cinematográfica, é demasiado convencional para o seu próprio bem.

O Carteiro de Pablo Neruda, em análise
O Carteiro de Pablo Neruda

Movie title: Il Postino

Date published: 2019-04-05

Director(s): Michael Radford

Actor(s): Massimo Troisi, Philippe Noiret, Maria Grazia Cucinotta, Renato Scarpa, Linda Moretti, Mariano Rigillo, Anna Bonaiuto

Genre: Biografia, Comédia, Drama, Romance, 1994, 108 min

  • Cláudio Alves - 55
  • José Vieira Mendes - 60
58

CONCLUSÃO:

“O Carteiro de Pablo Neruda” é um projeto relativamente meritoso que, apesar disso, não merece a aclamação que tem recebido ao longo dos últimos 25 anos.

O MELHOR: A performance de Troisi e as composições musicais de Luis Bacalov.

O PIOR: A caracterização unidimensional de todas as figuras femininas em cena e as drásticas mudanças de tom e tema que ocorreram na viagem desta história desde as páginas do romance original até ao grande ecrã.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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