“Fuori”, de Mario Martone. @19ª Festa do Cinema Italiano/Divulgação

19ª Festa do Cinema Italiano | O Cinema Italiano Continua a Roubar Livros

Na 19ª Festa do Cinema Italiano, os livros não são sagrados: são matéria-prima, vítimas e cúmplices de um cinema que os trai, transforma e, às vezes, melhora.

Há uma ideia muito romântica — e profundamente ingénua — de que o cinema “adapta” livros, quase como se houvesse ali uma espécie de respeito institucional, quase religioso, pela palavra escrita. Como se o realizador entrasse na sala de montagem de joelhos, com o romance debaixo do braço, a pedir autorização ao autor para cortar um parágrafo.

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Na verdade, não entra, nunca entrou. A 19ª Festa do Cinema Italiano, vem-nos também ajudar a desmistificar isso mesmo com uma elegância descontraída: o cinema não adapta livros. O cinema devora livros. Mastiga-os, cospe partes, inventa outras, e no fim apresenta-nos uma versão que já não pertence a ninguém, nem ao escritor, nem ao leitor, nem sequer ao próprio realizador. E ainda bem. Porque é desse crime artístico que nasce muitas vezes o melhor cinema.

O escritor como personagem: quando a literatura entra em cena

Comecemos pelo mais evidente: quando o próprio escritor se torna cinema. É o caso de “Camilleri 100”, de Francesco Zippel, que celebra o centenário do escritor Andrea Camilleri, o homem que inventou Comissário Montalbano e, com ele, uma forma muito italiana de olhar para o crime: com ironia, comida e uma certa preguiça existencial. Aqui, o livro já não é apenas ponto de partida: é biografia, é memória, é arquivo.

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Camilleri aparece como aquilo que raramente vemos: um escritor que percebeu que a televisão e o cinema não eram inimigos da literatura, mas extensões naturais dela. Trabalhou na RAI, escreveu para imagem, pensou em ritmo, em diálogos, em cenas. Era, no fundo, um escritor com instinto de realizador. E isso nota-se: há autores que escrevem livros. E há autores que já estão, secretamente, a escrever filmes.

19ª Festa do Cinema Italiano
“As Provadoras de Hitler”, de Silvio Soldini. ©19ª Festa Do Cinema Italiano/Divulgação

Adaptar é sem dúvida trair 

Depois há os casos mais clássicos ou, pelo menos, aqueles que fingimos que são clássicos na 19ª Festa do Cinema Italiano. “As Provadoras de Hitler”, de Silvio Soldini, parte do romance de Rosella Postorino e podia facilmente cair na armadilha habitual: “ser fiel ao livro”. Felizmente, não cai. O que o filme faz — e faz muito bem — é perceber que há coisas que funcionam na literatura e que simplesmente não existem no cinema. A interioridade, por exemplo. Aquele fluxo de pensamento que um romance pode esticar durante páginas inteiras.

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No ecrã, isso é morte certa e uma maçada para o espectador. Literalmente: o espectador morre de tédio. Soldini opta por outra via: transforma o medo em corpo. O que no livro é psicológico, no filme torna-se físico. A tensão não está nas palavras, está nos gestos, nos olhares, na comida que pode matar. É menos literatura e muito mais cinema. E é aqui que começa uma verdade às vezes discutível: uma boa adaptação não é aquela que respeita o livro. É aquela que percebe quando tem de o trair.

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O íntimo filmado: quando o cinema sussurra como um romance

Em “Três Vezes Adeus”, da realizadora catalã Isabel Coixet, inspirado na obra de escritora italiana Michela Murgia, a coisa complica-se. Porque aqui não há grandes eventos históricos nem premissas “cinematográficas”. Há separação, doença, desgaste emocional ou seja, aquilo que normalmente acontece fora de campo nos filmes mais comerciais. E, no entanto, é precisamente aqui que o cinema encontra a literatura num ponto raro: o da intimidade.

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Coixet filma como quem escreve, com pausas, com silêncios, com pequenas observações que parecem insignificantes mas que, de repente, nos atingem como uma frase sublinhada num livro. Não há espectáculo. Há vida. E, ironicamente, é quando o cinema deixa de querer ser “cinema” que mais se aproxima da literatura.

Biografias, memórias e ficções: o território híbrido

A coisa torna-se ainda mais interessante na 19ª Festa do Cinema Italiano em “Fuori”, de Mario Martone, onde Valeria Golino interpreta a escritora e activista Goliarda Sapienza (1924-1996). Não estamos perante uma adaptação directa. Nem sequer perante uma biografia convencional. Estamos num território intermédio, esse lugar estranho onde a literatura, a vida e o cinema se confundem.

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O filme não quer “explicar” Sapienza. Quer aproximar-se dela. E isso é uma diferença fundamental. Porque explicar é reduzir. Aproximar é aceitar o mistério. O mesmo acontece em “Un anno di scuola”, de Laura Samani, a partir de  u livro de Giani Stuparich. Aqui, a literatura serve como ponto de partida para uma coisa mais volátil: a memória da adolescência, que nunca é fiel a nada, nem aos factos, nem aos sentimentos, nem sequer ao próprio passado.

Quando o argumento já é literatura

E depois há os casos mais deliciosos: aqueles em que já não sabemos onde acaba a literatura e começa o cinema. “Napoli – New York” nasce de um argumento não filmado de Federico Fellini e Tullio Pinelli. Ou seja, um texto que nunca chegou a ser filme, mas que já era, de certa forma, literatura. E depois há “Duse”, de Pietro Marcello, que transforma a vida da grande actriz de teatro Eleonora Duse (1858-1924) numa espécie de poema visual. Aqui, o cinema não adapta um livro. Adapta uma aura. E isso talvez seja o mais difícil de tudo.

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19ª Festa do Cinema Italiano
“Napoli – New York” nasce de um argumento não filmado de Federico Fellini e Tullio Pinelli. ©19ª Festa Do Cinema Italiano/Divulgação

No fim, ninguém ganha 

A grande lição desta programação “Do Livro ao Ecrã” da 19ª Festa do Cinema Italiano é simples e um bocadinho desafiante: o cinema não precisa da literatura. E a literatura não precisa do cinema. Mas quando se encontram, não é um amor à primeira vista pelo contrário, raramente se respeitam. E ainda bem. Porque é desse desrespeito que nascem as melhores coisas. Filmes que não cabem nos livros. Livros que continuam a ecoar depois dos créditos finais. E espectadores — nós — que saem da sala com aquela sensação estranha de já terem visto aquilo antes…mesmo quando nunca o leram.

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Talvez seja esse o verdadeiro milagre: não a fidelidade, mas a transformação ou melhor à transposição. E, no meio disto tudo, a única pergunta que continua a fazer sentido não é “o livro é melhor?”, mas sim outra, muito mais honesta: Quem traiu melhor quem?

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