"Nuovomondo - A Porta da Fortuna" | © Rai Cinema

Festa do Cinema Italiano ’23 | Nuovomondo – A Porta da Fortuna, em análise

Emanuele Crialese teve a honra de abrir a 16ª Festa do Cinema Italiano com sua mais recente obra, o drama com traços autobiográficos “L’immensità.” No entanto, esse não é o único título da sua filmografia em exibição. Dentro das sessões especiais do festival, “Nuovomondo,” também conhecido como “Golden Door” ou “A Porta da Fortuna,” teve direito a reapreciação. Em 2006, o filme ganhou sete prémios na Bienal de Veneza, incluindo um Leão de Prata.

De Chaplin a Coppola, passando por Jan Troell, histórias de emigração, traçando o percurso do Velho ao Novo Mundo, representam um tópico predileto de muitos cineastas. Quiçá a mudança de cenário seja a razão para o apelo, quiçá seja a possibilidade de retratar resiliência humana, ou explorar o país que viu nascer Hollywood no momento génese de uma nação, de uma cultura feita de tradições cosidas qual manta de retalhos. Mas é claro, toda a viagem é inerentemente cinematográfica, ora seja o preceito do ‘road movie’ ou estes épicos intercontinentais que olham para trás.

Enfim, abandonemos a consideração histórica. É fácil perdermo-nos em ideias gerais, esquecendo o específico, perder a vista do objeto individual quanto tanto nos preocupamos com seu lugar num panorama universal. “Nuovomondo” de Emaneuele Crialese é uma obra singular e merece ser encarada como tal, mesmo quando na sua sinfonia ouvimos o eco de filmes passados. Trata-se, pois claro, de uma história de emigração, acompanhando os Mancuso, uma família Siciliana durante o virar do século. Como aconteceu com tantos outros, a pobreza miserável inspirou sonhos de uma vida melhor naquela terra de oportunidades – a América!

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© Rai Cinema

A inspiração diz-se divina, em gesto de postal caído dos céus, mas o realismo das primeiras passagens dissuade o espetador de se perder em conceitos fantásticos. Pintando o ecrã em pinturas de terra e rocha, montanhas agrestes e condições de vida atrozes, Crialese captura a visceralidade do cenário, imergindo a audiência no milieu das personagens. Só que, como vamos perceber, o realizador tem um plano para transformar estes tons de naturalismo histórico em algo mais abstrato, entre o símbolo bíblico e o sonho. Não estamos somente numa viagem física, mas também numa jornada de um cinema a outro.

Será impossível esquecer a herança do Neorrealismo Italiano quando se considera o primeiro de três atos bem definidos. Contudo, há logo um presságio da mutação futura na qualidade imagética. A diretora de fotografia Agnès Godard desencanta esplendor no desespero rural, plantando sementes de irrealidade cinematográfica sem violar o jogo de transição gradual estabelecido pelo realizador. Na beleza visual, Crialese deixa aberta a porta, sugerindo a saída da cela realista e concreta na direção do abstrato. A magia também existe no discurso, conversas de sabor lunático sobre os EUA enquanto terra de vegetais gigantes e tanta fartura que a gente nada em leite.

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A cor amarelada, relativamente natural, da Sicília perde-se em negruras e artifícios humanos quando os Mancuso, liderados pelo patriarca Salvatore, encontram lar temporário num desses grandes navios cheios de almas perdidas. Pelo caminho, ganham eles o primeiro grande elemento de disrupção. É ela uma inglesa que se diz chamar Lucy e planeia entrar nas Américas no papel de noiva prometida. Sua história nunca se explica, mas sentimos o florescer de algo surreal quando a câmara se deixa hipnotizar pelo peixe fora d’água. Sua presença traz estranheza, mas também traz comédia, algo necessário quando a viagem se prova sôfrega.

O sofrimento não cessa quando a odisseia chega a Ellis Island, desenrolando-se o capítulo mais difícil do filme neste cenário onde a esperança morre e sonhos saem vencidos. Longe de ser terra da fortuna, os EUA revelam-se teatro de humilhação e degredo, a alfândega para carga humana qual limbo entre dois tipos diferentes de inferno. O detalhe das janelas perdura na memória, um elemento histórico que Crialese usa para sublinhar o sentimento intangível do seu poema visual. Acontece que o vidro é fosco, feito para não deixar que a gente veja o exterior, cobrindo a Estátua da Liberdade, sua figura só para os olhos de quem as autoridades aprovam para entrada no país.

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© Rai Cinema

A viagem tonal e a transformação completam-se no abismo e na agonia, quando os Mancuso veem todos os planos ruir e o futuro na linha. Sua história é a história de toda uma geração europeia em busca de algo melhor e o cineasta presta homenagem ao facto histórico sem sucumbir ao verismo puro e duro. A Fé, ora fundamentada pela religião ou fincada na garantia que tudo vai correr bem, serve como bote salva-vidas e como prisma pelo qual a câmara perscruta oportunidades para o devaneio. O design mantém-se sempre fiel a preceitos de verismo, mas a encenação resvala em visões tão espetaculares como a mentira do mar de leite feita verdade pelo poder do cinema. A Fé no amanhã é a terra fértil de onde germinam sonhos doirados. A Fé daqueles que já foram, permite dar nova vida aos fantasmas, ressuscitados no grande ecrã em “Nuovomondo.”

Sobre o Autor

Nuovomondo - A Porta Fortuna, em análise
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Movie title: Nuovomondo

Date published: 31 de March de 2023

Director(s): Emanuele Crialese

Actor(s): Charlotte Gainsbourg, Vincenzo Amato, Vincent Schiavelli, Aurora Quattrocchi, Francesco Casisa, Filippo Pucillo, Federica De Cola, Isabella Ragonese, Filippo Luna, Ernesto Matthieux

Genre: Drama, História , Romance, 2006, 118 min

  • Cláudio Alves - 80
80

CONCLUSÃO:

Às Portas da Fortuna, uma família italiana confronta um potencial apocalipse ao mesmo tempo que almejam nova vida num “Nuovomondo.” Primeiro grande sucesso de Emanuele Crialese, este filme prima pela beleza das suas imagens, capazes de se transformarem de um Neorrealismo historicista a algo mais próximo do poema, talvez a expressão onírica.

O MELHOR: A fotografia de Agnès Godard é um milagre.

O PIOR: A simbologia religiosa consegue ser um pouco insistente demais. Além disso, a estrutura do filme pode ser bem definida, mas isso não significa que seja especialmente fluida ou até funcional. Há uma natureza arrítmica que prejudica a elegância dos seus momentos mais fantásticos.

CA

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