Festival Scope | Filmes da Semana da Crítica de Cannes (IV)

Marcam presença no Festival Scope duas comédias francesas sobre jovens de 20 anos em crise existencial. L’Enface d’un Chef e Le Soldat Vierge são obras diametralmente opostas em termos de criatividade cinematográfica e ambição formal.

 


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Título: L’Enface d’un Chef
Realizador:  Antoine de Bary
Elenco: Vincent LacosteFélix Moati, Thomas Blumenthal
França | 15 min


 

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Filmes sobre jovens protagonistas masculinos e privilegiados a se tentarem afirmar e encontrar o seu lugar no mundo são uma irritante constante do cinema do circuito dos festivais e L’Enface d’un Chef é um exemplo perfeitamente convencional e desinspirado desse tipo de narrativa. A grande mais-valia do filme é mesmo, convém dizer, a sua diminuta duração. Com o formato de longa-metragem aplicado a esta ideia, abordagem e personagem é fácil conjeturar o verdadeiro monumento de clichés e fórmulas cansadas que o realizador estreante Antoine de Bary teria criado.

Esse já referido protagonista é Vincent, um ator de 20 anos que recentemente conseguiu assegurar aquele que poderá ser o papel decisivo na sua carreira, Charles de Gaulle, ao mesmo tempo que é forçado pelos seus pais a deixar a habitação familiar e ir viver sozinho num apartamento completamente fora das possibilidades económicas da maior parte dos jovens atores em início de carreira. Marcam presença muitas cenas de inseguranças masculinas e supostos dilemas de um jovem a ter, pela primeira vez, de encarar a vida como adulto, mas é difícil olhar a experiência presente no ecrã como pouco mais que uma visão incrivelmente insular de um ator tornado realizador que tenta forçar ao seu filme uma dose de jovial comédia e superficial realismo formal.

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Tendo já estabelecido que este filme traz pouco ou nada de novo ao panorama atual do cinema, nem sequer demonstra grande inspiração estética, convém apontar que a ideia que o filme sugere que a entrada na vida adulta é uma espécie de performance insegura em que emulamos padrões e pressupostos que nos são incutidos por nossos pais e sociedade é bastante interessante. No entanto, uma ideia meramente sugerida por entre as linhas textuais não é suficiente para salvar o filme. Quando a forçosa banda-sonora se manifesta com seus tons cómicos muito pouco convincentes, então é como se todo o edifício cinematográfico se estivesse a querer implodir, para nada dizer da ridícula caricatura de um gritante realizador alemão.

 


Título: Le Soldat Vierge
Realizador: Erwan le Duc
Elenco: Christophe Montenez, Nicolas Chupin, Maud Wyler
França | 39 min


 

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Depois de uma abertura solene e operática e que a música de Ravele acompanha grandes planos de um olho que mira os céus, vemos uma mão ensanguentada. Rapidamente a música cessa e a câmara afasta-se drasticamente do seu sujeito, Jerôme, um soldado ferido numa guerra de participantes, tempo e localização indefinida. O jovem, apenas nos seus vinte anos, observa o sangue e a sua ferida como que atónito com o seu estado, até que seu companheiro, Daniel, aparece e os dois continuam a sua caminhada com destino incerto.

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Apesar de não sentir a agonia física que se esperaria de um ferimento tão brutal, o jovem soldado titular rapidamente declara que vai morrer. Tal é uma certeza inquestionável, apenas desafiada por Daniel quando este ouve o último pedido de seu irmão de armas. Jerôme não quer morrer virgem, quer fazer amor e deixar a vida em êxtase, tendo sentido o que é ser amado. O filme que, até então tinha sido uma obra de relativa convenção, rapidamente se começa a expor como uma ensandecida exploração formal, estrutural e narrativa. De tragédia humana, passamos a uma farsa de dois perseguidores que observam os dois companheiros de longe. Depois, ainda encontramos pelo caminho um soldado camuflado e de intenções jovialmente necrofilias, assim como uma divindade nipónica sob a aparência de uma turista caminhante.

Através de toda esta loucura e vertiginosa variação tonal entre tragédia existencialista e comédia de absurdos, o realizador Erwan Le Duc tece uma história de intenções difíceis de discernir e que inclui mesmo outras narrativas dentro de si sob a forma de um conto finlandês e a já referida figura do folclore japonês. O filme, na verdade, inclui uma bibliografia nos seus créditos, onde Le Duc coloca os nomes de grandes pensadores, como que revelando a condição deste filme como um exercício intelectual, formal e filosófico. No entanto, para grande benefício do filme, Le Soldat Vierge não se reduz a essa fria e académica realidade, sendo também uma divertida e triste visão de um moribundo em gentil súplica de generosidade e carinho nos seus últimos momentos de vida.

 

CA


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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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