Festival Scope | Filmes da Semana da Crítica de Cannes (III)

O sexo é um tema incontornável do cinema contemporâneo e está presente em várias curtas em presente exibição no Festival Scope. Prenjak, o grande vencedor da Semana da Crítica em Cannes, e Superbia, um bizarro filme de animação húngaro, colocam isso em evidência, abordando conceitos e imagens intrinsecamente sexuais com uma invulgar franqueza e ensandecida criatividade.

 


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Título: Prenjak
Realizador:  Wregas Bhanuteja
Elenco: Rosa Winenggar, Yohanes Budyambara, Hosea Hatmaji
Indonésia | 16 min


 

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Em Prenjak, uma jovem viúva, Diah, pede dinheiro a um dos seus colegas de trabalho. Em troca, ela vende-lhe fósforos, o que inicialmente não parece despertar nenhum interesse em Jarwo. Rapidamente ela revela-lhe a proposta completa e bem mais apetecível, pois cada fósforo poderá ser usado para ele vislumbrar o sexo da colega. Face a esta proposta, Jarwo consente à transição monetária, sendo que, no final, oferece a Diah o seu próprio negócio. Ele entregar-lhe-á o restante dinheiro que ela necessita se ela, por sua vez, observar o seu sexo durante 30 segundos.

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Há algo quase de infantil no jogo de observação atrevida entre estas duas personagens, mas este ato de voyeurismo à luz da chama tem as suas origens numa tradição de Yogyakarta, onde foi filmado todo o filme. Pegando nessa tradição, o realizador Wregas Bhanuteia recontextualiza-a e coloca-a sob o prisma da realidade contemporânea de uma mulher que necessita desesperadamente de dinheiro para o sustento da sua pequena família, injetando assim uma boa dose do realismo social a que estamos acostumados em festivais como Cannes.

No entanto, desengane-se quem esperar ver em Prenjak uma negra e fastidiosa pintura de miserabilismo alheio. Na verdade, o filme prima pela comédia que consegue encontrar nesta situação meio absurda, assim como pela beleza humana que captura na observação da sua atriz principal. A cena em que Diah está sob a escuridão de uma mesa, e com um isqueiro acendido para ver o pénis do seu colega, é de particular destaque, ao explorar os mistérios do comportamento humano nesse instante. O desejo de ver o que não se devia, o desespero por sustento económico e a simples inocência da curiosidade inexplicável.

 


Título: Superbia
Realizador:  Luca Tóth
Hungria | 16 min


 

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Parte bizarra e alucinatória guerra de géneros, parte exploração visual de deformidade e distensão da figura humana, Superbia é um dos mais inesquecíveis e invulgares filmes desta seleção. Também é, há que se entender, o único filme de animação aqui presente, e a sua realizadora húngara, Luca Tóth, tira formidável partido das possibilidades visuais que esse meio lhe concede, ilustrando a sua visão através de animação bidimensional em cores garridas e um desenho de personagem de uma peculiaridade tão magnífica e carnal como levemente amedrontadora.

Esta obra, desprovida de qualquer tipo de diálogo falado, desenrola a sua breve narrativa num mundo tão claramente distante do nosso, como desconcertante na sua proximidade. Nele, habitam homens e mulheres separados por um rio que brota da fantasiosa anatomia de uma besta gigante que se impõe majestosa no horizonte. A barreira geográfica, no entanto, é apenas uma supérflua manifestação fluvial da completa separação que vemos nesta realidade. Os homens, de estatura diminuta e envergando roupas que lhes escondem a nudez, vivem numa gruta onde se entretêm a olhar-se ao espelho e a tocar música. Por seu lado, as mulheres são seres tribais de monstruosas proporções, que usam os seios superdesenvolvidos como musculosos braços.

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No meio desta realidade humanoide em clara desigualdade sexual, surge uma inesperada ligação entre homem e mulher, desencadeando uma peculiar sequência de eventos. Por um lado, a eventual união igualitária dos amantes parece despoletar uma experiência metafisica, uma visão ensandecida de êxtase físico e espiritual. Por outro, a sua consumação parece trazer consigo a radicalização animalesca de uma das mulheres, que, na sua angústia, recorre a demónica violência para o refortalecimento das desigualdades de género. Sem ser demasiado didática na sua abordagem, este filme está repleto de potentes imagens e ideias. Num momento, Tóth mostra um homem a dar a luz através de seu pénis e a seguir, num gesto aparentemente mundano, demonstra como a falta de balanço entre géneros poderá, no final, não passar de uma convenção autoimposta pelas regras artificiais, irracionais e cruéis da comunidade.

 

CA


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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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